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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Por que Deus se fez homem? (Artigo IV)

Por Eduardo Moreira.
Quem é o homem e por que ele foi criado?
Continuando os artigos anteriores, é conveniente saber quem é o homem e por que ele foi criado. Não se fala mais hoje sobre o que dizia o pensamento medieval acerca do homem enquanto ser racional, criado a Imagem e Semelhança de Deus para amá-lo, tendo o livre arbítrio para decidir que caminho seguir.
Na obra Por que Deus se fez homem de Santo Anselmo consta que há um número perfeito planejado por Deus a ser preenchido com criaturas racionais para gozarem junto do criador dum paraíso. Logo, os anjos foram criados racionais para desfrutarem desse paraíso divino, mas um número dos anjos caiu e assim o número perfeito ficou distante de ser preenchido.
Falando primeiramente dos anjos, sabemos que os que caíram sofreram a queda por algum motivo. A primeira possibilidade é que foram criados mais anjos que o número perfeito, o que fez com que alguns anjos tivessem que cair posto que Deus não pôde ter calculado mal esse número. Tendo-se que Deus é imensamente sábio e bom, essa hipótese é absurda, pois seria o mesmo que dizer que Deus criou de má fé um número excedente de anjos, já pensando em deixar que alguns caíssem. A segunda possibilidade é que os anjos foram criados para fazerem parte do número perfeito, mas não prevaleceram nesse número e assim usando sua racionalidade e seu livre arbítrio, escolheram sem retorno a queda no pecado. Em outra oportunidade mostrar-se-á o porquê dos anjos caídos não poderem se reconciliar, mas por hora ficará apenas que a segunda hipótese é a mais lógica.
Se havia um número perfeito, esse número deve ser preenchido a fim de manter a perfeição natural querida por Deus. Esse número deve ser preenchido ao menos substituindo o número dos anjos caídos, mas ficará claro adiante que é superior. O número perfeito pode ser atingido mediante a criação de anjos ou de homens, todavia, a geração de novos anjos não pode seguir a reta justiça de Deus.
Os anjos são andróginos e por isso são incapazes de gerar novos anjos. Logo, ou Deus poderia criar novos anjos, ou poderia criar outro ente dotado de raciocínio que fosse capaz ao menos de substituir os anjos caídos e quiçá completar o número perfeito. Assim uma das hipóteses deveria ser cumprida para que a obra de Deus fosse perfeita.
Em uma análise vê-se que se Deus criasse anjos novos seria injusto posto que os anjos caídos, se não tivessem pecado seriam mais dignos de glória que os novos anjos. Os anjos que caíram se não tivessem caído seriam mais dignos do mesmo elogio que os anjos novos. Os antigos anjos que não pecaram, vendo o castigo dos anjos pecadores perseveraram, mas não foi por isso que ficaram de pé e sim por seu estado de plenitude e amor a Deus que escolheram, ou seja, por seu próprio mérito. Se houvesse de cair algum anjo para que os outros se confirmassem na fé, ou todos cairiam ou deveria necessariamente haver a queda de alguns para que os outros perseverassem. Como ambas hipóteses são absurdas, vemos que os anjos confirmados se confirmaram por seu próprio mérito. Assim nota-se que anjos novos e antigos não seriam iguais e isso seria, de fato, indigno.
Pelo raciocínio acima observa-se que novos anjos não podem ser criados para substituir os antigos, pois isso seria injusto e nenhuma injustiça pode vir de Deus. Vários motivos impedem que anjos se reconciliem com Deus, impedindo que anjos maus voltem a fazer parte do número perfeito. Os anjos, ao contrário dos homens, não  descendem de um mesmo anjo e por isso não podem ser remidos por um Deus-anjo comum posto que cada anjo é único em gênero e teria que remir a si mesmo. Deus não pode encarnar em cada anjo caído para remi-lo. Como os anjos não têm descendência, Deus não pode se encarnar em um único anjo para remi-los todos. Anjos não são mortais e assim não existiria o sacrifício de um Deus-anjo bem como não pode haver encarnação de Deus num anjo posto que anjos não têm carne. Por fim, os anjos estão em estado de plena consciência atemporal, conhecendo no ato de sua rebeldia todas as conseqüências dessa sendo assim incapazes de se arrependerem de alguma ação. Logo, uma vez cometido um pecado por um anjo, ele não pode mais voltar atrás e após pecar certamente cairá.
Partindo dos dois parágrafos anteriores vemos que Deus não pode remir os anjos e que não pode criar novos anjos, posto que a criação de novos anjos seria uma desigualdade e uma injustiça no que tange os méritos angelicais. Ver-se-á agora que se os anjos existiam em perfeito número, os homens foram criados apenas para substituí-los. Por outro lado, se não havia anjos em perfeito número, os homens foram criados de forma a substituir os anjos réprobos e completar o número perfeito e, portanto, deverá haver mais homens que anjos prevaricadores.
Se Deus criou os anjos em perfeito número, tem-se que o homem foi criado após os anjos e exclusivamente para substituir esses. Todavia, isso seria perverso, pois não pode ser digno de Deus criar o ser humano unicamente para substituir os anjos caídos, afinal, isso soa como um mero capricho divino. Tem-se que, por outro lado, se homens e anjos foram criados juntos e sendo que anjos não deixam descendência, coube aos homens o papel de completar o número imperfeito e, eventualmente se houvesse queda de anjos, substituir esses anjos que caíram. Ora, o homem então por esse segundo raciocínio, é, embora frágil e mortal, capaz de se elevar ao tão perfeito estado dos anjos e com isso o homem pode certamente substituí-los. Deus certamente em sua infinita sabedoria já estava ciente de que tanto homens como anjos poderiam prevaricar, mas seguramente a defesa de Deus em relação aos homens é maior devido à sua maior fragilidade. Dessa maneira, é mais lógico que homens e anjos foram criados em número imperfeito e cabe aos homens tanto substituir os anjos réprobos como completar o número perfeito.
Outro argumento mostra que seria perverso dizer que os homens foram criados apenas para substituir anjos caídos: se assim fosse a felicidade da salvação dos homens seria a mesma felicidade de se contemplar a queda dos anjos, afinal, aquela dependeria dessa. Deus, que é infinita bondade, não pode criar um ente que se regozije com a desgraça alheia. Logo, homens e anjos foram criados juntos pela infinita justiça de Deus. Alguém pode objetar dizendo que foi pela negação dos judeus que os demais povos conseguiram a redenção, o que seria tão injusto quanto criar homens apenas para completar o número de anjos caídos. Esse argumento é, entretanto falso. O Messias veio para todos os homens, independentemente da aceitação dos judeus ou não. Logo, os apóstolos não pregaram aos gentios porque os judeus não aceitaram a salvação, mas aproveitaram que os judeus negaram o Cristo para levar o Evangelho aos que queriam ouvi-lo, que no caso eram os gentios, pois toda pessoa que teme à Deus e pratica o bem lhe é agradável (At 10, 35).
Se, pois, é um inconveniente que o homem se alegre com a queda dos anjos e se não pode haver inconveniente na Jerusalém Celeste, então é de todo impossível que os homens tenham sido criados apenas para preencher um número de anjos caídos. Além disso, é um número misterioso a soma dos anjos caídos com o número de homens que falta para completar a Cidade Gloriosa, o que parece mais lógico aos insondáveis desígnios de Deus, pois não cabe aos homens saber quantos homens hão de se salvar. É bom dizer aqui também que não é digno de Deus criar homens para que se percam. Deus, portanto, criou os homens sendo todos eles passíveis de alcançarem a Salvação.

sábado, 27 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem? (III parte)


Por: Eduardo Moreira¹ e Mariana Prado Borges².

Considerações sobre o evolucionismo

Quase na redação do quarto artigo da série “Por que Deus se fez homem?” cabe, talvez de forma tardia, dizer algumas palavras as quais certamente responderão perguntas já feitas pelos leitores em suas mentes. Quem vos escreve é um cientista, não um filósofo ou teólogo, que dista em muito das áreas biológicas, mas que sabe um mínimo acerca do evolucionismo darwiniano. Todavia, esse mesmo cientista possui contatos que lhe são capazes de assegurar que seu pronunciamento sobre essa teoria é verdadeiro. Tomando, pois, o mínimo conhecimento e a opinião de uma bióloga, Mariana Prado Borges, fica livre o autor para tecer alguns comentários acerca dessa teoria.

Distam-se quase nove séculos desde a redação da obra de Santo Anselmo a partir da qual foram feitos os raciocínios da série de artigos na qual esse se encontra. Todavia, embora antiga, a obra de Santo Anselmo parece atual e não é a ignorância do Santo Sábio Doutor da Igreja (que existe por razões óbvias) acerca do evolucionismo que tira dela os méritos e a profundidade do raciocínio que se lhe tem. Essa obra é pautada no raciocínio filosófico, dentro das limitações científicas da era chamada “medieval”.

Entretanto, é bom alertar ao leitor sobre certos equívocos e injustiças que se têm cometido em nome da assim chamada Teoria da Evolução. Muitos já são os cientistas céticos dessa teoria, que traz consigo verdades e dúvidas. O Gênesis não é, pois, um livro científico. A Igreja subsidiou pesquisas acerca do Big Bang, as quais foram desenvolvidas primordialmente por um padre jesuíta, Georges Lemaître, e a Igreja sabe perfeitamente que o universo não foi criado em sete dias como afirma Livro Sagrado. Esse, por sua vez, não trata de questões científicas e no que tange a criação, o próprio Santo Anselmo já afirma que os dias da Criação não são os nossos dias. Logo, os sete dias da criação não passam de uma poesia, uma narrativa belíssima da criação do mundo que atesta a maior verdade de todos os séculos: O universo foi criado e desejado por Deus.

No que diz respeito à teoria da evolução, o Papa Pio XII em 1938 escreveu uma encíclica chamada “Humani Generis”, a qual pode ser encontrada no sítio oficial do Vaticano e onde ele dá total liberdade dos fiéis em estudarem o evolucionismo monogenista. Não há, assim (e o mesmo Papa já disse isso na citada encíclica), qualquer liberdade para crer no poligenismo, que não é nem sustentado pela Ciência que revela através de análises do DNA mitocondrial que somos sim descendentes de uma só mulher (Teoria da Eva Mitocondrial).

Até então, entretanto, o ponto de vista oficial da Igreja é o criacionismo, muito embora seja dado aos fiéis o livre arbítrio para estudar e até crer no evolucionismo, não esquecendo, é claro, de que o homem é a obra prima de Deus, criada racional para conhecer o certo e o errado e assim amar ao Criador. Logo, não importando o caminho, o homem foi querido e criado por Deus. Assim como no passado a Igreja Católica (e as comunidades protestantes) sustentaram o geocentrismo até se ter uma prova concreta do heliocentrismo, hoje o catolicismo defende o criacionismo.

É bom dizer que a ciência não é “maldita”, posto que o Papa Beato João Paulo II disse que a ciência pode purificar a religião dos equívocos e das superstições e ele mesmo elogiou em certo pronunciamento público a teoria de Darwin, dizendo que é possível conciliá-la com a Teologia. Logo, aqueles que quiserem ler os artigos da série “Por que Deus se fez homem?” à luz do evolucionismo e/ou do criacionismo têm toda a liberdade para tal.

Para finalizar esse “parêntese” da série, deixo que a teoria da evolução também não tem todo crédito que certos cientistas pretendem que ela tenha. É uma questão de justiça dizer que essa teoria não pôde ainda ser reproduzida em laboratórios e que enfrenta diversas perguntas ainda sem respostas. Não se sabe, por exemplo, por que uma célula evolui quando na verdade todos seus mecanismos celulares são para preservar a estrutura do DNA impedindo que haja mudanças nele, mudanças essas necessárias para a evolução.

A evolução orgânica da matéria, todavia, é praticamente inquestionável. O que não é ainda inquestionável é se essa evolução é capaz de causar mudanças brutais nas espécies. Na opinião de quem vos escreve, o evolucionismo é uma hipótese (e não uma teoria), ainda não comprovada, mas que merece e deve ser estudada a fim de subsidiar o conhecimento do homem para bem servi-lo. Em nada essa teoria retira a Onipotência Divina, pelo contrário, só a revela ainda mais, assim como revela a capacidade do homem de compreender a natureza, criada por Deus tendo o homem como obra prima.

Notas:

Eduardo Moreira¹: Bacharel e licenciado em Química pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em físico-química (eletroquímica ambiental) e doutorando em Química Quântica Avançada pela Universidade de São Paulo (USP).

Mariana Prado Borges²: Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em Ecologia Vegetal e Conservação de Recursos Naturais pela mesma universidade.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem? (II parte)


Por: Eduardo Moreira.


O que é o pecado e como ele deve ser perdoado:

Num primeiro artigo foi exposto o porquê de Deus ter redimido o homem através do sacrifício do Homem-Deus. Nesse artigo abordar-se-á o tema do pecado quanto à sua natureza e como ele deve ser perdoado à luz da misericórdia Divina. Esse artigo parte para um campo apologético, haja vista que há no mundo atual uma mentalidade antropoteísta deveras pueril que diz que se Deus é misericórdia ele deve perdoar os pecados por pura bondade. Partimos, pois, do pressuposto que Deus existe, como demonstrado de forma bastante clara e diria incontestável através das cinco vias de Santo Tomás de Aquino.

Santo Anselmo define que o pecado é nada mais nada menos que não render à Deus o culto que Lhe é devido. Esse culto é uma dívida perpétua do homem, uma expressão de gratidão por sua criação. Em outro artigo tratar-se-á da criação do homem, isto é, do porquê de sua criação e se ele foi sempre desejado nos planos divinos.

Devemos sumariamente saber que Deus é amor e é bondade. O homem deve, pois, render a Deus a gratidão pela criação, ou seja, pelo dom da existência. Logo, homens e anjos não pecariam se rendessem a Deus o que Lhe devem e de forma análoga, o pecado é o ato do homem não render a Deus o que se Lhe deve.

Dessa maneira, homens e anjos têm uma dívida de gratidão para com Deus por ocasião de sua existência contingente. Como a existência humana e angelical uma vez criada existe perpetuamente, homens e anjos devem perpetuamente gratidão a quem lhes deu a existência, que no caso é Deus. Portanto, o culto é a retidão da vontade, à qual devemos à Deus e é só o que Ele requer de nós. Aquele que não rende à Deus essa honra que Lhe é devida O desonra, pois rouba Sua posse e isto é precisa e exatamente o pecado. Além disso, quem não repara esse débito permanece na culpa.

Quem permanece na culpa por ter desonrado à Deus não só deve pagar o valor do roubo da honra, mas também algo mais, uma pena devido ao desprezo oferecido e à má inclinação do homem ao cometer o absurdo de ofender e desonrar a infinita bondade de Deus que é infinito. É conveniente pensar nisso como se fosse alguém que retira a saúde de um trabalhador impedindo-o de trabalhar. Ora, não é justo que esse alguém pague apenas pelo reparo salutar, mas que pague, outrossim, pelo tempo de trabalho ao qual ficou o trabalhador impossibilitado de trabalhar. Dessa forma quem peca deve devolver à Deus a honra que Lhe roubou.

Há, após essa explicação, quem certamente objetará que Deus deve perdoar o pecador por simples misericórdia. Esses são os mesmos que fazem a terrível e danosa confusão entre amor e fraqueza. Dizem eles que quem ama não castiga ou pior, dizem que Deus é injusto se castigar e que Ele sendo capaz de tudo pode perdoar não só por misericórdia infinita como também pela onipotência Divina. Acontece que Santo Anselmo através da Filosofia Escolástica prova que pelo castigo Divino não há injustiça e tampouco clivagem da onipotência de Deus.

Da maneira como exposto no texto até o presente, perdoar consiste em punir. Ora, se não é justo cancelar o pecado sem punição, perdoar o pecado por pura misericórdia é agir contra a justiça e retidão. Logo, se o pecado não é punido há desordem, como quando uma criança que rouba um doce, percebendo a facilidade e a impunidade do ato torna a roubar. Como o Reino de Deus é perfeito, não convém que nenhuma desordem adentre n’Ele e assim é justo e salutar que Deus puna quem O desonra.

Foi mostrado, pois, que o pecado deve ser remido pela punição, mas não ainda não está claro o seguinte item: Por que o pecado deve ser punido para que haja justiça? Ora, se Deus usa Sua onipotência para perdoar um pecado por pura misericórdia e não pela punição, o pecado e a desordem estão mais à vontade que a justiça e a ordem. A conclusão fatal é que o pecador e o não pecador teriam méritos iguais perante o Pai, o que seria o mesmo que dizer que o pecado é igual à justiça. Como pode ser notado, seria absurdo dizer isso de Deus, senão deveras injusto dizer que Deus não difere a justiça da injustiça.

Para melhor entendimento, deve-se considerar que a justiça dos homens está submetida à lei de forma tal que a justiça Divina está submetida também à uma lei. Em maior ou menor magnitude a justiça dos homens se assemelha à justiça de Deus. Logo, se o pecado não é punido, tampouco está submetido à lei de Deus, o que leva a crer que o pecado está mais a vontade que a justiça e isso é ilógico. Dizer que o pecado pode ser perdoado apenas pela misericórdia é dizer automaticamente que o pecado é similar a Deus, que não está submetido à nenhuma lei, pois sendo Deus plenamente perfeito, Ele não é submisso a nada, afinal, só deve haver submissão de algo menos perfeito à algo mais perfeito. Se dizemos assim que o pecado não está submetido à lei de Deus, dizemos que o pecado é tão perfeito quanto Deus, o que é absolutamente intolerável.

Há ainda quem possa lançar alguma objeção dizendo que se Deus nos obriga a perdoar os pecados contra nós cometidos Ele é injusto para conosco, pois nos sobrecarrega com um fardo tão pesado que Ele mesmo não carrega. Acontece, pois, que não cabe ao homem vingar-se dos pecados cometidos contra ele, pois isso caracteriza vingança e ódio, o que é desordem. Cabe, assim, às autoridades, legítimas vingadoras da lei que fazem da lei objeto para manter no mundo a ordem natural, o dever de vingar os crimes. Devemos entender que quando as autoridades cumprem a justiça é o próprio Deus que o quer e que cumpre a lei através do poder que é certamente dado do alto quando cumpre o bem.

Constitui, pois, um abuso intolerável não dar a Deus a honra que se Lhe deve como, outrossim, constitui uma injustiça intolerável que Deus suporte esse abuso intolerável. Se assim não há nada maior ou melhor que Deus, não há nada mais justo que a suprema justiça que mantém a honra de Deus na disposição das causas, o que não é outra coisa senão o próprio Deus. Logo, não há nada mais justo do que Deus conservar sua honra e sua dignidade pelo bem da própria disposição universal.

Não devemos, entretanto, pensar que Deus perde sua honra, pois ou o pecador devolve espontaneamente ou pela força o que retirou de Deus. Se o homem devolve espontaneamente a honra de Deus ele devolve a si próprio a ordem natural do universo na qual constitui a felicidade para a qual o homem foi criado. Se doutra forma o homem não devolve a honra que ao Pai pertence, a infelicidade é o salário do pecado, pois sendo o homem criado para a felicidade não seria jamais infeliz se não tivesse pecado. A própria infelicidade já tira por si só do homem o que pertence a ele para que haja a restituição da honra Divina.

A honra de Deus em si não pode, todavia, ser retirada, pois assim como uma operação matemática não pode alterar em nada o módulo do algarismo infinito, uma ação humana é desprezível ainda que com esforço para retirar algo da honra de Deus que é infinita, imutável e, portanto, incorruptível. O homem não pode com o culto de forma idêntica prover nada na honra Divina, que já é perfeita. Isso não escusa, ao contrário, só agrava a atitude do homem em tentar desonrar a Deus, afinal, não Lhe dando a honra que Lhe é devida, desonra a beleza e a disposição do universo na qual foi criado o homem, mas de modo algum ofusca ou prejudica a honra e a dignidade de Deus. O homem prejudica só a beleza da criatura-universo através da ruptura da disposição natural, o que tange indiretamente em desonrar a Deus que tudo criou.

Não adianta assim o homem tentar fugir da submissão natural, pois está confinado na criação e de sua conduta depende a beleza daquela. Tentar ir contra a disposição natural de Deus é agir dentro do que criou Deus de forma não natural, o que implica dizer que se o homem não honra a Deus pela manutenção da ordem criada, o desonra automaticamente, ainda que em nada ofusque a perfeição Divina que está fora do mundo e que é independente dela. Portanto, o pecado do homem verte-se não contra Deus diretamente, mas contra o próprio homem, cabendo a Deus fazer justiça contra os que prejudicam o todo pelo pecado. É dessa forma que existe o pecado e é assim que o pecado agride a honra divina, não sendo, pois, Sua própria honra que é infinita, mas a honra da criação naturalmente boa e criada por Deus.

sábado, 13 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem?


Por Eduardo Moreira.

Que não é justo o homem se livrar do pecado pelo sacrifício de qualquer ente que não o próprio homem. Os opositores da fé católica dizem que Deus foi injusto ao matar seu próprio Filho para salvar a humanidade. Santo Anselmo de Cantuária em sua obra “Por que Deus se fez homem?” já desmascarou esse argumento. Nosso objetivo com o texto abaixo é pensar com um olhar atual para as reflexões da Filosofia Escolástica de Santo Anselmo a fim de esclarecer melhor o motivo que levou Deus a se tornar homem por amor ao homem.

Crê e ensina o Cristianismo que Deus criou o homem. A narração de Gênesis diz que o homem estava só e isso pode ser entendido como que o homem é um ser a parte, diferente dos demais. Nenhum animal é igual ao homem e nem é tão perfeito. A política de tratar o homem como mais um animal é uma falácia, pois se o homem é igual aos demais animais, não poderíamos ter edificado universidades, hospitais e outras benfeitorias sociais, haja vista que nenhum animal senão o homem fez tamanha proeza.

Ao contrário do que as pessoas insistem em ensinar, o homem é um animal diferente, dotado de raciocínio. Isso não é o único adjetivo que difere o homem dos demais animais, pois o homem possui de forma racional o livre arbítrio, podendo escolher racionalmente entre o bem e o mal. Além disso, o homem possui uma característica que nenhum outro animal possui, a capacidade de conhecer e amar a Deus.

Partindo do raciocínio acima, sabemos que o homem é dotado de vontade e dotado do livre arbítrio racional. Com a origem do homem, é lógico que ele tinha a capacidade de optar pelo bem ou pelo mal. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus para substituir os anjos caídos que traíram a Deus, completando a obra bendita.

Entretanto, o homem glorioso, criado para viver junto de Deus, dotado de alma e dotado de vida imortal cai em sua desgraça pelo pecado. Iludido pelo demônio, o homem cai numa tragédia, porque tendo a opção de escolher entre o bem e o mal, comete o mesmo pecado dos anjos ao querer ser igual a Deus.

Deus então, cheio de amor e compaixão qual Pai que jamais esquece do filho, faz uma aliança com seu povo e promete um dia a restauração de sua natureza gloriosa através de uma nova e eterna aliança, o sacrifício do próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, que sacrificando-se inseriria os homens em seu corpo. Mortos para o pecado, os homens como Cristo, os homens presentes no Corpo de Jesus se tornariam algo superior aos anjos, filhos de Deus. Muitas pessoas objetam essa aliança dizendo que é impróprio de Deus, pura bondade, exigir o sacrifício de seu amado e único filho, Deus de Deus para restaurar a humanidade.

Acontece que o homem em sua origem foi quem pecou. Sendo que o homem pecou, ele escolheu o mal e se tornou escravo do pecado. O pecado passa de geração em geração como se fosse um mal hereditário. Isso tanto é verdade que se é possível perceber a corrupção em todo ser humano, por mais santo que seja. Dessa maneira, só o sacrifício de um homem sem mancha pode livrar a mancha do homem.

Assim sendo, alguém pode dizer que Deus não precisaria se encarnar para salvar a humanidade, pois isso poderia ser feito gerando um homem sem mancha, capaz de suportar a culpa do pecado. Todavia, se Deus fizesse isso ele não poderia livrar o homem do pecado, pois criaria de um pecador um não-pecador e isso é impossível, pois conforme já vimos o pecado é transmitido. Doutra forma, criar um homem não pecador de um pecador usando a onipotência divina seria injusto, pois se o homem tornou-se escravo do pecado não é justo que Deus liberte apenas um homem do pecado para salvar a humanidade, haja vista que se o homem caiu por livre e espontânea vontade e por livre e espontânea vontade deveria se livrar de sua queda.

O homem libertador deve ser, portanto, livre do pecado desde o início até o fim, mas também não pode ser um anjo. Se um anjo se encarnasse seu sacrifício não livraria o homem do pecado, pois o homem foi a criatura que pecou e não os anjos. O homem libertador deve ser obrigatoriamente livre do pecado e, principalmente, deve ter valor infinito, pois o pecado é uma ofensa infinita a Deus, conforme mostrar-se-á em outro artigo.

Só Deus é infinito e assim sendo, o homem libertador deve ser ao mesmo tempo Deus e homem, que por livre e espontânea vontade queira libertar a humanidade como homem, sem deixar de ser Deus, infinito. Logo, não se trata de meio homem e meio Deus, um híbrido. Se trata de pleno homem e pleno Deus. Só esse homem-Deus, sacrificado na cruz, é capaz de libertar a humanidade.

Se as naturezas de Cristo são separadas, então o sacrifício crucial foi limitado, finito, e por isso não serve para livrar o homem do pecado, pois a divindade infinita não morre nunca e se as naturezas humana e divina são separadas, quem morreu na cruz foi um homem. Isso mostra que o Deus-homem deve ser homem e Deus em tudo. Assim, a divindade se fez homem em tudo, até na morte e morrendo sacrificou-se de forma infinita livrando o homem da pena infinita e da escravidão perpétua do pecado. Logo, para satisfazer a libertação do homem o ente libertador deve obrigatoriamente ser Deus.

Há ainda outro motivo que leva o sacrifício a ser o sacrifício de um Deus-homem. Mesmo o Deus-homem nascendo para ser puro, Ele poderia ser contaminado com a mancha do pecado enquanto homem. Nesse caso, o homem-Deus poderia não ser gerado, pois em Deus não pode haver pecado e se houvesse pecado no homem-Deus, esse sequer poderia existir. Logo, o Deus-homem deve ser puro desde a concepção, livre do pecado. O sacrifício deveria livrar a progenitora do Deus-homem do pecado para que esse não contaminasse o ente libertador. Só mesmo um sacrifício atemporal poderia livrar Maria do pecado original antes do sacrifício ocorrer no tempo.

Pelos argumentos acima apresentados, nota-se que a libertação do homem só pôde ser feita pelo homem e ao mesmo tempo por Deus. Assim sendo, o ente libertador deve ser plenamente Deus e plenamente homem. Dessa maneira, vemos que o sacrifício de Cristo não foi uma injustiça, mas sim a justiça e a misericórdia infinita de Deus.

OBS: Este é o primeiro artigo, logo vira a segunda parte em outro artigo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma rápida exposição sobre a teologia das religiões

As religiões são portadoras de elementos que atestam o desígnio universal de Deus – sementes do Verbo. Esses elementos de graça apontam para Cristo. Romano Guardini diz que ainda que Buda tenha sido o precursor oriental maior de Cristo tornou-se o obstáculo maior para pregação desse mesmo cristianismo no Oriente.

A teologia das religiões parte de toda essa problemática em relação ao fenômeno religioso e, especialmente, na veracidade da fé cristã, da sua unidade e da universalidade do desígnio salvífico de Deus. Dentro desse cenário encontram-se posições diversas; o exclusivismo – extra ecclesiam nulla salus – , o inclusivismo em duas vertentes – teologia do cumprimento e teologia da presença de Cristo nas religiões - , o pluralismo – Cristologia normativa e Cristologia não-normativa.

Os teólogos inclusivistas – Danielou, Lubac, Balthasar, da primeira linha, e Rahner, Schilebeckx, Kung, da segunda linha – partem da singularidade e universalidade do evento de Jesus Cristo. O inclusivismo é de faceta cristocêntrica – o exclusivismo é eclesiocêntrico – e reflete a respeito do Salvador constitutivo. Assim, a salvação fora da Igreja seria fundada no mistério do Verbo encarnado, na fidelidade da consciência e na fidelidade dos ritos e tradições religiosas. Não obstante, não existiria uma autonomia salvífica, como se esta fosse conquistada pelo simples esforço do homem. Os elementos de graça e verdade são os sinais do não abandono de Deus aos homens.

No inclusivismo a centralidade de Cristo é afirmada, entretanto, as duas linhas se diferenciam na compreensão do modo como esta chega aos homens. A tendência Danielou prega que o homem se salva apesar da religião, pela fidelidade objetiva de consciência. O mistério de Cristo alcançaria os homens de outras religiões como extensão da graça de Deus. Destarte, o inclusivismo da primeira linha entende que o movimento do homem para a salvação não vem de si mesmo, mas brota da graça de Deus. As religiões não cristãs são, então, preparações evangélicas para a salvação. O cristianismo, como cumprimento de todas as religiões, tem a plenitude da salvação. Resumidamente pode-se colocar que enquanto a teologia do cumprimento parte da idéia de que o melhor das religiões leva a Cristo, a teologia da presença de Cristo nas religiões considera que Cristo está nas religiões não-cristãs.

Karl Rahner fora o teólogo que mais se destacara nessa linha. Para ele a oferta da graça alcança a todos os homens e todos os homens têm a consciência certa desta graça oferecida. O seu Existencial-Transcendental é a estrutura que o deixa aberto à graça. Realidade intermédia na natureza como uma disposição à graça. Orienta até Deus. Assim, aceitar a si mesmo é aceitar a Cristo e implicitamente o Evangelho, portanto cristãos anônimos.

Já a teologia do pluralismo religioso é seguida por todas as teologias contextuais; teologia negra, teologia feminista, teologia ecológica, teologia da libertação. Para os seus pensadores o pluralismo é de fato de iure. Deus positivamente há querido comunicar sua graça através das religiões em sua diversidade e até contradições. Conseqüentemente incide em dois grandes erros; a oposição entre a economia do Verbo Encarnado e a economia do Espírito Santo, assim os livros sagrados seriam emanações do próprio Espírito Santo e veículos válidos da experiência religiosa, e a distinção entre o Verbo Encarnado e o Logos Asarkós. Ou seja, o Logos não está definitivamente vinculado com Cristo, toda a mediação humana – inclusa a humanidade de Cristo – é insuficiente para abraçar a plenitude de Deus. Raymond Panikkar, desse modo, definiu Cristo como totum Dei e não totos Deus.

O mistério de Cristo é explícito na fé cristã, mas seria implícito nas demais religiões, ou seja, caminhos alternativos de salvação. Haveria uma dialética entre a experiência implícita do mistério de Cristo e o reconhecimento de Jesus de Nazaré, privilégio dos cristãos. Para os adeptos dessa linha a Igreja – sociedade e não Corpo Místico - não é critério para a salvação dos não-cristãos. O Concílio Vaticano II teria sido medroso em romper com a visão eclesiocêntria e cristocêntrica, alegam.

Obviamente os teólogos pluralistas se perdem nos próprios devaneios. O valor das religiões não só é real e pleno como há uma distinção entre Cristo e o que os Evangelhos falam de Cristo. A ação de Jesus vai além do anunciado nas Escrituras, não se restringe, mas também se faz presente nas outras crenças. Alguns dizem, inclusive, que com a condição kenótica de Cristo, este tomou uma consciência restrita pela natureza humana e, conseqüentemente, incapacitado de abarcar a totalidade do mistério de Deus.

A teologia do pluralismo – normativa e não-normativa – incide em heresias formais. Cristo não mais é o centro da salvação e as religiões são vias alternativas e complementares. Para a linha normativa Cristo ainda é a Revelação definitiva, mas não seria a causa constitutiva da graça salvífica. Ademais, não seria possível um conhecimento transcendente de Deus, o conhecimento das realidade transcendentes. O homem como ser metafísico mas impossibilitado de fazer metafísica. Surgem, então, o Reinocentrismo – Reino de Paz e Justiça e o Soteriocentrismo – ereção do paraíso mediante a transformação das estruturas.

Ainda que a teologia do pluralismo normativa incida em heresias formais, a não-normativa consegue ir além ao colocar Cristo como apenas mais um mediador da salvação. Com uma forte influência ideológica, a religião passa a ser vista como mais um instrumento de destruição e submissão cultural. A união das religiões, então, teria como fim a construção do bem, da paz e da justiça mundial. Do cristocentrismo eles migram para o teocentrismo, onde as religiões são multiformes manifestações do divino.

O diálogo, então, tem como pressuposto fundamental a não-pretensão da verdade e ter em vista que os valores das religiões, e seu próprio fim, é promover o bem da humanidade. Para Paul Knitter a Encarnação é uma metáfora da vida em fidelidade a Deus e do amor ao próximo, e John Hick, grande expoente do relativismo religioso, a religião é passar do centrar em si mesmo para o centrar na realidade, viver para o próximo. Destarte, as contradições claríssimas das religiões são revolvidas mediante a ética e pela lei moral

Fonte:

RAVAZZANO, Pedro. Uma rápida exposição sobre a teologia das religiões. Blog Acarajé Conservador. Disponível em: http://acarajeconservador.blogspot.com/2011/05/uma-rapida-exposicao-sobre-teologia-das.html Acesso em: 31 Maio 2011.

domingo, 24 de outubro de 2010

Sentenças dos Padres da Igreja sobre a procedência do Espírito Santo

Vejamos algumas sentenças sobre a procedência e relação do Espírito Santo com o Pai e Filho, refletidos no Dogma da S. S. Trindade. Vindas de XII grandes figuras da Igreja, desde o II século até o séc. VII. Dentre estes alguns notáveis teólogos e Padres da Igreja do oriente e ocidente.

Atenágoras de Atenas

“Nós, porém, homens que consideramos a vida presente de curta duração e de mínima estima, que nos dirigimos pelo único desejo de conhecer o Deus verdadeiro e o Verbo que dele procede - qual é a comunicação do Pai com o Filho, que coisa é o Espírito, qual é a união de tão grandes realidades, qual a distinção dos assim unidos, do Espírito, do Filho e do Pai-;” (Petição em Favor dos Cristãos; Capítulo XII Atenágoras de Atenas).

S. Basílio de Cesareia

“Espírito de verdade (aletheia), Espírito de adoção, no qual clamamos Abba, Pai; que distribui e opera os dons de Deus em cada um conforme convém, conforme lhe apraz; que ensina e sugere tudo o que ouviu do Filho; que é bom, guiando cada um em toda a verdade (aletheia) e fortificando os fiéis na fé segura, na confissão exata, no culto santo e na adoração em espírito (pneuma) e verdade (aletheia), de Deus Pai, de seu Filho único, nosso Deus e Senhor Jesus Cristo, e dele mesmo.” (S. Basílio de Cesaréia, Profissão de fé;).

Dídimo de Alexandria.

"Ele não falará sem mim e sem a decisão do Pai, porque Ele não tem origem em si, mas é do Pai e de mim. Pois o que Ele é como subsistência e como palavra, Ele o é pelo Pai e por mim" (Dídimo de Alexandria, professava, comentando palavras de Jesus: De Spiritu Sancto 34)

S. Epifânio de Salamina.

"É preciso crer, a respeito de Cristo, que Ele vem do Pai, é Deus proveniente de Deus, e, a respeito do Espírito, que Ele provém do Cristo, ou, melhor; de ambos, pois Cristo disse: '...Ele procede do Pai' e 'receberá do meu'" (S. Epifânio de Salamina: Ancoratus 67).
"Já que o Pai chama Filho o que procede do Pai e Espírito Santo o que provém de ambos,... fica sabendo que o Espírito Santo é a luz que vem do Pai e do Filho" (S. Epifânio de Salamina: Ancoratus 71).

São Gregório de Tours

“Eu acredito que o Espírito Santo procedeu do Pai e do Filho, que não lhes é inferior, que não é verdade que não tenha existido antes, mas que é igual a ambos, e que, sempre coeterno com o Pai e o Filho, é Deus [...]” (História dos Francos - Livro I; Prefácio; São Gregório de Tours).

São Gelásio I de Roma

“Quanto ao Espírito Santo, não proveio apenas do Pai ou apenas do Filho, mas do Pai e do Filho; por isso está escrito: "Ele deleitou-se no mundo, o Espírito do Pai não está nele"; e novamente: "Entretanto, todo aquele que não possui o Espírito de Cristo, não lhe pertence". Assim, compreende-se que o Espírito Santo seja referido como provindo do Pai e do Filho, sendo que o próprio Filho, no Evangelho, diz que o Espírito Santo "procede do Pai" e "por Mim Ele é aceito e anunciado a vós".” (Decreto Gelasiano; Cap. I; 3; São Gelásio I de Roma:).

Santo Atanasio de Alexandria.

“A respeito do Espírito, que procede do Pai e que, sendo próprio do Filho, vem dado por este a seus discípulos e a todos os que crêem nele.” (Carta de Santo Atanásio a Serapião; Sobre a Divindade do Espírito Santo.)

São Cirilo de Alexandria.

"Espírito é o Espírito de Deus Pai e, ao mesmo tempo, Espírito do Filho, saindo substancialmente de ambos simultaneamente, isto é, derramado pelo Pai a partir do Filho” (S. Cirilo de Alexandria , De adoratione, livro I, PG 68,148).

Santo Agostinho de Hipona

"O Espírito Santo procede do Pai a título de princípio (principaliter), e, pelo dom intemporal do Pai ao Filho, procede do Pai e do Filho em comunhão (communiter)" (Santo Agostinho, De Trinitate XV 25,47).

Boécio de Roma

“Pois é uma regra básica a de que as distinções em realidades incorpóreas são estabelecidas por diferenças e não por separação espacial. Não se pode dizer que Deus se tornou Pai pelo acréscimo de algo; pois Ele nunca começou a ser Pai, já que a produção do Filho pertence à sua própria substância; embora o predicado Pai, enquanto tal seja relativo. E se nos lembramos de todas as proposições feitas sobre Deus na discussão prévia, devemos admitir que Deus Filho procede de Deus Pai e Deus Espírito Santo de ambos e que eles não podem ser espacialmente diferentes por serem incorpóreos. Mas já que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, e já que em Deus não há pontos de diferença que o distingam de Deus, Ele não difere dEles. Mas onde não há diferença, não há pluralidade; e onde não há pluralidade, há unidade. E, novamente, nada senão Deus pode ser gerado por Deus e, na realidade numerada, a repetição da unidade não produz pluralidade. E assim a unidade dos três está convenientemente estabelecida.” (Da Trindade; Cap. V; Boécio;).

São Leão Magno

“É verdade que, conforme as propriedades das Pessoas, um é o Pai, outro o Filho, outro o Espírito Santo, mas não há divindade diferente, natureza distinta. Assim como o Filho precede do Pai, igualmente o Espírito Santo é Espírito do Pai e do Filho.” (Sermão Sobre Pentecostes: São Leão Magno;).

São João Damasceno.

"O Espírito Santo provém das duas Pessoas simultaneamente" (S. João Damasceno, De recta fide 21, PG 76,1408).

Fonte:

DA SILVA. John Lennon José. Senteças dos Padres da Igreja sobre a procêdencia do Espírito Santo. Apostolado Veritatis Splendor. Disponível em: Acesso em:  http://veritatis.com.br/patristica/extratos/934-sentencas-dos-padres-da-igreja-sobre-procedencia-do-espirito-santo 24 Outubro 2010.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Há mitos na Bíblia? Adão e Eva não existiram? Então há Poligenismo?

É patente alguns acharem licito responder sim as perguntas do titulo, confirmando que nas Sagradas Palavras de Deus, contém inverdades como a Arca de Noé, Jonas e o grande peixe, que segundo estes não existiram verdadeiramente e que há mitos como no caso de Adão e Eva, que em tese seriam “metáforas” ou outros tipos de linguagem que não refletem a realidade, esta linha de pensamento é norteada por alguns teólogos católicos tendo o principal nome Teilhard de Chardin, que influenciados pelo modernismo Teológico (evolução, modificação ou transformação do dogma) do sec. XIX, tentam conciliar a crença evolucionista com a narração da Criação bíblica, assim aliando a teologia ao pensamento cientifico, tipo do pensamento teológico modernista.

Sobre esta defronta ou sobreposição entre as ciências humanas e a doutrina revelada, disse (Pio XII) “Se tais conjecturas opináveis se opõem direta ou indiretamente à doutrina que Deus revelou, então esses postulados não se podem admitir de modo algum”.

Hoje essa afirmações estão presentes na chamada ‘Nova Teologia’ entre outras coisas acreditam estes no (Poligenismo) crença em que Adão e Eva prefiguram os “casais que originaram a raça humana” não foram nossos primeiros pais, mas a alusão a os “vários pais”, contrariando o ensinamento católico (Monogenismo) crença na existência de Adão e Eva nossos únicos pais cujo descendemos, o Poligenismo é rejeitado pela Igreja por contradizer o pecado original e sua transmissão. Pois se não existiram Adão e Eva, não houve pecado original, então onde fica a redenção operada por Cristo na Cruz? É pretensiosa e de má fé esta crença.

O Concílio de Trento, (Sess. 5, can. 1): “o primeiro homem, Adão, transgrediu o mandamento de Deus”; can. 2: “o pecado de Adão afetou toda a descendência deste, à qual comunica culpa e morte”; e can. 3: “o pecado de Adão é um ato único; transmite-se por geração, não meramente por imitação”.

O Catecismo da Igreja Católica, no número 390 vêm dizer: “A Revelação dá-nos a certeza de fé de que toda a história humana está marcada pelo pecado original cometido pelos nossos primeiros pais.” (CIC nº 390)

Pio XII disse que nem liberdade de discussão tem os leigos para debater o assunto:

“Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles” [cf. Rom 5, 12-19]. (Papa Pio XII, Humani Generis, 35-39; 12 de agosto de 1950).

Mais voltando ao assunto especifico e central as Sagradas Escrituras contém mitos, metáforas, narrações imaginarias e etc. levando em conta é claro todo o contexto, retórica e Inerrância bíblica.

A exegese e hermenêutica tradicional da Igreja Católica, veta a existência de tais argumentos encontrados entre os teólogos modernos, uns sucateiam as Escrituras e tentam rebaixá-las ou desfiguradas, mais como ficaria a Inspiração do Espírito de Deus? Se nas mesmas existissem mitos, seria então literalmente falsa algumas partes e narrativas da bíblia, seria um passo para extrair a confissão de que há erros na Bíblia? Ou que pior que a Ressurreição de Cristo foi uma metáfora, mais não um fato histórico.

Obviamente é uma heresia, um erro grotesco, visto que "a inspiração divina estende-se a todas as partes da Bíblia sem a menor exceção, não podendo haver erro no texto inspirado" (Papa Bento XV, na Encíclica "Spiritus Paraclitus"). Infelizmente a propaganda teológica moderna traz confusão para alguns católicos pouco “letrados”.

“Todavia, o que se inseriu na Sagrada Escritura tirado das narrações populares, de modo algum deve comparar-se com as mitologias e outras narrações de tal gênero, as quais procedem mais de uma ilimitada imaginação do que daquele amor à simplicidade e à verdade que tanto resplandece nos livros do Antigo Testamento, [..]” (Papa Pio XII, Humani Generis).

Concílio Ecumênico Vaticano II, no documento Dei Verbum, declarou:

“Porque a sagrada Escritura é a Palavra de Deus tal como foi consignada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo [...] a Palavra de Deus que foi confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos Apóstolos"

Leão XIII complementa sobre a assistência aos textos dizendo;

"Escreviam unicamente aquelas coisas que o Espírito Santo os ordenava escrever" (Papa Leão XIII, na Encíclica "Providentissimus Deus")

É certo que nossos primeiros Pais foram Adão e Eva, e que antes deles não existiram outros homens e nem houve ser humano posterior que não descenda deles. Assim ensina a Santa Igreja.

As figuras históricas de Adão e Eva e todo o episódio do pecado original, são testificadas pelo exegeta francês, altamente autorizado pela Igreja, o Pe. Luís Claúdio Fillion:

“a narração é de uma grande beleza; todos seus detalhes são históricos e reais, de nenhum modo alegóricos ou figurados [....] A serpente [....] o que nos mostra que já, sob o reptil material e vulgar se escondia aquele que os primeiros rabinos chamavam, em lembrança a esse episódio, ‘a serpente antiga’, o chefe dos demônios. Porque o mal já havia penetrado no mundo” (L.-CL. Fillion, La Sainte Bible Commentée d’après la Vulgate et les textes originaux, Letouzey et Ané, Éditeurs, Paris, 1899, tomo I, p. 30).

Há ainda outros que duvidem dos livros que compõem o Pentateuco e sua autoria, então no séc. XIX a Comissão Pontifícia para os estudos bíblicos enviou ao arcebispo de Paris dando parecer por carta sobre estas duvidas de autenticidade do Pentateuco:

“Dúvida I: Se os argumentos, acumulados pelos críticos para combater a autenticidade mosaica dos livros sagrados que se designam com o nome de Pentatêuco são de tanto peso que, sem ter em conta os muitos testemunhos de um e outro Testamento considerados em seu conjunto, o perpétuo consentimento do povo judeu, a tradição constante da Igreja, assim como os indícios internos que se tiram do próprio texto, dêem direito a afirmar que tais livros não têm a Moisés por autor, mas que foram compostos de fontes, na maior parte, posteriores à época mosaica.

Resposta: negativamente”. (Resposta da Comissão Bíblica em 27 de Junho de 1906. Cfr. Denzinger, 1996).

Sobre esta carta lembrou o Papa Pio XII:

“Essa carta adverte claramente que os onze primeiros capítulos do Gênesis, embora não concordem propriamente com o método histórico usado pelos exímios historiadores greco-latinos e modernos, não obstante, pertencem ao gênero histórico em sentido verdadeiro, que os exegetas hão de investigar e precisar; e que os mesmos capítulos, com estilo singelo e figurado, acomodado à mente do povo pouco culto, contêm as verdades principais e fundamentais em que se apóia a nossa própria salvação, bem como uma descrição popular da origem do gênero humano e do povo escolhido. Mas, se os antigos hagiógrafos tomaram alguma coisa das tradições populares (o que se pode certamente conceder), nunca se deve esquecer que eles assim agiram ajudados pelo sopro da divina inspiração, a qual os tornava imunes de todo erro ao escolher e julgar aqueles documentos.”

“Os livros inspirados ensinam a verdade. «E assim como tudo o que os autores inspirados ou hagiógrafos afirmam, deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus quis que fosse consignada nas sagradas Letras em ordem à nossa salvação»” (CIC nº 107).

Já no século passado alertava o Papa Pio XII “é deplorável a maneira extraordinariamente livre de interpretar os livros históricos do Antigo Testamento.” O que diria ele hoje da interpretação moderna que tem sido construída sobre os textos sagrados.

Mas observemos o que diz Cristo o consumador de nossa fé: “Passarão os céus e a terra, mas minhas palavras não passarão" (Marc. 8, 31; Luc. 21, 33; Mt 24, 35).

John Lennon J. da Silva

sábado, 18 de setembro de 2010

Vaticano II eclesiologia da continuidade ou Ruptura?

Vaticano II eclesiologia da continuidade ou Ruptura?
Introdução

O Concílio Ecumênico Vaticano II fora convocado e presidido pelo Papa João XXIII e posteriormente, pelo Papa Paulo VI com a morte de seu antecessor. (1962-1965) teve a maior participação clérigos e prelados cerca de 2.540 padres conciliares, nem Calcedônia e Trento não tinham registrado este numero, houve pela primeira vez bispos, especialmente da Ásia e Africano, envolvidos de forma crucial. O concílio foi composto de quatro sessões, resultado após um longo e árduo trabalho na elaboração de 16 documentos. Aprovados canonicamente pelo papa Paulo VI .

Os ultratradicionalistas com suas respectivas posições heterodoxas, alimentam grande contradição nos meios católicos principalmente na Internet Brasileira onde estão em constante avanço mantendo influencias sobre diversos jovens, sua contradição maior gira em torno da Tradição Católica, que sempre zelou a todos os Concílios Ecumênicos, sancionados pelo Papa e seu episcopado o revestimento de infalibilidade, constituindo-se parte integrante do Magistério da Igreja tando ordinario como extraordinario. O caráter não dogmático do Concilio Vaticano II, não exclui sua infalibilidade. O Papa Paulo VI falando sobre esta caracteristica dirigida ao concílio disse que o mesmo mesmo sendo pastoral “conferiu a seus ensinamentos a autoridade do Supremo Magistério da Igreja." (Paulo VI, Discurso na audiência de 12 de Janeiro de 1966). Ou (Compêndio do Vaticano II, ed. Vozes, Petrópolis1969, p. 31.).

O Pe. Servigny, explica “pastoral e dogmático não são mutuamente excludentes. Um ensinamento pastoral é um ensinamento teológico, embora não esteja enunciado de forma puramente intelectual e reservada a teólogos. Melhor dizendo, é um ensinamento transmitido ao mundo cotidiano com a finalidade de alimentar espiritualmente os Cristãos e iluminá-los sobre o mistério de Deus. É este ensinamento que orienta os fiéis, dizendo-nos em que crer e o que devemos fazer para crescer em nosso relacionamento com Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Mas, na verdade, é oportuno esclarecer que o Concílio Vaticano II não pretendeu definir uma doutrina ou dogma, ao magistério ordinário. É bom sabermos também que a Infalibilidade fica também evidenciada quando ensinada expressamente pelo concílio, por exemplo, tratando de uma doutrina como definitiva, ou seja, dogmática. Todo católico não é obrigado apenas a aceitar o ensino infalível conciliar ou de ex-catedra, mas também a aceitar o magistério autêntico da Igreja, ou seja, o magistério ordinário, mesmo se ele não primariamente infalível como no caso do magistério ordinário dos papas que são comumente reverenciados e aconselhados pela Igreja.

A Tradição é um processo vivo, um rio que emana dos apóstolos cuja assistência provém do Espírito Santo, neste processo de guarnição a Igreja é a melhor intérprete de si mesmo e um concílio é a atualização e re-interpretação da tradição entre os séculos. Assim, foi o Concílio Vaticano II quando elaborou esforços para uma interpretação da doutrina da Igreja, sob forma de atualizar a tradição no contexto atual. No II discurso do Papa João XXIII de abertura do Concílio Vaticano II: “é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo.” Pois bem o Vaticano II deve ser entendido a luz do concílio de Trento.

Cardeal Ratzinger, dez anos após a conclusão do concílio, em 1975, afirmou: sobre esta continuidade e sobre a autoridade do Vaticano II, herança dos concílios e continuidade co-participante da mesma autoridade dos demais "Devemos deixar claro, em primeiro lugar, que o Vaticano II é apoiado pela mesma autoridade que o Vaticano I e o Concílio de Trento, ou seja, o papa e o colégio dos bispos em comunhão com ele. Quanto ao conteúdo, importa referir que o Vaticano II está em estrita continuidade com os dois concílios anteriores e incorpora sua doutrina, literalmente, pontos de viragem" Informe sobre la fe, capítulo 2, por Cardenal Joseph Ratzinger (O Relatório de Ratzinger, capítulo 2, pelo Cardeal Joseph Ratzinger ).

Legitimidade do concilio do Vaticano II, e garantia zelada pelo Magistério Extraordinário

O Vaticano II é sustentado pela mesma autoridade que sustenta o Vaticano I e o Concílio de Trento, a saber, o Papa e o Colégio dos Bispos em comunhão com ele. Também com respeito ao seu conteúdo, o Vaticano II está na mais estreita continuidade com ambos os concílios anteriores e incorpora os seus textos palavra por palavra nos pontos decisivos, ver-se isto nos textos cujos concílios anteriores como Trento e Vaticano I, são citados 20 vezes ao longo dos textos conciliares (Congar, Entretiens d'automne, op cit. p. 10.).

“É impossível para um Católico tomar posição pró ou contra Trento ou o Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, como ele claramente se expressou e se entendeu a si mesmo, ao mesmo tempo aceita a inteira tradição da Igreja Católica, particularmente, os dois concílios anteriores [...] Da mesma forma é impossível decidir a favor de Trento e do Vaticano I mas contra o Vaticano II. Quem quer que negue o Vaticano II nega a autoridade que sustenta os outros concílios e os separa dos seus fundamentos. Isto se aplica ao assim chamado 'tradicionalismo' [...] Uma escolha partidária destrói o todo, a própria história da Igreja, que só pode existir como uma unidade indivisível” (The Ratzinger Report: An Exclusive Interview on the State of the Church by Joseph Cardinal Ratzinger; Ignatius Press, San Francisco, 1985, pgs.28-9).

O Papa Paulo VI, em uma carta redigida em resposta à crítica movimentada a certos textos conciliares pelo depois cismático Arcebispo Lefebvre que duvidava da autoridade dos mesmos textos: disse: “Não se pode invocar a distinção entre dogmático e pastoral com a finalidade de aceitar alguns textos do Concílio e refutar outros”, explica o Santo Padre. “Certamente, tudo o que foi dito no Concílio não demanda um assentimento da mesma natureza; somente o que é afirmado como objeto de fé ou verdade ligada à fé, por atos definitivos, requer um assentimento de fé. Mas o resto é também uma parte do solene magistério da Igreja o qual todos os fiéis devem receber com confiança e aplicar com sinceridade.” (Paulo VI, Carta ao Arcebispo Lefebvre, Nov. 10, 1976).

Com o que foi dito cima pelo Papa Paulo VI, torna-se claro que todos os fieis devem receber ao Vaticano II, como todos os demais concílios não necessitando de distinção ou separação entre dogmatico ou pastora,l como pretexto para aceitar ou rejeitar ou não ser obrigado de observar suas proclamações concíliares. Os tradicionalistas devido as suas posições extremistas e heterodoxas, pois sabemos que o Vaticano II foi sancionado pelo Papa e seu episcopado, constituindo-se parte integrante do Magistério da Igreja. O caráter não dogmático do Concilio Vaticano II, não exclui sua infalibilidade como verificamos desde as primeiras linhas. Essa posição dos tradicionalistas ressalta seu sofisma e inpanse enquanto a comunhão plena com a Igreja. Ao tentarem defender a tradição católica conforme suas concepções particulares, posicionam-se contra o Concílio e consequentemente caíem no grave erro de negar um dos princípios centrais, fundamentais e imutáveis da Fé Católica, a interpretação do Magistério da Igreja que cabe única e exclusivamente ao Romano Pontífice em conjunto com seus Bispos.

Os textos pastorais do Concílio Vaticano II carregam consigo o peso e a autoridade do colegiado de bispos ensinado em comunhão com o Pontífice Romano. Na Pastor Aeternus, a constituição dogmática do Vaticano I, sobre a Igreja, ver-se esta necessidade.

“[...] que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecumênicos e nos sagrados cânones(...)devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo,[...]”

Por fim, a Tradição Católica sustenta que devemos nos submeter ao Pontífice Romano em questões de disciplina e governo, o que engloba a aplicação pastoral da doutrina, e não meramente nas questões de fé e moral. Será que poderíamos ser católicos, a exemplo de Martinho Lutero, que, na Dieta de Worms, durante a Reforma no séc. XVI alegava e afirmava “Eu não aceito a autoridade dos papas e concílios porque eles se contradizem mutuamente”.

Hermenêutica da descontinuidade sobre o concílio.

Os tradicionalista possuem um conceito semantico equivocado sobre “Tradição” segundo eles a tradição é algo petrificado e imutável, confundem radicalmente Tradição com tradicionalismo. A verdadeiramente concepção católica de Tradição se expressa no Magistério Vivo da Igreja que conservando as verdades doutrinárias e essenciais da Fé, se adapta aos tempos, locais e costumes é obvio, sem se diluir com o humano mais em conformidade com o sagrado e tradicional com a solida doutrina, de modo a melhor transmitir estas verdades aos homens ensinando-os e santificandoos.

Por isto asseguram os tradicionalistas que o concílio foi uma Obra de Satanas, penetração do modernismo e relativismo, foi uma verdadeira ruptura com os concílios anterios, A Cont. Dogmatica Lumen Gentium, afirma, em nota anexa, que “tendo em conta a praxe conciliar e o fim pastoral do presente Concílio este sagrado Concilio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé”. Para os tradicionalistas, não houve nenhuma declaração de fé aberta deste tipo o é uma prova da intepretação dos mesmo sobre o concílio.

O Papa Bento XVI, em 2005 sobre este contexto especificou uma "justa hermenêutica" (ou interpretação), em oposição à hermenêutica tradicionalista ou neo-modernista, esta consiste na "justa [...] leitura e [...] aplicação" dos documentos conciliares pelo Papa, o Chefe da Igreja Católica. Ainda segundo Bento XVI, os católicos devem manter-se fiéis ao Magistério do Papa e à Igreja de hoje, que está precisamente expressa nos documentos deste Concílio. (The Ratzinger Report, San Francisco: Ignatius, 1985, 28-29, 31) com o passado, na criação de uma nova Igreja" (Dom Agostino Marchetto; Secretário do Pontifício

O Papa João Paulo II, em 1995, afirma que não há ruptura:

“Graças ao sopro do Espírito Santo, o Concílio lançou as bases de uma nova primavera da Igreja. Ele não marcou a ruptura com o passado, mas soube valorizar o património da inteira tradição eclesial, para orientar os fiéis na resposta aos desafios da nossa época. À distância de trinta anos [do Concílio], é mais do que nunca necessário retornar àquele momento de graça” (Papa João Paulo II - L’Osservatore Romano, 15/10/95).

Bento XVI em 2005 em discurso ao clero.

“Quarenta anos depois do Concílio podemos realçar que o positivo é muito maior e mais vivo do que não podia parecer na agitação por volta do ano de 1968. Hoje vemos que a boa semente, mesmo desenvolvendo-se lentamente, cresce todavia, e cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio. [...] Assim podemos hoje, com gratidão, dirigir o nosso olhar ao Concílio Vaticano II: se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja” ( Discurso de Bento XVI, no dia 22 de Dezembro de 2005).

“O Concílio Vaticano II foi um grande evento, síntese entre a tradição e a renovação que não é uma ruptura com o passado, na criação de uma nova Igreja" (Dom Agostino Marchetto; Secretário do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Roma 10 de Novembro de 2007).

A ‘crise na Igreja’ e os Papas pós-concíliares

O Papa Paulo VI lamentou as ambigüidades assim como João Paulo II que surgiram na Igreja, após o Concílio, perturbando a consciência de muitos fiéis e extenuando o vigor da Fé, invertendo e distorcendo os valores católicos e inacerbando a doutrina da Igreja. Em um de seus discurso ele disse:

"Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz [...]". "Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso ? Confiamos-vos um Nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo" (Paulo VI, Discurso em 29 de Junho de 1972)

Como vemos alertou o Papa contra as nuvens, de tempestade, de escuridão causada pelas más inclinações de muitos membros da Igreja, sobre este tempo de relativização da fé, e da influencia e intervenção do Diabo em seu plano para destruir a Igreja. Podemos ver nessa constatação um efeito da "fumaça de Satanás", que poluiu os ambientes eclesiásticos, e um dos meios de autodemolição da Igreja, ou seja, de uma destruição por elementos que nEla se encontram instalados.

Discurso que Paulo VI fez a 7 de Dezembro de 1968:

"A igreja atravessa, hoje, um momento de inquietação. Alguns se exercem na auto crítica, dir-se-ia que até na auto demolição. É como se houvesse um revolvimento interior agudo e complexo, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se que haveria um florescimento, uma expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembléia conciliar. Existe também esse aspeto na Igreja, existe o florescimento, mas... nota-se mais ainda o aspeto doloroso. A Igreja é golpeada também por quem faz parte dela".

Papa Paulo VI (Em entrevista ao filósofo francês, seu amigo, Jean Guittton):

"Neste momento, existe um abalo gravíssimo em questão de fé. Quando o filho do homem voltar, por ventura ainda encontrará fé sobre a Terra? Está acontecendo que se publicam livros onde a fé é amesquinhada em pontos importantes. E o episcopado cala-se, e não acha nada de estranho nestes livros. Isto é estranho para mim."

Papa Paulo VI (Ao mesmo amigo, Jean Guittto 08/09/1977):

"Neste momento há na igreja uma grande inquietação. O que está em questão é a fé! O que me perturba quando considero o mundo católico, é que, dentro do catolicismo, algumas vezes, parece predominar o pensamento não católico; pode acontecer que este pensamento não católico, dentro do catolicismo, amanhã seja uma força maior na Igreja".

Veja a confissão parece predominar “o pensamento não católico” como notar-se este pensamento, como o atual papa destacou é nada menos que a má interpretação sobre a fé que muitos cultivam como sendo pensamento católico, cabe ao Papa revigorar o catolicismo e alinhá-lo a uma justa interpretação não só do Vaticano II, mais de sua fé em nossos tempos. Como abaixo veremos o Papa João Paulo II também deu-nos pistas sobre “idéias contrárias as verdades reveladas” tão espalhadas hoje como se fossem testificadas de ortodoxia.

Papa João Paulo II em 1981

"É necessário admitir com realismo e sensibilidade, dolorosa e profunda, que hoje uma grande maioria dos cristãos, sente-se desnorteada, confusa, perplexa, e desiludida. A mãos cheias estão sendo espalhadas idéias contrárias as verdades reveladas, e ensinadas desde sempre. Estão sendo espalhadas heresias verdadeiras contra o credo e a moral, provocando confusão e revoltas solapando a liturgia, afundando num relativismo, intelectual e moral; na permissividade; caindo na tentação do ateísmo; agnosticismo, do iluminismo, de uma moral indeterminada, de um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e moral objetiva." ( 07/02/1981 - Oss. Rom)

Papa João Paulo II em 1980

"Queria pedir perdão em meu nome e no de todos vós, no episcopado, por qualquer motivo, por fraqueza humana [...] que possa ter provocado escândalo e mau estar, acerca da interpretação da doutrina e da veneração de vida para este grande sacramento, a santíssima eucaristia".(Quinta-feira Santa de 1980). Se, estão a interpretar a Eucaristia desta forma pensemos nos textos do Concílio.

Mas sobre a Igreja paira a promessa de Seu Divino Fundador: “As portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Mesmo com a apostasia, e confusão que fora utilizada pelo Tentador para destruir a Igreja.

A ‘justa hermenêutica da continuidade’ do Magistério, exortada por Bento XVI

A essa altura, é especialmente útil olhar para a tentativa de aplicação da doutrina do Concílio Vaticano II na prática pastoral e doutrinaria de forma coerente e continuada com o ensino da Igreja nos concílios passados como vem propondo Bento XVI a primeira constatação desta necessidade na Igreja aconteceu;

No Sínodo dos Bispos de 1985, que alarmou uma "ignorância não pequena de grande parte dos cristãos para com os conteúdos conciliares". Este sínodo também "afirmou que em muitos contextos o Concílio estava sendo usado de forma manipulada, conforme as necessidades das situações, ou seja, estaria sendo esvaziado de seu sentido original, perigo este não desprezível".

Logo, na Carta Apostólica; Tertio milennio adveniente de 1994, o Papa João Paulo II convidou a Igreja a "um irrenunciável exame de consciência, que deve envolver todas as componentes da Igreja, [e que] não pode deixar de haver a pergunta: quanto da mensagem conciliar passou para a vida, as instituições e o estilo da Igreja?".

O Papa João Paulo II, também em 1995, acrescentou também que o Concílio "não marcou a ruptura com o passado" e até "soube valorizar o património da inteira" Tradição católica. No ano 2000, ele disse ainda que "interpretar o Concílio pensando que ele comporta uma ruptura com o passado, enquanto na realidade ele se põe na linha da fé de sempre, é decididamente desviar-se do caminho" (Discurso do Papa João Paulo II no encerramento d congresso internacional sobre a atuação dos ensinamentos conciliares, 27 de Fevereiro de 2000).

Nesta mesma linha O Papa Bento XVI, em 2005, acrescentou também que "se [...] lemos e recebemos [o Concílio Vaticano II] guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja". E esta "justa hermenêutica" (ou interpretação), em oposição à hermenêutica tradicionalista ou neo-modernista, consiste na "justa [...] leitura e [...] aplicação" dos documentos conciliares pelo Papa, o Chefe da Igreja Católica. Ainda segundo o atual papa, os católicos devem manter-se fiéis ao Magistério do Papa e à Igreja de hoje, que está precisamente expressa nos documentos deste Concílio. (The Ratzinger Report, San Francisco: Ignatius, 1985, 28-29, 31).

Nesta Indole, o Papa Bento em 8 de setembro de 2006 fundou canonicamente o Instituto Bom Pastor, como sociedade de vida apostólica de Direito Pontifício, conferindo a ele a missão primaria e carinhosa da recepção da Forma extraordinária do rito Latino, e promoção desta rica tradição litúrgica entre os fieis e também como caminho especial para os que voltarem a comunhão com Roma, e instituir paróquias pessoais para celebrar o rito Gregoriano seu rito próprio.

Além de conferir a missão a IBP segundo as palavras do Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, transcritas abaixo: de “sob a condução do Papa, pois somente ele pode fazer isso, de restabelecer a autenticidade da doutrina católica” ou seja o restabelecimento da “autêntica interpretação desse Concílio [Vaticano II]” em meio “Há questões teológicas pontiagudas, em particular aquelas concernentes ao Concílio Vaticano II”. Abaixo alguns trechos do discurso do Pe. Philippe no dia 10 de setembro de 2006. Alguns tradicionalistas salientam que bento XVI deu liberdade de se fazer criticas construtivas ao Vaticano II, mais pelo que podemos notar, não trata-se de criticas dadas a qualquer um, pois nem missão nossa é sim do Papa, que esta conduzindo a IBP como ajudante, para auxiliar em uma justa, e “autêntica interpretação” do Vaticano II.

“Há questões teológicas pontiagudas, em particular aquelas concernentes ao Concílio Vaticano II. Sobre este ponto nós temos a obrigação, também, o que é inesperado, de trabalhar, sob a condução do Papa, pois somente ele pode fazer isso, de restabelecer a autenticidade da doutrina católica”. (Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

“Quero dizer com essas palavras que tudo o que há de ambíguo, e até de falso, deve ser restabelecido por nós, tendo em vista dar por fim uma autêntica interpretação desse Concílio. O que supõe de outro lado que essa interpretação não existe totalmente ainda, e vou dar alguns exemplos: a liberdade religiosa fez escorrer muita tinta, vós o sabeis, e efetivamente, há coisas aparentemente e textualmente contraditórias com o Magistério precedente. O Papa Bento XVI, quando era ainda o Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, retificou essa doutrina, quando esteve na Argentina em 1988, por ocasião das sagrações feitas por Monsenhor Lefebvre”. (Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

“Eu não desejaria aqui entrar nos pormenores da Teologia, mas, enfim, eu vos citarei ainda um outro exemplo, o famoso, ‘subsistit in’. Está dito, no Concílio Vaticano II que a Igreja fundada por Cristo subsiste na Igreja Católica. Enquanto que a doutrina tradicional é evidentemente que a Igreja fundada por Cristo, é a Igreja Católica”.( Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

Código de Direito Canônico, aceitar ou rejeitar o concilio mesmo com seu caráter pastoral e doutrinal?

Por fim queremos ressaltar alguns dados do (CDC), pois dizem os Tradicionalistas que os documentos do Concílio ensinam erros que, nós mesmos não encontrados e que pelo fato do Concílio não ter sido dogmático, alega-se que é legítimo recusar seus ensinamentos “meramente pastorais”.

Ensina o Código de Direito Canônico:

Cân. 337 § 1. O Colégio dos Bispos exerce seu poder sobre toda a Igreja, de modo solene, no Concílio Ecumênico. § 2. Exerce esse poder pela ação conjunta dos Bispos espalhados pelo mundo, se essa ação for, como tal, convocada ou livremente aceita pelo Romano Pontífice, de modo a se tornar verdadeiro ato colegial.

Cân. 341 § 1. Os decretos do Concílio Ecumênico não têm força de obrigar, a não ser que, aprovados pelo Romano Pontífice junto com os Padres Conciliares, tenham sido por ele confirmados e por sua ordem promulgados. § 2. Para terem força de obrigar, precisam também dessa confirmação e promulgação os decretos dados pelo Colégio dos Bispos, quando este pratica um ato propriamente colegial, de acordo com outro modo diferente, determinado ou livremente aceito pelo Romano Pontífice.

O Concílio do Vaticano II foi Ecumênico, como explicamos logo, nele a Igreja exerceu seu poder maximo sobre toda Igreja foi convocado pelo Pontífice Romano, João XXIII conforme o cân. 337. Seus decretos foram confirmados e promulgados pelo Papa, logo tem poder de obrigar toda a Igreja, conforme o cân. 341, ao contrário do que ensinam os tradicionalistas. A confirmação de que toda Igreja também deve aceitar os ensinamentos não dogmáticos encontramos no cân. 752.

Cân. 752 Não assentimento de fé, mas religioso obséquio de inteligência e vontade deve ser prestado à doutrina que o Sumo Pontífice ou o Colégio dos Bispos, ao exercerem o magistério autêntico, enunciam sobre a fé e os costumes, mesmo quando não tenham a intenção de proclamá-la por ato definitivo; portanto os fiéis procurem evitar tudo o que não esteja de acordo com ela.

Conclusão

Recordemos o ensinamento do Papa Gregório XVI, na sua encíclica Mirari Vos.

“Reprovável seria, na verdade, e muito alheio à veneração com que se devem acolher as leis da Igreja, condenar, somente por néscio capricho de opinião, a doutrina que foi por ela sancionada, na qual estão contidas a administração das coisas sagradas, a regra dos costumes e dos direitos da Igreja, a ordem e a razão dos seus ministros, ou então acoimá-la de oposicionista a certos princípios de direito natural, julgando-a deficiente e imperfeita, ou ainda sujeitando-a à autoridade civil. Constando, com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in proem.).

Sobre a autoridade do Concílio Vaticano II, o valor dos seus documentos e a maneira de acolhê-los, assim explicou o Papa Paulo VI e vale mais uma vez repetir: “Dado o caráter pastoral do Concílio, ele evitou pronunciar de uma maneira extraordinária dogmas que comportassem a nota da infalibilidade, mas ele dotou seus ensinamentos da autoridade do magistério ordinário supremo; esse magistério ordinário e manifestamente autêntico deve ser acolhido dócil e sinceramente por todos os fiéis, segundo o espírito do concílio concernente à natureza e os fins de cada documento” (Paulo VI, audiência geral de 12 de janeiro de 1966).

A Congregação para a Doutrina da Fé, na Instrução Donum Veritatis, n. 17, de 24 de maio de 1990, assim nos instrui:

“Deve-se, pois, ter em mente a natureza própria de cada uma das intervenções do Magistério e o modo pelo qual é empenhada sua autoridade, mas também o fato de que todas procedem da mesma Fonte, isto é, de Cristo, que quer que seu povo caminhe na verdade plena. Pelo mesmo motivo, as decisões do Magistério em matéria de disciplina, embora não sejam garantidas pelo carisma da infalibilidade, não deixam de gozar também da assistência divina e exigem a adesão dos fiéis cristãos".

John Lennon J. da Silva
Apostolado S. Clemente Romano

Referencias:

[1] WIKIPEDIA. Concílio Vaticano II. Enciclopédia livre. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_Vaticano_II Acesso em: 26 julho 2010.

[2] LIMA, Alessandro. Pode um católico negar obediência ao Concílio Ecumênico do Vaticano II? Brasília: Apost. Veritatis Splendor: Disponível em: www.veritatis.com.br Acesso em: 27 junho 2007.

[3] ACIDIGITAL. Concílio Vaticano II não está aberto a interpretações livres, precisa autoridade vaticano. [Noticia do dia 10 de Novembro de 2007]. Disponível em: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=11933 Acesso em: 26 julho 2010.

[4] Arráiz, José Miguel. Apologia do Concílio Vaticano II. [tradução livre por John Lennon J. Da Silva] Disponível em: www.apologeticacatolica.org Acesso em: 10 janeiro 2010.

[5] Patrick Madrid e Pete Vere. O Vaticano II foi um concílio “meramente pastoral? [tradução Maite Tosta] Disponível em: http://sobrearochadepedro.blogspot.com/2010/03/o-vaticano-ii-foi-um-concilio-meramente.html Acesso em: 24 julho 2010.

[6] BRODBECK, Rafael Vitola. Algumas questões sobre o Instituto Bom Pastor. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=OPINIAO&id=opi0179 Acesso em: 22 julho 2010.