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terça-feira, 24 de maio de 2011

Ritus Romanus et Ritus Modernus: Existiu alguma reforma litúrgica antes de Paulo VI?

No artigo “Quatrocentos anos de Missa Tridentina”, publicado em diversas revistas religiosas, o professor Rennings se aplicou a apresentar o novo missal, ou seja, o Ritus Modernus, como derivação natural e legítima da liturgia romana. Segundo o dito professor, não teria existido uma Missa de São Pio V se não unicamente por cento e trinta e quatro anos, ou seja, de 1570 a 1704, ano no qual apareceu sob as modificações desejadas pelo Romano Pontífice de então. Continuando com tal modo de proceder, Paulo VI, segundo Rennings, teria por sua vez reformado o Missale romanum para permitir aos fiéis entrever algo mais da inconcebível grandeza do dom que o Senhor fez à sua Igreja na Eucaristia.

Em seu artigo, Rennings habilmente se aferrou a um ponto fraco dos tradicionalistas: a expressão Missa Tridentina ou Missa de São Pio V. Propriamente falando uma Missa Tridentina ou de São Pio V nunca existiu, já que, seguindo as instâncias do Concílio de Trento, não foi formado um Novus Ordo Missae, dado que o Missale sancti Pii V não é mais que o Missal da Cúria Romana, que foi se formando em Roma muitos séculos antes, e difundido especialmente pelos franciscanos em numerosas regiões do Ocidente. As modificações efetuadas em sua época por São Pio V são tão pequenas, que são perceptíveis tão somente pelos olhos dos especialistas.

Agora, um dos expedientes a que recorre Rennings, consiste em confundir o Ordo Missae com o Proprium das missas dos diferentes dias e das diferentes festas. Os Papas, até Paulo VI, não modificaram o Ordo Missae, mesmo introduzindo novos próprios para novas festas, o que não destrói a chamada Missa Tridentina mais do que os acréscimos ao Código Civil destroem o mesmo. Portanto, deixando de lado a expressão imprópria de Missa Tridentina, falamos melhor de um Ritus Romanus.

O rito romano remonta em suas partes mais importantes pelo menos ao século V, e mais precisamente ao Papa São Dâmaso (366-384). O Canon Missae, com exceção de alguns retoques efetuados por São Gregório I (590-604), alcançou com São Gelásio I (492-496) a forma que conservou até há pouco. A única coisa sobre a qual os Romanos Pontífices não cessaram de insistir do século V em diante, foi a importância para todos de adotar o Canon Missae Romanae, dado que dito cânon remonta nada menos que ao próprio Apóstolo Pedro.

Respeitaram o uso das Igrejas locais mais para o que diz respeito às outras partes do Ordo, como para o Proprium das várias Missas. Até São Gregório Magno (590-604) não existiu um missal oficial com o Proprium das várias Missas do ano. O Liber Sacramentorum foi redigido por encargo de São Gregório no princípio de seu pontificado, para serviço e uso das Stationes que tinham lugar em Roma, ou seja, para a liturgia pontifical. São Gregório não teve nenhuma intenção de impor o Proprium do dito missal a todas as Igrejas do Ocidente. Se posteriormente o dito missal se converteu no próprio esboço do Missale Romanum de São Pio V, deve-se a uma série de fatores dos quais não podemos tratar agora.

É interessante notar que, quando se interrogou a São Bonifácio (672-754), que se encontrava em Roma, a respeito de algum detalhe litúrgico, como o uso dos sinais da cruz a serem feitos durante o cânon, este não se referiu ao sacramentário de São Gregório, mas àquele que estava em uso entre os Anglo-saxões, cujo cânon estava totalmente de acordo com aquele da Igreja de Roma…

Na Idade Média, as dioceses e as igrejas que não tinham adotado espontaneamente o Missal em uso em Roma, usavam um próprio e por isto nenhum Papa manifestou surpresa ou desgosto… Mas quando a defesa contra o protestantismo tornou necessário um Concílio, o Concílio de Trento encarregou o Papa de publicar um missal corrigido e uniforme para todos. Agora, pois, com a melhor vontade do mundo, eu não chego a encontrar em tal deliberação do Concílio o ecumenismo que Rennings vê. O que fez São Pio V? Como já dissemos, tomou o missal em uso em Roma e em tantos outros lugares, deu-lhe retoques, especialmente reduzindo o número das festas dos Santos que continha. Ele o tornou obrigatório para toda a Igreja? De modo algum! Respeitou até as tradições locais que pudessem se gloriar de ter, pelo menos, duzentos anos de idade. Assim, propriamente: era suficiente que o missal estivesse em uso, pelo menos, há duzentos anos, para que pudesse permanecer em uso ao lado e no lugar daquele publicado por São Pio V. O fato de que o Missale Romanum tenha se difundido tão rapidamente e

tenha sido espontaneamente adotado também em dioceses que tinham o próprio mais que bicentenário, deve-se a outras causas; não, por certo, a pressão exercida sobre elas por Roma. Roma não exerceu sobre elas nenhuma pressão, e isto numa época em que, bem diferente do que acontece hoje, não se falava de pluralismo, nem de tolerância.

O primeiro Papa que ousou inovar o Missal tradicional foi Pio XII, quando modificou a liturgia da Semana Santa. Seja-nos permitido observar, a respeito, que nada impedia de restabelecer a Missa do Sábado Santo no curso da noite de Páscoa, ainda que sem modificar o rito. João XXIII o seguiu por este caminho, retocando as rubricas. Mas nem um nem o outro, ousaram inovar sobre o Ordo Missae, que continuou invariável. Porém a porta tinha sido aberta, e por ela cruzaram aqueles que queriam uma substituição radical da liturgia tradicional e que a obtiveram. Nós, que tínhamos assistido com espanto a esta resolução, contemplamos agora aos nossos pés as ruínas, não da Missa Tridentina, mas da antiga e tradicional Missa Romana, que foi se aperfeiçoando através do curso dos séculos até alcançar sua maturidade. Não era perfeita a ponto de não ser ulteriormente mais aperfeiçoada, mas para adaptá-la ao homem de hoje não havia necessidade de substituí-la: bastavam alguns pequeníssimos retoques, deixando a salvo e imutável todo o resto.

Mas ao contrário, quiseram suprimi-la e substituí-la com uma liturgia nova, preparada com precipitação e, diremos, artificialmente: com o Ritus Modernus. Ó, como se vê aparecer de modo sempre mais claro e alarmante o oculto fundo teológico desta reforma! Sim, era fácil obter uma mais ativa participação dos fiéis nos santos mistérios, segundo as disposições conciliares, sem necessidade de transformar o rito tradicional.

Porém a meta dos reformadores não era obter a mencionada maior participação ativa dos fiéis, mas fabricar um rito que interpretasse sua nova teologia, aquela mesma que está na base dos novos catecismos escolares. Já se vêem agora as conseqüências desastrosas que não se revelarão plenamente até que passem uns cinqüenta anos.

Para chegar aos seus objetivos, os progressistas souberam explorar mui habilmente a obediência às prescrições romanas dos sacerdotes e dos féis mais dóceis… A fidelidade e o respeito devido ao Pai da Cristandade não chegam ao ponto de exigir uma aceitação despojada do devido sentido crítico de todas as novidades introduzidas em nome do Papa.

A fidelidade à Fé, antes de tudo! Agora, a Fé, parece-me que se encontra em perigo com a nova liturgia, ainda que não me atreva a declarar inválida a Missa celebrada segundo o Ritus Modernus.

É possível que vejamos a Cúria Romana e certos bispos – aqueles mesmos que nos querem obrigar, com suas ameaças, a adotar o Ritus Modernus –, descuidar de seu próprio dever específico de defensores da Fé, permitindo certos professores de teologia a enterrar os dogmas mais fundamentais de nossa Fé e aos discípulos dos mesmos propagar ditas opiniões heréticas em periódicos, livros e catecismos?

O Ritus Romanus permanece como o último rochedo no meio da tempestade. Os inovadores sabem muito bem disso. Daqui parte seu ódio furioso contra o Ritus Romanus, que combatem sob o pretexto de combater uma nunca existida Missa Tridentina. Conservar o Ritus Romanus não é uma questão de estética: é, para nossa Santa Fé, questão de vida ou morte. Logo tornaremos ao assunto.

Monsenhor Klaus Gamber – A reforma da liturgia Romana (tradução de Luis Augusto Rodrigues Domingues)

Disponível para Download em:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Acatamento do Magistério mesmo não infalível

Mesmo fora do âmbito da infalibilidade, devemos seguir o Magistério vivo e os pastores colocados por Nosso Senhor para nos guiar.

Nas situações em que o guia vivo não é infalível, como é o caso do pai de família ou do pároco unido ao seu bispo, não significa que não devemos segui-los. Só na hipótese de uma oposição frontal à Lei de Deus é que devemos recusar-lhe a submissão.

Proclama a Constituição “Pastor Aeternus”: “Ensinamos, portanto, e declaramos que a Igreja Romana, por disposição do Senhor, tem o primado do poder ordinário sobre todas as outras Igrejas; e que este poder de jurisdição do Romano Pontífice, que é verdadeiramente episcopal, é imediato: portanto, a este poder estão obrigados ao dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência pastores e fiéis de qualquer rito e dignidade, seja individualmente, seja coletivamente, não só nas coisas relativas à Fé e à Moral, mas também nas relativas à disciplina e ao governo da Igreja dispersa pelo mundo inteiro. De modo que, guardada esta unidade com o Romano Pontífice, tanto de comunhão como de profissão da mesma Fé, seja a Igreja de Cristo um só Rebanho, sob um só Pastor supremo (Jo 10,16). Tal é a doutrina da verdade católica, da qual ninguém pode desviar-se sem perigo para a sua Fé e sua salvação” (D-S 3060).

“O Magistério dos pastores da Igreja em matéria moral se exerce ordinariamente na catequese e na pregação, com o auxílio das obras dos teólogos e dos autores espirituais. Assim se foi transmitindo, de geração em geração, sob a égide e a vigilância dos pastores, o "depósito" da moral cristã, composto de um conjunto característico de regras, mandamentos e virtudes que procedem da fé em Cristo e são vivificados pela caridade. Esta catequese tem tradicionalmente tomado por base, ao lado do "Credo" e do "Pai-nosso", o Decálogo, que enuncia os princípios da vida moral, válidos para todos os homens” (Nota 27) .

“Porque o ensinamento não infalível da Igreja, embora não de maneira absoluta, é também assistido pelo Espírito Santo. Muito se enganaria, pois, quem cuidasse que ele nos deixa inteiramente livres de assentir ou de discordar. Não obrigar sob pena de heresia, está longe de equivaler a não obrigar de todo, conforme ensina o Concílio Vaticano I: “Não bastaria evitar a perversão da heresia, se não fugíssemos ainda diligentemente dos erros que dela se aproximam mais ou menos” (D-S 3045). S. Pio X condenou os que pretendiam eximir de qualquer culpa moral quem não levasse em conta as censuras decretadas pelas Congregações romanas (DS 3408). Cabe à Igreja não só propor a verdade revelada, como ainda mostrar o que – direta ou indiretamente – a ela leva ou dela afasta. Nem basta acolher este ensinamento com um silêncio respeitoso; impõe-se uma adesão intelectual (Clemente XI D-S 2390 – S. Pio X D-S 3407)” (Nota 28).

“É certo que o Concílio Vaticano I definiu que o Magistério do Romano Pontífice é infalível em determinadas condições... Seria absurdo, no entanto, daí concluir que o Papa erra sempre que não faz uso de sua prerrogativa de infalibilidade. Pelo contrário, devemos supor que ele acerte, porquanto normalmente age com prudência e não emite sua opinião antes de muito ponderar. Sem falar nas graças especiais com que o assiste o Espírito Santo” (Nota 29).

“Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras:"Quem vos ouve a mim ouve" (Lc 10,16)” (Nota 30) .

“Com relação ao ensinamento do Magistério em matéria em si não irreformável, a vontade leal de se submeter deve ser a regra... Neste âmbito de intervenções de tipo prudencial, aconteceu que alguns documentos magisteriais não fossem isentos de carências. Os Pastores nem sempre colheram prontamente todos os aspectos ou toda a complexidade de uma questão. Mas seria contrário à verdade se, a partir de alguns casos determinados, se inferisse que o Magistério da Igreja possa enganar-se habitualmente nos seus juízos prudenciais, ou não goze da assistência divina no exercício integral da sua missão”. (Nota 31)

Notas:

27. Catecismo da Igreja Católica, 2033).

28. Pe. Dr. M. Teixeira-Leite Penido – O Mistério da Igreja, VII, O poder do Magistério p. 294.

29. Dom Antônio de Castro Mayer – Carta Pastoral sobre a preservação da Fé e dos bons costumes, V.

30. Papa Pio XII, Encíclica Humani Generis, 20.

31. Congreg. para a Doutrina da Fé - Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo – Donum veritatis - 24 de maio de 1990 – nº 24.

Fonte:

Dom Fernando Arêas Rifan. Orientação Pastoral: O Magistério Vivo da Igreja. Disponivel em: http://www.adapostolica.org/modules/wfsection/article.php?articleid=448&page=7 Acesso Acesso em: 28 Novembro 2010.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O problema fundamental do lefebvrismo

"... para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o diabo." 1 Timóteo 3,6

O cisma lefebvrista começa em 1988, quando o Arcebispo Marcel Lefebvre (fundador da Fraternidade de São Pio X) ordenou quatro bispos sem mandato pontifício, incorrendo aos bispos ordenados a excomunhão "latae sententiae". O problema, no entanto, começou muito antes, quando, depois de repetidos atos de desobediência à Sé Apostólica, declarava sua posição: "Nós nos recusamos, e temos sempre se recusado a seguir a Roma de tendência neo-moderno e neoprotestante é claramente afirmado no Concílio Vaticano II e após todas as reformas que ele deixou” “Nenhuma autoridade, nem mesmo os mais elevados na hierarquia, pode restringir-nos a abandonar ou diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo Magistério da Igreja há dezenove séculos "

Em resumo: lefebvristas não apenas rejeitaram a autoridade de um Concílio Ecuménico, mas qualquer autoridade (incluindo o Papa), que segundo eles, não concordam com a noção de tradição. A este respeito, como diz a Carta Apostólica Motu Proprio "Ecclesia Dei" S.S. João Paulo II.

"As circunstâncias específicas, objetivas e subjetivas, que tem sido feitas pelo Arcebispo Lefebvre, proporcionam a todos uma oportunidade de refletir profundamente renovado o empenho de fidelidade a Cristo e sua Igreja.

Este ato foi em si um ato de desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima e de suprema importância para a unidade da Igreja, como a ordenação de bispos, na qual é mantida sacramentalmente pela sucessão apostólica. Assim, tal desobediência - o que implica a rejeição do primado romano - constitui um ato cismático. Em qualquer desses atos, apesar da advertência canônica formal enviada pelo Cardeal Prefeito da Congregação para os Bispos em 17 de junho do ano passado, Mons. Lefebvre e os sacerdotes Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, incorreram na grave pena da excomunhão prevista pela disciplina eclesiástica."

Mais adiante:

A raiz deste ato cismático pode determinar uma noção imperfeita e contraditória de Tradição: imperfeita, porque não tem suficientemente em conta o caráter vivo da Tradição, que - como claramente ensinada no Concílio Vaticano II - originalmente iniciada pelos Apóstolos: "progredindo a Igreja, com a ajuda do Espírito Santo, isto é, a compreensão cada vez maior de coisas e as palavras passadas, quando a contemplação e estudos revisados em seu coração, entendendo internamente os mistérios que vivem, e a pregação dos bispos, sucessores dos apóstolos no carisma da verdade"

Nas presentes circunstâncias, desejo sobretudo dirigir um apelo ao mesmo tempo solene e comovido, paterno e fraterno, a todos aqueles que até agora têm sido associados de várias maneiras com o movimento do Arcebispo Lefebvre, para atender o grave dever de permanecerem unidos o Vigário de Cristo na unidade da Igreja Católica e parar sob qualquer forma parar o apoio, a estas formas condenáveis. Todos devem estar cientes de que a adesão formal ao cisma constitui em grave ofensa a Deus e leva a pena de excomunhão decretada pela lei da Igreja (8).

Breve Análise: Tradição, Escritura e Magistério

Explica o Catecismo (nos números 76-87) que a transmissão do evangelho foi feita de duas formas: oral e escrita (2 Tessalonicenses 2:15). Ele também explica que, para que o Evangelho pode-se ser sempre preservados vivos e inteiros na Igreja dos apóstolos nomearam como sucessores os bispos desejosos por seu encargo no magistério.

Esta transmissão viva do Evangelho que chamamos de tradição está intimamente ligada com a Escritura e a Igreja transmitida para todas as idades o que é e o que ela acredita. Tradição e a Sagrada Escritura estão estreitamente ligadas porque surgem da mesma fonte, se fundem de forma que tendem ao mesmo fim.

Embora a Escritura seja a Palavra de Deus escrita por inspiração do Espírito Santo, a Tradição recebe a palavra de Deus confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos, e transmite integralmente aos sucessores, para que, iluminado pelo Espírito da verdade, a preservem, exponham e espalhem fielmente na sua pregação.

É importante notar que a tarefa de interpretar autenticamente a palavra de Deus, oral ou escrita, foi confiada ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, pelos bispos em comunhão com o sucessor Pedro, o Bispo de Roma.

Desde os primeiros tempos da história da Igreja Cristã têm argumentado-se que a teologia deve ser formulada de acordo com esses princípios. Escritura e Tradição servir como matérias principais para a teologia, enquanto o Magistério serve como a principal forma, que significa que enquanto a primeira revelação está contida na segunda é o trabalho de dar a interpretação correta do mesmo . Assim, constituem a base do tripé que faz todas as verdades católicas.

O que acontece se você rejeitar a Tradição ou Magistério?

Assim como um tripé com uma perna faltando cai, assim que ele pretende fazer teologia, mas rejeita qualquer uma dos três elementos: Em suma, você corre o risco de interpretar mal as Escrituras, ou desvirtuar-se da Tradição, que expõe um risco adicional: o de cair na dissidência (afinal, rejeitando os ensinamentos do Magistério), aqui (em negar uma verdade que deve ser crida com fé divina e católica, ou dúvida pertinaz a respeito do mesmo) ou até mesmo em cisma (na recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou na comunhão com os membros da Igreja a ele submetidos.)

Os Padres da Igreja sempre alertaram sobre os desvios de quem está tentando usurpar o lugar do Magistério, para impor a sua própria concepção de fé. Não admira que Santo Agostinho reafirmava seu apego à autoridade da Igreja, nos seus escritos, aos maniqueístas: "Eu não acredito no Evangelho, se não me movese a autoridade da Igreja Católica" (Santo Agostinho. C. ep. Man 5 , 6, cf. Faustum C. 28,2).

Santo Agostinho atribuída ao orgulho heresia (De Doct. Cristo., Praef. 2, Ep. 208,2), S.Tomas de Aquino a supervalorização do próprio julgamento (S. Th. II-II 5.3.) porque "dá o seu parecer favorável a tudo o que a Igreja ensina, mas admite que eles excluem aqueles que não querem, seguindo assim a sua própria vontade." E embora seja o objeto do presente estudo caem dentro do âmbito da responsabilidade específica de cada pessoa, podemos dizer com confiança que aquele nome que rejeita a autoridade do Magistério com a ignorância invencível termina usurpando para seus fins.

Se examinarmos a história, vemos que uma e outra vez as heresias e cismas tiveram fatores em comum: um cismático e / o heresiarca proclamam-se proprietários da verdade e convencem os outros que é. E essa história continua a repetir-se toda vez que alguém sobre passa seu exclusivo critério, sobre "o julgamento da Igreja.

Paralelos na história

1. O conflito judaízante

O primeiro conflito que enfrentou a igreja primitiva, é narrado em Atos 15 e que se referem várias vezes nas cartas de Paulo (particularmente Romanos e aos Gálatas).

Foi o que aconteceu depois que um grupo de fariseus convertidos ao cristianismo queriam forçar os primeiros cristãos para serem circuncidados segundo a lei judaica mandato que ordenou como um sinal da aliança eterna entre Deus e seu povo: "Esta é a minha aliança, que guardareis entre eu e você - a sua própria posteridade: Todo o homem entre vós será circuncidado [...] No oitavo dia será circuncidado entre vós, todos do sexo masculino, de geração em geração [...] como uma aliança eterna. "Gênesis 17,10-13.

Reúne-se o Concilio da Igreja e ocorre na primeira reformulação e atualização da tradição. O Magistério exercer o seu papel como intérprete autêntico da revelação sob aquilo que é temporal e aquilo que permanece. Naquele tempo, havia aqueles que resistiam aos decretos da Igreja rejeitando o concílio de Jerusalém, e continuando, no entanto suas doutrinas, hoje, suas doutrinas são poeiras.

2. Donatistas

Cisma do século IV. Os donatistas sustentavam que a Igreja é composta de bons e que os maus estavam excluídos, aqueles que tinham encontrado o martírio durante a perseguição das fases anteriores e não estavam dispostos a aceitar este legado não pertencem à Igreja e seus sacramentos eram portanto, inválido.

Para os donatistas a Igreja de Roma, e as Igrejas em comunhão com ela estavam condenadas por terem aceito no seu seio falsos cristãos, sendo eles o reduto fiel, à Tradição da Igreja verdadeira.

Os resultados foram desastrosos: seu fanatismo exagerado manifestou uma perseguição sangrenta aos católicos, matando e queimando os seus altares, os cães começaram a dar forma dedicada e gosto de martírio recorreram ao suicídio coletivo. (É impossível não notar aqui a semelhança entre a atitude dos então Donatistas, com os lefebvristas)
3. Tertulianitas e montanhistas

Mesmo os mais brilhantes escritores eclesiásticos caíram na tentação de supervalorizar seus próprios critérios, e passaram de guardiães da ortodoxia para cismáticos e hereges.

Tal foi o caso de Tertuliano, que chegou de ter sido um apologista de renome em sua época. Em De Praescriptione haereticorum rejeita aos hereges qualquer argumento, objetando que não têm o direito de apelar para as Escrituras, e argumenta que apenas nas Igrejas apostólicas, pode conter correta interpretação dos mesmos.

Seu extremo rigor, levou o mesmo a dizer que o adultério e a fornicação são pecados imperdoáveis, então mesmo o bispo de Roma como sucessor de Pedro, não tinha o poder de absolver. Finalmente, negou que o poder dado a Pedro forar transmitido aos seus sucessores (Tertuliano, Sobre Modesty 21).

Resultados: abraço escalador de heresias que viu Montano (outro herege) a encarnação do Espírito Santo, em seguida, fundou sua própria seita (os tertulianitas) que não existe mais.

4. Protestantismo

Sob este nome engloba todas as seitas e comunidades eclesiais que surgiram a partir do século XVI da Reforma Protestante.

Sob o tema das três "Solas" (solo fé, solo graça e solo escritura), os reformadores protestantes pregaram ensinamentos em oposição à tradição e o Magistério. Ser capaz de utilizar um ou outro acabou rejeitando tanto e substituí-los com a doutrina da Sola Scriptura (a Bíblia como única regra de fé) e de investigação individual, livre exame (que é cada crente que tem a última palavra em matéria de fé).

Quando todos os protestantes decidiram exercer o direito conferido dos reformadores, foi gerada a fragmentação exponencial que conhecemos hoje no protestantismo: milhares de denominações e seitas diferentes umas das outras, mas em quase todas unidas em um maior ou menor grau em sua rejeição a Igreja Católica e ao Papa.

5. Velhos católicos

Movimento inicialmente cismático e posteriormente, herético desde o Concílio Vaticano I em sequência a rejeição do dogma da infalibilidade papal. Posteriormente agrupados um conjunto de sacerdotes e teólogos, sob a direção do historiador Ignaz von Döllinguer. Devido a não terem em suas fileiras qualquer bispo e não contavam com a sucessão apostólica procuraram solicitaram a ajuda dos cismaticos de Utrecht que os sagrou um bispo...

Resultado: uma vez apartados da barca de Peter acabaram declarando a supremacia absoluta de concílios sobre o papa, e aceitando o casamento dos padres, e mais tarde vindo a negar o dogma da Imaculada Conceição e Assunção de Maria. Hoje ordenam mulheres ao sacerdócio.

O Lefebvrismo sofre do mesmo germe

Hoje o Papa Bento XVI concedeu a remissão da excomunhão dos bispos Lefebvristas e iniciou o diálogo sob o controle da Congregação para a Doutrina da Fé, no entanto, o problema subjacente continua (que não é só mas a natureza litúrgica doutrinal), porque a posição lefebvrista levada à sua conclusão lógica, implica que a Igreja Católica governada pelo Papa e pelos Bispos em comunhão com ele, afastou-se decisivamente da verdadeira fé (isso ao sedevacantismo onde acusa-seo Papa e os bispos em comunhão com ele de hereges, proclamando que a Sé Romana esta vacante, é apenas um passo.)

Enquanto lefebvristas persistir em praticar teologia, apelando para o passado contra o Magistério e ensino hoje, com uma espécie de "livre exame" semelhante ao protestantismo, os germes nocivos vai estar lá. A diferença é que os protestantes rejeitem o Magistério tentando impor sua própria interpretação da Escritura, enquanto eles fazem Tradição lefebvrista.

Pseudo-Lefebvrismo, ultra-tradicionalismo, o mesmo problema

Há um outro setor dentro da Igreja, que sem reconhecer os lefebvristas, comungam e promovem as posições lefebvristas. Professam ser fiel ao Papa, mas discordam publicamente do Concilio. O argumento: Porque o ensino do Concílio Vaticano II não pretende ser definitivo, é possivel ter diferentes graus assentimento, e isto traduz que na prática existe uma discordância persistente e sistemática.

Neste contexto, esclarece a Carta Apostólica dada como "Motu Proprio" Ad Tuendam Fidem, do Papa João Paulo II, que a adesão de assentimento religioso dos fiéis às doutrinas estabelecidas pelo Magistério é devido não só às doutrinas definidas com Carter definitivo:

“A Profissão de fé, devidamente precedida pelo Símbolo Niceno-Constantinopolitano, tem além disso três proposições ou parágrafos que pretendem explicitar as verdades da fé católica que a Igreja, sob a guia do Espírito Santo que lhe "ensina toda a verdade" (Jo 16, 13), no decurso dos séculos, perscrutou ou há-de perscrutar de maneira mais profunda (3).

O primeiro parágrafo, onde se enuncia: "Creio também com fé firme em tudo o que está contido na palavra de Deus, escrita ou transmitida por Tradição, e que a Igreja, quer com juízo solene, quer com magistério ordinário e universal, propõe para se crer como divinamente revelado" (4), está convenientemente reconhecido e tem a sua disposição na legislação universal da Igreja nos cânn. 750 do Código de Direito Canónico (5) e 598 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais (6).

O terceiro parágrafo, que diz: "Adiro além disso, com religioso obséquio da vontade e da inteligência, às doutrinas que o Romano Pontífice ou o Colégio dos Bispos propõem, quando exercem o seu magistério autêntico, mesmo que não as entendam proclamar com um acto definitivo" (7), encontra o seu lugar nos cânn. 752 do Código de Direito Canónico (8) e 599 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais (9).”

Carta Apostólica dada como "Motu Proprio" Ad Tuendam Fidem, de Papa João Paulo II.

Não se trata de mergulhar em todos os ensinamentos do Magistério, para ver o que afinal, se trata de aceitar com religioso assentimento de vontade e entendimento, sendo definitivo ou não.

Fonte:

ARRÁIZ, José Miguel. El problema fundamental del lefebvrismo. [Tradução: John Lennon J. da Silva]. Apostolado São Clemente Romano. Disponível em: http://apologeticacatolica.org/Documentos/Concilios/VaticanoII/Apologia06.html Acesso em: 19 agosto 2010.

sábado, 18 de setembro de 2010

Vaticano II eclesiologia da continuidade ou Ruptura?

Vaticano II eclesiologia da continuidade ou Ruptura?
Introdução

O Concílio Ecumênico Vaticano II fora convocado e presidido pelo Papa João XXIII e posteriormente, pelo Papa Paulo VI com a morte de seu antecessor. (1962-1965) teve a maior participação clérigos e prelados cerca de 2.540 padres conciliares, nem Calcedônia e Trento não tinham registrado este numero, houve pela primeira vez bispos, especialmente da Ásia e Africano, envolvidos de forma crucial. O concílio foi composto de quatro sessões, resultado após um longo e árduo trabalho na elaboração de 16 documentos. Aprovados canonicamente pelo papa Paulo VI .

Os ultratradicionalistas com suas respectivas posições heterodoxas, alimentam grande contradição nos meios católicos principalmente na Internet Brasileira onde estão em constante avanço mantendo influencias sobre diversos jovens, sua contradição maior gira em torno da Tradição Católica, que sempre zelou a todos os Concílios Ecumênicos, sancionados pelo Papa e seu episcopado o revestimento de infalibilidade, constituindo-se parte integrante do Magistério da Igreja tando ordinario como extraordinario. O caráter não dogmático do Concilio Vaticano II, não exclui sua infalibilidade. O Papa Paulo VI falando sobre esta caracteristica dirigida ao concílio disse que o mesmo mesmo sendo pastoral “conferiu a seus ensinamentos a autoridade do Supremo Magistério da Igreja." (Paulo VI, Discurso na audiência de 12 de Janeiro de 1966). Ou (Compêndio do Vaticano II, ed. Vozes, Petrópolis1969, p. 31.).

O Pe. Servigny, explica “pastoral e dogmático não são mutuamente excludentes. Um ensinamento pastoral é um ensinamento teológico, embora não esteja enunciado de forma puramente intelectual e reservada a teólogos. Melhor dizendo, é um ensinamento transmitido ao mundo cotidiano com a finalidade de alimentar espiritualmente os Cristãos e iluminá-los sobre o mistério de Deus. É este ensinamento que orienta os fiéis, dizendo-nos em que crer e o que devemos fazer para crescer em nosso relacionamento com Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Mas, na verdade, é oportuno esclarecer que o Concílio Vaticano II não pretendeu definir uma doutrina ou dogma, ao magistério ordinário. É bom sabermos também que a Infalibilidade fica também evidenciada quando ensinada expressamente pelo concílio, por exemplo, tratando de uma doutrina como definitiva, ou seja, dogmática. Todo católico não é obrigado apenas a aceitar o ensino infalível conciliar ou de ex-catedra, mas também a aceitar o magistério autêntico da Igreja, ou seja, o magistério ordinário, mesmo se ele não primariamente infalível como no caso do magistério ordinário dos papas que são comumente reverenciados e aconselhados pela Igreja.

A Tradição é um processo vivo, um rio que emana dos apóstolos cuja assistência provém do Espírito Santo, neste processo de guarnição a Igreja é a melhor intérprete de si mesmo e um concílio é a atualização e re-interpretação da tradição entre os séculos. Assim, foi o Concílio Vaticano II quando elaborou esforços para uma interpretação da doutrina da Igreja, sob forma de atualizar a tradição no contexto atual. No II discurso do Papa João XXIII de abertura do Concílio Vaticano II: “é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo.” Pois bem o Vaticano II deve ser entendido a luz do concílio de Trento.

Cardeal Ratzinger, dez anos após a conclusão do concílio, em 1975, afirmou: sobre esta continuidade e sobre a autoridade do Vaticano II, herança dos concílios e continuidade co-participante da mesma autoridade dos demais "Devemos deixar claro, em primeiro lugar, que o Vaticano II é apoiado pela mesma autoridade que o Vaticano I e o Concílio de Trento, ou seja, o papa e o colégio dos bispos em comunhão com ele. Quanto ao conteúdo, importa referir que o Vaticano II está em estrita continuidade com os dois concílios anteriores e incorpora sua doutrina, literalmente, pontos de viragem" Informe sobre la fe, capítulo 2, por Cardenal Joseph Ratzinger (O Relatório de Ratzinger, capítulo 2, pelo Cardeal Joseph Ratzinger ).

Legitimidade do concilio do Vaticano II, e garantia zelada pelo Magistério Extraordinário

O Vaticano II é sustentado pela mesma autoridade que sustenta o Vaticano I e o Concílio de Trento, a saber, o Papa e o Colégio dos Bispos em comunhão com ele. Também com respeito ao seu conteúdo, o Vaticano II está na mais estreita continuidade com ambos os concílios anteriores e incorpora os seus textos palavra por palavra nos pontos decisivos, ver-se isto nos textos cujos concílios anteriores como Trento e Vaticano I, são citados 20 vezes ao longo dos textos conciliares (Congar, Entretiens d'automne, op cit. p. 10.).

“É impossível para um Católico tomar posição pró ou contra Trento ou o Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, como ele claramente se expressou e se entendeu a si mesmo, ao mesmo tempo aceita a inteira tradição da Igreja Católica, particularmente, os dois concílios anteriores [...] Da mesma forma é impossível decidir a favor de Trento e do Vaticano I mas contra o Vaticano II. Quem quer que negue o Vaticano II nega a autoridade que sustenta os outros concílios e os separa dos seus fundamentos. Isto se aplica ao assim chamado 'tradicionalismo' [...] Uma escolha partidária destrói o todo, a própria história da Igreja, que só pode existir como uma unidade indivisível” (The Ratzinger Report: An Exclusive Interview on the State of the Church by Joseph Cardinal Ratzinger; Ignatius Press, San Francisco, 1985, pgs.28-9).

O Papa Paulo VI, em uma carta redigida em resposta à crítica movimentada a certos textos conciliares pelo depois cismático Arcebispo Lefebvre que duvidava da autoridade dos mesmos textos: disse: “Não se pode invocar a distinção entre dogmático e pastoral com a finalidade de aceitar alguns textos do Concílio e refutar outros”, explica o Santo Padre. “Certamente, tudo o que foi dito no Concílio não demanda um assentimento da mesma natureza; somente o que é afirmado como objeto de fé ou verdade ligada à fé, por atos definitivos, requer um assentimento de fé. Mas o resto é também uma parte do solene magistério da Igreja o qual todos os fiéis devem receber com confiança e aplicar com sinceridade.” (Paulo VI, Carta ao Arcebispo Lefebvre, Nov. 10, 1976).

Com o que foi dito cima pelo Papa Paulo VI, torna-se claro que todos os fieis devem receber ao Vaticano II, como todos os demais concílios não necessitando de distinção ou separação entre dogmatico ou pastora,l como pretexto para aceitar ou rejeitar ou não ser obrigado de observar suas proclamações concíliares. Os tradicionalistas devido as suas posições extremistas e heterodoxas, pois sabemos que o Vaticano II foi sancionado pelo Papa e seu episcopado, constituindo-se parte integrante do Magistério da Igreja. O caráter não dogmático do Concilio Vaticano II, não exclui sua infalibilidade como verificamos desde as primeiras linhas. Essa posição dos tradicionalistas ressalta seu sofisma e inpanse enquanto a comunhão plena com a Igreja. Ao tentarem defender a tradição católica conforme suas concepções particulares, posicionam-se contra o Concílio e consequentemente caíem no grave erro de negar um dos princípios centrais, fundamentais e imutáveis da Fé Católica, a interpretação do Magistério da Igreja que cabe única e exclusivamente ao Romano Pontífice em conjunto com seus Bispos.

Os textos pastorais do Concílio Vaticano II carregam consigo o peso e a autoridade do colegiado de bispos ensinado em comunhão com o Pontífice Romano. Na Pastor Aeternus, a constituição dogmática do Vaticano I, sobre a Igreja, ver-se esta necessidade.

“[...] que o mesmo Pontífice Romano é o sucessor de S. Pedro, o príncipe dos Apóstolos, é o verdadeiro vigário de Cristo, o chefe de toda a Igreja e o pai e doutor de todos os cristãos; e que a ele entregou Nosso Senhor Jesus Cristo todo o poder de apascentar, reger e governar a Igreja universal, conforme também se lê nas atas dos Concílios Ecumênicos e nos sagrados cânones(...)devem-se sujeitar, por dever de subordinação hierárquica e verdadeira obediência, os pastores e os fiéis de qualquer rito e dignidade, tanto cada um em particular, como todos em conjunto, não só nas coisas referentes à fé e aos costumes, mas também nas que se referem à disciplina e ao regime da Igreja, espalhada por todo o mundo,[...]”

Por fim, a Tradição Católica sustenta que devemos nos submeter ao Pontífice Romano em questões de disciplina e governo, o que engloba a aplicação pastoral da doutrina, e não meramente nas questões de fé e moral. Será que poderíamos ser católicos, a exemplo de Martinho Lutero, que, na Dieta de Worms, durante a Reforma no séc. XVI alegava e afirmava “Eu não aceito a autoridade dos papas e concílios porque eles se contradizem mutuamente”.

Hermenêutica da descontinuidade sobre o concílio.

Os tradicionalista possuem um conceito semantico equivocado sobre “Tradição” segundo eles a tradição é algo petrificado e imutável, confundem radicalmente Tradição com tradicionalismo. A verdadeiramente concepção católica de Tradição se expressa no Magistério Vivo da Igreja que conservando as verdades doutrinárias e essenciais da Fé, se adapta aos tempos, locais e costumes é obvio, sem se diluir com o humano mais em conformidade com o sagrado e tradicional com a solida doutrina, de modo a melhor transmitir estas verdades aos homens ensinando-os e santificandoos.

Por isto asseguram os tradicionalistas que o concílio foi uma Obra de Satanas, penetração do modernismo e relativismo, foi uma verdadeira ruptura com os concílios anterios, A Cont. Dogmatica Lumen Gentium, afirma, em nota anexa, que “tendo em conta a praxe conciliar e o fim pastoral do presente Concílio este sagrado Concilio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé”. Para os tradicionalistas, não houve nenhuma declaração de fé aberta deste tipo o é uma prova da intepretação dos mesmo sobre o concílio.

O Papa Bento XVI, em 2005 sobre este contexto especificou uma "justa hermenêutica" (ou interpretação), em oposição à hermenêutica tradicionalista ou neo-modernista, esta consiste na "justa [...] leitura e [...] aplicação" dos documentos conciliares pelo Papa, o Chefe da Igreja Católica. Ainda segundo Bento XVI, os católicos devem manter-se fiéis ao Magistério do Papa e à Igreja de hoje, que está precisamente expressa nos documentos deste Concílio. (The Ratzinger Report, San Francisco: Ignatius, 1985, 28-29, 31) com o passado, na criação de uma nova Igreja" (Dom Agostino Marchetto; Secretário do Pontifício

O Papa João Paulo II, em 1995, afirma que não há ruptura:

“Graças ao sopro do Espírito Santo, o Concílio lançou as bases de uma nova primavera da Igreja. Ele não marcou a ruptura com o passado, mas soube valorizar o património da inteira tradição eclesial, para orientar os fiéis na resposta aos desafios da nossa época. À distância de trinta anos [do Concílio], é mais do que nunca necessário retornar àquele momento de graça” (Papa João Paulo II - L’Osservatore Romano, 15/10/95).

Bento XVI em 2005 em discurso ao clero.

“Quarenta anos depois do Concílio podemos realçar que o positivo é muito maior e mais vivo do que não podia parecer na agitação por volta do ano de 1968. Hoje vemos que a boa semente, mesmo desenvolvendo-se lentamente, cresce todavia, e cresce também assim a nossa profunda gratidão pela obra realizada pelo Concílio. [...] Assim podemos hoje, com gratidão, dirigir o nosso olhar ao Concílio Vaticano II: se o lemos e recebemos guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja” ( Discurso de Bento XVI, no dia 22 de Dezembro de 2005).

“O Concílio Vaticano II foi um grande evento, síntese entre a tradição e a renovação que não é uma ruptura com o passado, na criação de uma nova Igreja" (Dom Agostino Marchetto; Secretário do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, Roma 10 de Novembro de 2007).

A ‘crise na Igreja’ e os Papas pós-concíliares

O Papa Paulo VI lamentou as ambigüidades assim como João Paulo II que surgiram na Igreja, após o Concílio, perturbando a consciência de muitos fiéis e extenuando o vigor da Fé, invertendo e distorcendo os valores católicos e inacerbando a doutrina da Igreja. Em um de seus discurso ele disse:

"Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz [...]". "Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso ? Confiamos-vos um Nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo" (Paulo VI, Discurso em 29 de Junho de 1972)

Como vemos alertou o Papa contra as nuvens, de tempestade, de escuridão causada pelas más inclinações de muitos membros da Igreja, sobre este tempo de relativização da fé, e da influencia e intervenção do Diabo em seu plano para destruir a Igreja. Podemos ver nessa constatação um efeito da "fumaça de Satanás", que poluiu os ambientes eclesiásticos, e um dos meios de autodemolição da Igreja, ou seja, de uma destruição por elementos que nEla se encontram instalados.

Discurso que Paulo VI fez a 7 de Dezembro de 1968:

"A igreja atravessa, hoje, um momento de inquietação. Alguns se exercem na auto crítica, dir-se-ia que até na auto demolição. É como se houvesse um revolvimento interior agudo e complexo, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se que haveria um florescimento, uma expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembléia conciliar. Existe também esse aspeto na Igreja, existe o florescimento, mas... nota-se mais ainda o aspeto doloroso. A Igreja é golpeada também por quem faz parte dela".

Papa Paulo VI (Em entrevista ao filósofo francês, seu amigo, Jean Guittton):

"Neste momento, existe um abalo gravíssimo em questão de fé. Quando o filho do homem voltar, por ventura ainda encontrará fé sobre a Terra? Está acontecendo que se publicam livros onde a fé é amesquinhada em pontos importantes. E o episcopado cala-se, e não acha nada de estranho nestes livros. Isto é estranho para mim."

Papa Paulo VI (Ao mesmo amigo, Jean Guittto 08/09/1977):

"Neste momento há na igreja uma grande inquietação. O que está em questão é a fé! O que me perturba quando considero o mundo católico, é que, dentro do catolicismo, algumas vezes, parece predominar o pensamento não católico; pode acontecer que este pensamento não católico, dentro do catolicismo, amanhã seja uma força maior na Igreja".

Veja a confissão parece predominar “o pensamento não católico” como notar-se este pensamento, como o atual papa destacou é nada menos que a má interpretação sobre a fé que muitos cultivam como sendo pensamento católico, cabe ao Papa revigorar o catolicismo e alinhá-lo a uma justa interpretação não só do Vaticano II, mais de sua fé em nossos tempos. Como abaixo veremos o Papa João Paulo II também deu-nos pistas sobre “idéias contrárias as verdades reveladas” tão espalhadas hoje como se fossem testificadas de ortodoxia.

Papa João Paulo II em 1981

"É necessário admitir com realismo e sensibilidade, dolorosa e profunda, que hoje uma grande maioria dos cristãos, sente-se desnorteada, confusa, perplexa, e desiludida. A mãos cheias estão sendo espalhadas idéias contrárias as verdades reveladas, e ensinadas desde sempre. Estão sendo espalhadas heresias verdadeiras contra o credo e a moral, provocando confusão e revoltas solapando a liturgia, afundando num relativismo, intelectual e moral; na permissividade; caindo na tentação do ateísmo; agnosticismo, do iluminismo, de uma moral indeterminada, de um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e moral objetiva." ( 07/02/1981 - Oss. Rom)

Papa João Paulo II em 1980

"Queria pedir perdão em meu nome e no de todos vós, no episcopado, por qualquer motivo, por fraqueza humana [...] que possa ter provocado escândalo e mau estar, acerca da interpretação da doutrina e da veneração de vida para este grande sacramento, a santíssima eucaristia".(Quinta-feira Santa de 1980). Se, estão a interpretar a Eucaristia desta forma pensemos nos textos do Concílio.

Mas sobre a Igreja paira a promessa de Seu Divino Fundador: “As portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). Mesmo com a apostasia, e confusão que fora utilizada pelo Tentador para destruir a Igreja.

A ‘justa hermenêutica da continuidade’ do Magistério, exortada por Bento XVI

A essa altura, é especialmente útil olhar para a tentativa de aplicação da doutrina do Concílio Vaticano II na prática pastoral e doutrinaria de forma coerente e continuada com o ensino da Igreja nos concílios passados como vem propondo Bento XVI a primeira constatação desta necessidade na Igreja aconteceu;

No Sínodo dos Bispos de 1985, que alarmou uma "ignorância não pequena de grande parte dos cristãos para com os conteúdos conciliares". Este sínodo também "afirmou que em muitos contextos o Concílio estava sendo usado de forma manipulada, conforme as necessidades das situações, ou seja, estaria sendo esvaziado de seu sentido original, perigo este não desprezível".

Logo, na Carta Apostólica; Tertio milennio adveniente de 1994, o Papa João Paulo II convidou a Igreja a "um irrenunciável exame de consciência, que deve envolver todas as componentes da Igreja, [e que] não pode deixar de haver a pergunta: quanto da mensagem conciliar passou para a vida, as instituições e o estilo da Igreja?".

O Papa João Paulo II, também em 1995, acrescentou também que o Concílio "não marcou a ruptura com o passado" e até "soube valorizar o património da inteira" Tradição católica. No ano 2000, ele disse ainda que "interpretar o Concílio pensando que ele comporta uma ruptura com o passado, enquanto na realidade ele se põe na linha da fé de sempre, é decididamente desviar-se do caminho" (Discurso do Papa João Paulo II no encerramento d congresso internacional sobre a atuação dos ensinamentos conciliares, 27 de Fevereiro de 2000).

Nesta mesma linha O Papa Bento XVI, em 2005, acrescentou também que "se [...] lemos e recebemos [o Concílio Vaticano II] guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja". E esta "justa hermenêutica" (ou interpretação), em oposição à hermenêutica tradicionalista ou neo-modernista, consiste na "justa [...] leitura e [...] aplicação" dos documentos conciliares pelo Papa, o Chefe da Igreja Católica. Ainda segundo o atual papa, os católicos devem manter-se fiéis ao Magistério do Papa e à Igreja de hoje, que está precisamente expressa nos documentos deste Concílio. (The Ratzinger Report, San Francisco: Ignatius, 1985, 28-29, 31).

Nesta Indole, o Papa Bento em 8 de setembro de 2006 fundou canonicamente o Instituto Bom Pastor, como sociedade de vida apostólica de Direito Pontifício, conferindo a ele a missão primaria e carinhosa da recepção da Forma extraordinária do rito Latino, e promoção desta rica tradição litúrgica entre os fieis e também como caminho especial para os que voltarem a comunhão com Roma, e instituir paróquias pessoais para celebrar o rito Gregoriano seu rito próprio.

Além de conferir a missão a IBP segundo as palavras do Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, transcritas abaixo: de “sob a condução do Papa, pois somente ele pode fazer isso, de restabelecer a autenticidade da doutrina católica” ou seja o restabelecimento da “autêntica interpretação desse Concílio [Vaticano II]” em meio “Há questões teológicas pontiagudas, em particular aquelas concernentes ao Concílio Vaticano II”. Abaixo alguns trechos do discurso do Pe. Philippe no dia 10 de setembro de 2006. Alguns tradicionalistas salientam que bento XVI deu liberdade de se fazer criticas construtivas ao Vaticano II, mais pelo que podemos notar, não trata-se de criticas dadas a qualquer um, pois nem missão nossa é sim do Papa, que esta conduzindo a IBP como ajudante, para auxiliar em uma justa, e “autêntica interpretação” do Vaticano II.

“Há questões teológicas pontiagudas, em particular aquelas concernentes ao Concílio Vaticano II. Sobre este ponto nós temos a obrigação, também, o que é inesperado, de trabalhar, sob a condução do Papa, pois somente ele pode fazer isso, de restabelecer a autenticidade da doutrina católica”. (Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

“Quero dizer com essas palavras que tudo o que há de ambíguo, e até de falso, deve ser restabelecido por nós, tendo em vista dar por fim uma autêntica interpretação desse Concílio. O que supõe de outro lado que essa interpretação não existe totalmente ainda, e vou dar alguns exemplos: a liberdade religiosa fez escorrer muita tinta, vós o sabeis, e efetivamente, há coisas aparentemente e textualmente contraditórias com o Magistério precedente. O Papa Bento XVI, quando era ainda o Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, retificou essa doutrina, quando esteve na Argentina em 1988, por ocasião das sagrações feitas por Monsenhor Lefebvre”. (Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

“Eu não desejaria aqui entrar nos pormenores da Teologia, mas, enfim, eu vos citarei ainda um outro exemplo, o famoso, ‘subsistit in’. Está dito, no Concílio Vaticano II que a Igreja fundada por Cristo subsiste na Igreja Católica. Enquanto que a doutrina tradicional é evidentemente que a Igreja fundada por Cristo, é a Igreja Católica”.( Superior Geral do Instituto Bom Pastor, Pe. Philippe Laguérie, em seu discurso proferido na igreja de Saint Eloi, dia 10 de setembro de 2006,)

Código de Direito Canônico, aceitar ou rejeitar o concilio mesmo com seu caráter pastoral e doutrinal?

Por fim queremos ressaltar alguns dados do (CDC), pois dizem os Tradicionalistas que os documentos do Concílio ensinam erros que, nós mesmos não encontrados e que pelo fato do Concílio não ter sido dogmático, alega-se que é legítimo recusar seus ensinamentos “meramente pastorais”.

Ensina o Código de Direito Canônico:

Cân. 337 § 1. O Colégio dos Bispos exerce seu poder sobre toda a Igreja, de modo solene, no Concílio Ecumênico. § 2. Exerce esse poder pela ação conjunta dos Bispos espalhados pelo mundo, se essa ação for, como tal, convocada ou livremente aceita pelo Romano Pontífice, de modo a se tornar verdadeiro ato colegial.

Cân. 341 § 1. Os decretos do Concílio Ecumênico não têm força de obrigar, a não ser que, aprovados pelo Romano Pontífice junto com os Padres Conciliares, tenham sido por ele confirmados e por sua ordem promulgados. § 2. Para terem força de obrigar, precisam também dessa confirmação e promulgação os decretos dados pelo Colégio dos Bispos, quando este pratica um ato propriamente colegial, de acordo com outro modo diferente, determinado ou livremente aceito pelo Romano Pontífice.

O Concílio do Vaticano II foi Ecumênico, como explicamos logo, nele a Igreja exerceu seu poder maximo sobre toda Igreja foi convocado pelo Pontífice Romano, João XXIII conforme o cân. 337. Seus decretos foram confirmados e promulgados pelo Papa, logo tem poder de obrigar toda a Igreja, conforme o cân. 341, ao contrário do que ensinam os tradicionalistas. A confirmação de que toda Igreja também deve aceitar os ensinamentos não dogmáticos encontramos no cân. 752.

Cân. 752 Não assentimento de fé, mas religioso obséquio de inteligência e vontade deve ser prestado à doutrina que o Sumo Pontífice ou o Colégio dos Bispos, ao exercerem o magistério autêntico, enunciam sobre a fé e os costumes, mesmo quando não tenham a intenção de proclamá-la por ato definitivo; portanto os fiéis procurem evitar tudo o que não esteja de acordo com ela.

Conclusão

Recordemos o ensinamento do Papa Gregório XVI, na sua encíclica Mirari Vos.

“Reprovável seria, na verdade, e muito alheio à veneração com que se devem acolher as leis da Igreja, condenar, somente por néscio capricho de opinião, a doutrina que foi por ela sancionada, na qual estão contidas a administração das coisas sagradas, a regra dos costumes e dos direitos da Igreja, a ordem e a razão dos seus ministros, ou então acoimá-la de oposicionista a certos princípios de direito natural, julgando-a deficiente e imperfeita, ou ainda sujeitando-a à autoridade civil. Constando, com efeito, como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in proem.).

Sobre a autoridade do Concílio Vaticano II, o valor dos seus documentos e a maneira de acolhê-los, assim explicou o Papa Paulo VI e vale mais uma vez repetir: “Dado o caráter pastoral do Concílio, ele evitou pronunciar de uma maneira extraordinária dogmas que comportassem a nota da infalibilidade, mas ele dotou seus ensinamentos da autoridade do magistério ordinário supremo; esse magistério ordinário e manifestamente autêntico deve ser acolhido dócil e sinceramente por todos os fiéis, segundo o espírito do concílio concernente à natureza e os fins de cada documento” (Paulo VI, audiência geral de 12 de janeiro de 1966).

A Congregação para a Doutrina da Fé, na Instrução Donum Veritatis, n. 17, de 24 de maio de 1990, assim nos instrui:

“Deve-se, pois, ter em mente a natureza própria de cada uma das intervenções do Magistério e o modo pelo qual é empenhada sua autoridade, mas também o fato de que todas procedem da mesma Fonte, isto é, de Cristo, que quer que seu povo caminhe na verdade plena. Pelo mesmo motivo, as decisões do Magistério em matéria de disciplina, embora não sejam garantidas pelo carisma da infalibilidade, não deixam de gozar também da assistência divina e exigem a adesão dos fiéis cristãos".

John Lennon J. da Silva
Apostolado S. Clemente Romano

Referencias:

[1] WIKIPEDIA. Concílio Vaticano II. Enciclopédia livre. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_Vaticano_II Acesso em: 26 julho 2010.

[2] LIMA, Alessandro. Pode um católico negar obediência ao Concílio Ecumênico do Vaticano II? Brasília: Apost. Veritatis Splendor: Disponível em: www.veritatis.com.br Acesso em: 27 junho 2007.

[3] ACIDIGITAL. Concílio Vaticano II não está aberto a interpretações livres, precisa autoridade vaticano. [Noticia do dia 10 de Novembro de 2007]. Disponível em: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=11933 Acesso em: 26 julho 2010.

[4] Arráiz, José Miguel. Apologia do Concílio Vaticano II. [tradução livre por John Lennon J. Da Silva] Disponível em: www.apologeticacatolica.org Acesso em: 10 janeiro 2010.

[5] Patrick Madrid e Pete Vere. O Vaticano II foi um concílio “meramente pastoral? [tradução Maite Tosta] Disponível em: http://sobrearochadepedro.blogspot.com/2010/03/o-vaticano-ii-foi-um-concilio-meramente.html Acesso em: 24 julho 2010.

[6] BRODBECK, Rafael Vitola. Algumas questões sobre o Instituto Bom Pastor. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=OPINIAO&id=opi0179 Acesso em: 22 julho 2010.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Uma avaliação do “tradicionalismo” e o anti-vaticano II, (D. Estêvão Bettencourt OSB)

Ao resenhar o livro “O Concílio da Apostasia” do Sr. Homero Johas, o saudoso D. Estêvão aponta os desvios do assim chamado “tradicionalismo”. (*) Havia aqui, até hoje, um link remetendo a outra obra do Sr. Johas. Mas, pelo fato de o Editor tê-lo tirado da web – direito todo seu – resolvi fazer o mesmo por motivo de justiça.


Leia abaixo, na íntegra, o lúcido artigo de D. Estêvão.

REVISTA “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” Nº 513, Ano 2005, Página 138 ss.

Em síntese: O autor rejeita o Concílio do Vaticano II por julgá-lo infestado pela Maçonaria e por seitas anticristãs. Condena a Declaração referente à liberdade religiosa, a tese do colegiado dos Bispos, o rito da Missa aprovado por Paulo VI… afirma estar vacante a sé papal e aguarda um futuro Papa legítimo. O presente artigo tenciona dissipar os equívocos subjacentes às recusas do Sr. Johas e de cristãos perplexos.

O Sr. Homero Johas é autor do livro “Concílio da Apostasia”; com subtítulo “uma falsa religião católica. Inimigos da Igreja disfarçados de católicos”, editado por “Coetus Fidelium (Grupo de Fiéis)”. É obra angustiada, que agride com veemência a atual hierarquia da Igreja, julgando-se infiltrada pela Maçonaria e por seitas anticristãs. A sede papal em Roma estaria vacante desde a morte de Pio XII (1958). O autor ama a Igreja, quer fazê-la mais amada, mas… a Igreja que parou em 1958 com Pio XII.

O ponto sobre o qual mais se apóia a corrente de Homero Johas é a afirmação da Liberdade Religiosa por parte do Concílio; esta parece-lhe acarretar indiferentismo e relativismo religiosos. Trataremos longamente dessa temática no próximo número desta revista. Os demais pontos preconizados pelo Concílio do Vaticano II e contestados pela corrente tradicionalista vão, a seguir, considerados.

1. Liberalismo

O Liberalismo é um movimento inspirado pela afirmação da plena liberdade nos setores filosófico, teológico e político. Despontou no século XVII e prevaleceu na Europa desde a Revolução Francesa (1789).

Por “liberdade” entendem os liberais a emancipação frente a qualquer tutela que não provenha do consenso dos homens. No campo filosófico, isto significa o primado absoluto da razão, que estaria habilitada a julgar até os artigos de fé.

A Revolução Francesa (1789), com seu lema “Liberdade, igualdade, Fraternidade”, depôs a monarquia absolutista dos reis Luís XIV, XV e XVI e promoveu a democracia. Ao mesmo tempo, porém, perseguiu a Igreja e propiciou a impiedade na França e nos países por esta influenciados. O liberalismo era tido como a proclamação de maior idade e maturidade para nações que até então haviam sido governadas de maneira paternalista. No setor político, em oposição ao chamado “direito divino dos príncipes” segundo o qual o rei só deve prestar contas a Deus (por conseguinte, é absoluto na terra), propalou-se a teoria de que “o Estado é fonte de todos os direitos” (proposição condenada por Pio IX no Silado nº 39). Em conseqüência, alguns opositores do Liberalismo passaram a defender “o trono e o altar” associados contingentemente.

No campo religioso, o liberalismo do século XVII tinha seu precedente na teoria luterana do “livre exame da Bíblia”, que recusava qualquer forma de magistério da Igreja. Como dito, o liberalismo chegou a proclamar a liberdade de cada um para julgar a religião sem instância superior à razão individual – o que foi condenado pelo Silado de Pio IX nº 14.39-74.

O passar do tempo contribuiu para que se distinguissem no Liberalismo o sadio e o inaceitável: em particular, deve-se dizer que a pessoa humana merece respeito; o Estado deve contribuir para a auto-realização pessoal dos cidadãos; compete-lhe, porém, exercer o controle necessário para que o bem particular ou mesmo o individualismo subjetivista não prejudique o bem comum. Por conseguinte, vê-se que o Liberalismo é suscetível de acepções diversas. Na medida em que apregoa o respeito à pessoa humana, é portador de um princípio verídico. Todavia pelo fato de exagerar tal respeito, emancipando de Deus o homem, falha lamentavelmente.

A Declaração Dignitatis Humanae não nivela verdade e erro; ao contrário, afirma a obrigação de se procurar a verdade religiosa professada pela Igreja Católica (nº 1), mas afirma que não se pode obrigar ninguém a crer nem se pode coagir alguém a mudar de opinião, desde que “não desrespeite as justas exigências da ordem pública” (nº 4).

2. Ecumenismo

Outro tema que suscita as apreensões de tradicionalistas é o do Ecumenismo. Este foi entendido pelo Concílio do Vaticano II como movimento de restauração por unidade, entre os cristãos separados, dentro da única Igreja fundada por Cristo e entregue ao pastoreio de Pedro.

“A reintegração da unidade entre todos os cristãos é um dos objetivos principais do Sagrado Sínodo Ecumênico Vaticano II. O Cristo Senhor fundou uma só e única Igreja. Todavia muitas comunidades cristãs se apresentam aos homens como sendo a herança verdadeira de Jesus Cristo” (Unitatis Redintegratio nº 1).

“Cremos que o Senhor confiou todos os bens do Novo Testamento unicamente ao colégio apostólico, a cuja frente está Pedro, ao fim de constituir na terra um só Corpo de Cristo, ao qual é necessário que se incorporem plenamente todos os que, de alguma forma, pertencem ao povo de Deus” (ib. nº 3).

Tal noção de ecumenismo é consentânea com o Evangelho, onde o Senhor Jesus pede que seus discípulos sejam um só (Jo 17, 21), constituindo um só rebanho sob um só Pastor (cf. Jo 10, 16). É muito compreensível que a Igreja Católica, em nossos dias, empreenda colóquios teológicos, sessões de estudo, jornadas de orações… para dissipar mal-entendidos existentes entre os cristãos e favorecer a volta dos irmãos separados ao único rebanho entregue a Pedro. O que importa, é evitar o relativismo ou o falso irenismo, ou seja, concessões feitas em detrimento da sã doutrina ou da Moral católica:

“É absolutamente necessário que a doutrina inteira seja lucidamente exposta. Nada é tão alheio ao ecumenismo quanto aquele falso irenismo, pelo qual a pureza da doutrina católica sofre detrimento e seu sentido genuíno é obscurecido” (ib. nº 11).

O autêntico sentido do ecumenismo tem sido deturpado pelo falso irenismo (= pacifismo), de que fala o Concílio. Assim, por exemplo, houve quem afirmasse.

“O ecumenismo não é o esforço da Igreja Católica para trazer de volta os cristãos que dela saíram. Esta era a noção vigente antes do Concílio do Vaticano II… Ecumenismo é o esforço de aproximação entre as várias confissões cristãs em direção à perfeição de Cristo” (Frei Leonardo Martin e Frei Sergio Calixto Valverde, em “O Estado de São Paulo”, 1/-6/88).

Esta noção, que prescinde de referência a Pedro e à Igreja Católica como dispensadora da plenitude dos meios de salvação, é falha e ilusória. Contra ela podem insurgir-se os fiéis católicos em geral; o mesmo, porém, não se diga em relação ao texto conciliar.

Se tem havido abusos na prática do Ecumenismo por parte de representantes católicos, sabemos que abusos non tollit usum, o abuso não extingue o uso.

Cabem aqui duas ulteriores observações:

1) Pedido de perdão. É de notar que em nenhuma das ocasiões em que o Papa pediu perdão ele o fez pelos pecados “da Igreja”, mas sim pelos pecados “dos filhos da Igreja”. Esta é a Esposa sem mancha nem ruga (Ef 5, 26s) e, como tal, não peca; mas também é Mãe… e Mãe de filhos rebeldes, que pecam à revelia de sua Mãe e por cujos erros o Papa pede perdão. É de notar igualmente que o Pontífice não pediu perdão aos homens, mas a Deus; ver as fórmulas em PR 459/2000 pp. 338ss. Pedir perdão não envergonha, mas enobrece, pois, como diz S. Ambrósio, “pecar é comum a todos os homens, mas arrepender-se é próprio dos santos”. Portanto não se diga que a Igreja do Vaticano II condenou a Igreja pré-conciliar.

2) Símbolos de outras crenças religiosas. Quando em suas viagens apostólicas o Papa aceitava ser condecorado com algum símbolo de crença não católica, entenda-se que, assim procedendo, não estava de algum modo abraçando ou apoiando o respectivo Credo, tratava-se de mero cerimonial ou de formalidade protocolar.

3. Igreja e “Estado Católico”

A corrente tradicionalista preconiza o Estado confessional ou o “Estado Católico”. Este foi o ideal de S. Agostinho (+ 430), dos Papas S. Gregório VII (+ 1085), Inocêncio III (+ 1216), Bonifácio VIII (+ 1303). Na Idade Média havia condições para tentar realizá-lo, pois toda a população do Sacro Império Romano, desde o monarca até o mais humilde camponês, professava a fé cristã (católica). Quem não a professasse, só podia ser tido como bruxo, possesso do demônio, enfeitiçado… Por conseguinte, era compreensível o empenho dos Papas em fazer que o Estado professasse ou promovesse a doutrina católica; eram raros os que contestavam teoricamente a veracidade (a verdade não é algo de relativo); mas o racionalismo, o subjetivismo, o relativismo… penetraram as escolas filosóficas, levando muitos cidadãos a se afastar da fé católica. Neste contexto toca à Igreja renovar a sua ação missionária, como tem pregado o Papa João Paulo II, mas não lhe é lícito supor as condições de unanimidade religiosa e aceitação vigentes na Idade Média. Já no começo do século XIV, quando o Papa Bonifácio VIII quis sustentar o ideal de Gregório VII (+ 1083) relativo à Cidade de Deus frente ao rei católico Filipe IV o Belo da França, sofreu vexames e perseguições (embora o rei se dissesse católico!).

Em nossos tempos é preferível a separação da Igreja e do Estado, ficando a Igreja livre para exercer sua ação missionária. O Estado, que conhece a força mobilizadora da religião, tenderá sempre, como fez no passado, a manipular a Igreja segundo seus interesses, desde que isto lhe seja, de algum modo, facultado.

A democracia na sociedade civil é a forma de Governo aceitável aos olhos da fé católica. Isto não quer dizer que deva afetar a estrutura da Igreja. Esta não é nem democracia nem monarquia (no sentido meramente humano desta palavra), mas é sacramento, ou seja, a continuação do Cristo vivo em seu Corpo Místico, de tal modo que as instituições na Igreja comungam, de algum modo, com a índole sacramental de toda a Igreja.

Na Igreja a valorização do colegiado episcopal não implica extinção do primado de Pedro nem é abono de Conciliarismo. Com efeito; os Bispos do mundo inteiro, ainda que unânimes, nada podem decidir sem a participação do Romano Pontífice. Observemos que no Evangelho Jesus confere aos doze Apóstolos (onze mais Pedro) as mesmas faculdades que confiou só a Pedro. Ver Mt 18, 18 e 16, 17-19.

4. Igreja e Modernismo

Os tradicionalistas falam freqüentemente de modernismo na Igreja. Esta palavra é ambígua. Pode significar “o ser moderno, atualizado” (com significação positiva), como também pode significar uma corrente de pensamento que suscitou graves erros no começo do século XX a ponto de provocar a condenação da Parte do Papa Pio X no Decreto Lamentabili (03/07/1907) e na Encíclica Pascendi (08/09/1907).

O modernismo de Alfred Loisy, Georges Tyrell, E. Lê Roy, E. Dimnet, A. Houtin ensinava que Deus não pode ser reconhecido por critérios objetivos racionais, mas apenas pelo sentimento subjetivo do homem; conseqüentemente a verdade religiosa não seria imutável, mas volúvel como o homem é mutável e volúvel; Cristo não teria ensinado um corpo de doutrinas válidas para todos os tempos, mas apenas teria dado início a um movimento religioso a ser adaptado aos diversos tempos da história; o Catolicismo contemporâneo não se poderia conciliar com a verdadeira ciência; para conseguir, deveria tornar-se não dogmático ou transformar-se em protestantismo liberal.

Verdade é que algumas destas idéias, com vocabulário próprio, reaparecem no modo de pensar de teólogos contemporâneos, mas deve-se notar que estes não representam a mente da Igreja como tal. Ao contrário, têm sido sucessivamente chamados à ordem tanto pelo Papa, diretamente em suas Encíclicas, quanto pela Congregação para a Doutrina da Fé; sejam mencionadas, entre outras, as instruções sobre a Teologia da Libertação publicadas respectivamente em 1984 e 1986.

Quem leia atentamente os documentos oficiais da Igreja, verifica que fazem eco à Tradição, procurando com fidelidade adaptá-las às circunstâncias contemporâneas, quando isto se faça necessário.

5. Encontro de Oração em Assis (27/10/86)

Foi mal interpretado o Encontro de representantes dos diversos Credos Religiosos em Assis, a fim de realizarem uma jornada de Oração pela Paz aos 27/10/86. Significaria relativismo ou mesmo injúria ao único Deus.

A propósito observemos, seguindo a trilha mesma oferecida pelo S. Padre João Paulo II em seus discursos:

1) Existe uma unidade fundamental na família decorrente do fato de que

- todos os homens são criados à imagem e semelhança de Deus;

- todos são chamados ao mesmo termo final, ou seja, a usufruir da vida e felicidade do próprio Deus na pátria definitiva;

- todos foram concebidos em Cristo e remidos pelo mesmo sangue do Senhor.

Esta unidade é mais básica e forte do que as diferenças de raça, cultura e até de religião. Ora à Igreja toca a missão de ser “o sacramento da íntima união dos homens entre si e com Deus” (Constituição Lúmen Gentium nº 1). Ela há de ser o fator de superação das diferenças, a fim de constituir o único Povo de Deus, ao qual todos os homens são chamados.

Tal missão da Igreja se desempenha normalmente mediante evangelização, diálogo e oração. Em Assis assumiu nova modalidade: encontraram-se homens de Credos diversos, mas unidos pela mesma religiosidade natural e básica – religiosidade que tem suas expressões espontâneas: a oração como reconhecimento de que “toda boa dádiva vem do alto” (cf. Tg 1,17) e o jejum, símbolo de purificação do coração.- Precisamente para evitar toda aparência de sincretismo religioso, não houve uma fórmula única de oração, mas cada grupo rezou a seu modo em presença dos demais.

Sem dúvida, um tal Encontro de Oração jamais teria sido promovido pela Igreja Católica em épocas passadas; as idéias inspiradoras do mesmo, embora sejam autenticamente católicas, só vieram à tona em nossos dias, catalisadas pela consciência de solidariedade e o anseio de paz que, mais do que nunca, animam os homens de hoje.

6. A nova Liturgia

É impugnada pelos tradicionalistas como eivada de Protestantismo; apresentaria a Eucaristia mais como Ceia do Senhor do que como o sacrifício do Calvário oferecido por Cristo e pela Igreja.

A propósito já foi publicado um artigo em PR 264/1982, pp. 362-377. Há quem se escandaliza de que o altar esteja voltado para os fiéis, a Oração Eucarística seja dita em voz alta, a Comunhão seja distribuída na mão (a quem o queira), as orações sejam proferidas em vernáculo. Baseiam sua repulsa na Tradição… Eis, porém, que seguem uma tradição curta, que tem poucos séculos, retrocedendo para além desses poucos séculos, o estudioso verifica que a Reforma Litúrgica, em muitos casos, não foi senão uma volta à pureza das fontes mais antigas e originais da S. Liturgia. Esta sempre foi celebrada como oração pública, da qual o povo de Deus deve respeitosamente participar.

É certo, porém, que houve (e ainda há) abusos lamentáveis, que concorrem para que alguns desdenhem a nova Liturgia. A Santa Sé tem-se empenhado por coibir tais males, consciente de que abusus non tillit usum. Veja-se a propósito a instrução “Redemptconis Sacramentum” (PR 508/2004, pp. 477ss).

7. Heresias e Tradição

Notemos ainda:

Quem lê os escritos dos tradicionalistas, verifica neles a obsessão pelo inimigos (anticristos), que, com as suas heresias, querem destruir o Catolicismo. – Conseqüentemente procuram nos documentos oficiais da Igreja os textos que proferem condenações de erros e heresias. Ora os Concílios muitas vezes promulgaram cânones que rejeitavam com anatematismos os erros da respectiva época. Todavia a enfatização desses cânones nem sempre leva ao conhecimento exato da verdade de fé pode mesmo levar a outros erros; com efeito, condenar um erro ainda não é formular a autêntica doutrina. Quem julga que a reta fé está contida na proposição contraditória àquela condenada, pode chegar a verdadeiros abusos. Aliás, foi isto que o modernista Alfred Loisy fez, considerando as sentenças condenadas pelo Decreto Lamentabili de Pio X; tomou as contraditórias como verídicas – o que deu origem a outras proposições errôneas.

A própria Lógica ensina: De negatione erroris sequitur quodlibet (da negação do erro, segue-se qualquer proposição). Por exemplo, quem nega que o papel seja branco, não quer dizer automaticamente que o papel é preto (pode ser azul, amarelo, pardo…); quem nega que alguém seja velho, não quer dizer que esse alguém é jovem…; há matizes entre as duas proposições contraditórias. Por conseguinte, os cânones fecham caminhos sem saída, mas não abrem as genuínas vias. Compete ao estudioso que lê tais condenações, recolocar o problema e procurar, a partir das premissas da fé, a solução autêntica para o mesmo. Este trabalho é especialmente delicado quando as condenações da Igreja versam sobre situações momentâneas, sujeitas a evoluir; por exemplo, os conceitos de democracia, liberdade, igualdade tinham conotações nocivas, propensas ao ateísmo, no século XVIII, conotações que não mais existem no século XX; portanto, não se pode dizer que, se a democracia era atéia e condenável em 1789, ela o deva ser em 1980/90; se a união da Igreja e do Estado era desejável em séculos passados, disto não se segue que o seja também no século XX.

Paralelamente observamos: os tradicionalistas esperavam do Concílio do Vaticano II a condenação de todos os erros contemporâneos (protestantismo, cismas orientais, maçonaria, comunismo…) Ora, já que o Concílio não proferiu anátema sobre tais correntes (julgando que as poderia combater de outro modo), concluiu o arcebispo D. Lefebvre que o Concílio lhes fez concessões ou as assimilou – o que é totalmente falso.

8. Sede vacante

O Sr. Homero Johas afirma estar vacante a sede papal em Roma porque os Papas Paulo VI e João Paulo II terão caído em heresia.

Pergunta-se: qual heresia? – Não se pode dizer que algum dos Pontífices citados tenha renegado algum tipo de fé, muito ao contrário, são sim arautos fiéis incansáveis da verdade revelada. O que se aponta, são palavras talvez ambíguas, que as pessoas preconceituosas interpretam em sentido heterodoxo; assim “o culto do homem” proposto por Paulo Vi não substitui o culto de Deus, mas significa renovado pelo pastoral pela salvação do homem. A tendência dos Papas recentes é reconhecer o que há de verídico e bom naqueles que erram, sem negar os respectivos erros, pois sabiamente se diz que em todo erro há um cerne de verdade (não desenvolvido). A tarefa de atacar os erros exclusivamente pode levar os homens a maiores divisões ou mesmo a violência física, ao passo que realçar o que há de positivo no adversário pode aproximar e talvez unir os contendentes.

Entenda-se, pois, que a sé de Pedro não está vacante, mas sim legitimamente ocupada por João Paulo II.

Cita-se o fato de que o Arcebispo Mons. Pedro Martinho Thuc, expulso do Vietnam; declarou em Munique aos 25/02/82 que a sede de Pedro está vacante. – Ora tal declaração não tem o mínimo valor jurídico; a Tradição mesmo ensina que “a primeira sede por nenhuma outra é julgada”. Valorizar no plano jurídico esse pronunciamento do Arcebispo Mons. Thuc equivale a praticar uma modalidade de Conciliarismo, que a corrente de Homero Johas rejeita.

9. Conclusão

O livro do Dr. Homero Johas, acompanhado de um livreto sobre o Agnosticismo, é escrito em estilo passional, recorrendo a farto documentário para provar o que não existe, ou seja, que o Concílio do Vaticano II cedeu à heresia e os Papas que o aprovaram não são Papas. A argumentação é artificial: constrói fantasmas e atira neles, julgando ter eliminado o Adversário.

Estevão Bettencourt O.S.B.

FONTE:
 
http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0118