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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Cristianismo e Racionalismo

Por G. K. Chesterton.

Um amigo, o Sr. George Haw, pediu-me para expor, em um ou dois artigos, que pudessem ser inseridos no Clarion, minha crença geral na verdade do Cristianismo. Não fingirei nenhuma relutância em fazê-lo; mas eu não deveria fazê-lo antes de oferecer ao Sr. Blatchford nossa gratidão e o que é melhor que isso, nossos parabéns, a respeito do seu gesto tão generoso de ter publicado até mesmo seu periódico nas mãos de seus oponentes religiosos. Ao fazer isto, ele ganhou, numa generosa desinconsciência, um ponto autêntico.

Receio que a maior parte das terríveis revelações sobre o mal Cristão, não o da ignorância, me afetam tão gravemente quanto deveriam. Quando ouço que um professor Alemão encontrou a quadracentésima origem precisa do protoplasma, tento, em vão, sentir entusiasmo; quando leio que os selvagens pintam de verde suas faces para agradar os fantasmas (e assim por diante), não tenho nenhum sentimento além de simpatia e um vago prazer. Ambos o professor e o selvagem de cara verde parecem, para mim, estar fazendo a mesma coisa: caindo na influência desse brilhante impulso que leva os homens a fazer algo grandioso com coisas completamente inúteis.

Mas tais coisas não fazem muita diferença da minha visão a respeito do Cristianismo. Em toda essa controvérsia, senti algo forte, que de fato atingiu o Cristianismo prático; penso ser um bom argumento; acho que é um argumento terrível. Trata-se do fato de esta controvérsia estar sendo conduzida num jornal não Cristão. Certamente é um ponto marcado justamente contra a religião, pois as pessoas que parecem ser mais interessadas nela são justamente as pessoas que acreditam ser ela uma fraude. Portanto, acho que a generosidade do Sr. Blatchford, como toda generosidade, é profundamente filosófica e sábia.

Eu nem o acuso, como alguns fizeram, de discuti-lo prolixamente. Como o assunto é a natureza do Universo, fica necessariamente tão grande quanto o Universo, tão rico quanto o Universo, e, posso acrescentar, tão divertido quanto o Universo.

Na verdade, imagino que deve existir algo como a Imortalidade, para que eu e o Sr. Blatchford simplesmente tenhamos tempo pra discutir se é verdade.

Antes de resumir meu ponto de vista, há algo a dizer no qual não posso evitar uma nota pessoal. Comecei a perceber que meu modo de falar nestes assuntos parece a muita gente uma indicação de que sou leviano ou imperfeitamente sincero. Pois, na realidade, estar mais convicto neles que na existência da lua me deixa pesaroso; mas busco ver a naturalidade do erro e como ele surgiu nas pessoas quando expulsas da atmosfera Cristã. O Cristianismo é em si tão alegre que enche seu possuidor de certa exuberância boba, a qual os tristes e exultantes Racionalistas podem razoavelmente compreender mal, por simples tolice ou blasfêmia; como seus protótipos, os tristes e exultantes Estoicos da velha Roma, eles fizeram da alegria Cristã palhaçada e blasfêmia.

Esta diferença conserva bom todo lugar, desde a fria arquitetura Pagã e as sorridentes gárgulas da Cristandade, até o absurdo multicolorido das Idades Médias e o sujo vestido deste século Racionalista. E se o Sr. Blatchford deseja saber porque deveríamos estar surpresos se o Duque de Devonshire andou com uma perna vermelha e outra amarela (como um nobre também o faria no século XIII), posso obsequiosamente informar-lhe que isto acontece por decadência de nossa fé. Em lugar nenhum na história existiu qualquer brilho popular ou alegria sem religião.

A primeira de todas as dificuldades que tenho em debater com o Sr. Blatchford é simplesmente esta: estarei andando prodigiosamente sobre sua base. Meu compêndio predileto de teologia é “Deus e minha Vizinhança”[2] mas não posso dizê-lo em detalhes. Se dei cada uma das minhas razões pra ser Cristão, elas seriam, em grande número, as mesmas que o Sr. Blatchford tem pra não ser.

Por exemplo, o Sr. Blatchford e sua escola assinalam que existem muitos mitos paralelos aos da estória Cristã; que existiram Cristos Pagãos, Índios Pele-Vermelha, Crucificações Patagonianas, e tudo isso eu conheço e aprecio. Mas o Sr. Blatchford não vê o outro lado deste fato? Se o Deus Cristão realmente gerou a raça humana, não tenderia a raça humana a divulgar os boatos e depravações do Deus Cristão? Se o centro de nossa vida é um fato, não estariam as pessoas longe do centro tendo uma versão confusa de tal fato? Se em nossa condição precisamos de que nos livre o Filho de Deus, seria estranho que os Patagônicos devessem sonhar com um Filho de Deus?

A posição Blatchfordiana na verdade equivale a isto: algo vem impressionando, como provável ou necessário, milhões de pessoas diferentes, logo, isto não pode ser verdadeiro. E depois, este tímido ser, ocultando seus próprios talentos, acusa o miserável G. K. C. de paradoxo! Gosto do paradoxo, mas não estou preparado pra dançar segundo o Nunquam ou encantar a quem aponta para a humanidade a clamar por algo - para ela apontando desde tempos imemoriais - como uma prova de que o objeto apontado não deve estar lá.

A estória de um Messias é muito comum em lendas e na literatura. Assim é a estória de dois amantes separados pelo Destino. Assim é a estória de dois amigos se matando por uma mulher. Mas isto seria mantido seriamente pelo fato de serem essas duas estórias comuns como lendas, embora nenhum dos dois amigos estivessem separados pelo amor ou nenhum dos dois amantes pelas circunstâncias? Certamente, é razoavelmente natural que estas duas estórias sejam comuns, pois nelas a situação é humana e intensamente provável e nossa natureza é feita como que para torná-las quase inevitáveis.

Por que não seria nossa natureza criada como que para para tornar certos eventos espirituais inevitáveis? Em todo o caso, é claramente ridículo tentar refutar o Cristianismo pela quantidade e variedade dos Cristos Pagãos. Você pode também pegar o número e variedade de esquemas ideais de sociedade, d'A República' de Platão ao 'Novas de lugar nenhum' de Morris, da 'Utopia' de More à 'Merrie England' de Blatchford, e depois tentar provar partindo delas que a humanidade nunca pode alcançar uma condição social melhor. Se fazem algo, é claro, trata-se do oposto disso; sugerem uma tendência humana que se dirige a um mundo melhor.

Assim, em primeira instância, quando os céticos estudados vem dizendo, “tem certeza de que os Kaffirs tem uma estória de Incarnação?” Devo replicar: “Falando como um leigo, não posso saber. Mas falando como um Cristão, devo estar muito impressionado se não tiverem.”

Tomemos um segundo exemplo. O Secularista diz que o Cristianismo foi ascético e sombrio, e aponta para a procissão de santos austeros e ferozes que abandonaram seus lares e sua felicidade e largaram a saúde e o sexo. Mas nunca parece ocorrer a ele que a esquisitice e plena sujeição deles muito faz parecer que houvesse realmente algo real e sólido naquilo pelo qual se doaram. Cederam à todas as experiências humanas por uma sobre-humana. Eles podem ter sido perversos, mas parece que aquela experiência ocorreu.

É perfeitamente defensável que esta experiência, tanto quanto a bebida, é perigosa e egoísta. Um sem-teto que anda maltrapilho, disposto a ter visões, pode ser tão repugnante e imoral quanto um sem-teto que anda maltrapilho, disposto a beber conhaque. É uma postura bastante razoável. Mas dizer que o que não é claramente uma postura razoável não estaria muito longe, na verdade, de ser uma postura insana, seria dizer que o desleixo, a indigência e o penoso aviltamento do homem provaram que não existia conhaque.

É precisamente o que tenta afirmar o Secularista. Tenta provar que não há como pensar na experiência sobrenatural como algo pelo qual as pessoas doaram tudo. Tenta provar que isso não existe demonstrando que existem pessoas que vivem desmotivadas.

De novo, posso docilmente perguntar: “De quem é o paradoxo?” O frenético rigor desses homens pode, é claro, mostrar que aquelas foram pessoas excêntricas que amaram a infelicidade pra seu próprio bem. Mas parece mais de acordo com o bom senso supor que eles tinha realmente descoberto o segredo de algum poder ou experiência real a qual foi, como vinho, uma terrível consolação e uma alegria solitária.

Assim, em seguida, num segundo exemplo, quando o cético culto diz pra mim: “Santos Cristãos deixaram amor e liberdade por tal êxtase do Cristianismo," eu deveria replicar: "Foi um grande erro deles. Mas, tendo alguma noção do êxtase do Cristianismo, eu deveria estar surpreso se não houvessem deixado.”

Tomemos um terceiro caso. O Secularista diz que o Cristianismo fomentou desordem e crueldade. Ele parece sugerir que isto prova ser mal o Cristianismo. Mas eles podem provar o contrário. Homens cometem crimes não somente por coisa más, mas frequentemente por coisas boas. As coisas ruins podem ser desejadas tão apaixonada e persistentemente quanto as boas, mas apenas homens muito excepcionais desejam coisas muito anormais e más.

A maior parte do crime é cometida porque, devido a alguma complicação peculiar, muitas coisas belas e essenciais residem nalgum perigo. Por exemplo, se quisermos acabar com o roubo e com a burla com apenas um golpe, a melhor coisa a fazer seria acabar com as criancinhas. As criancinhas, que são a coisa mais linda do mundo, têm sido o subterfúgio da selvageria e a origem da crise financeira da terra. Se pudéssemos abolir o amor romântico ou monogâmico, novamente o país seria dotado de assizes[3] de donzelas. E se em alguma parte da história massas de homens comuns e amáveis se tornaram cruéis, isto, quase com certeza, não significa que eles estão servindo a algo tirânico em si mesmo (por que deveriam?), mas que, quase com certeza, aquilo que racionalmente valorizam está em perigo, como o alimento de seus filhos, a pureza de suas mulheres ou a independência de seus países. E quando algo se coloca diante deles que não só seja extremamente valioso, mas suficientemente novo, o súbito pressentimento, a chance de ganhar ou perder, guia sua loucura. Isso tem, na vida moral, o mesmo efeito que tem a descoberta do ouro na economia do mundo. Isso inverte os valores e cria uma espécie de ímpeto cruel.

No caso dos exemplos religiosos não precisamos ir tão longe. Quando as doutrinas modernas de irmandade e liberdade foram pregadas na França no século XVIII, o tempo era oportuno a elas, em todo lugar as classes cultas a elas aderiram, de modo considerável o mundo as acolheu. E mesmo com todo aquele aparato e aquela abertura foram incapazes de prevenir o rebento da raiva e a agonia que cumprimentam tudo o que é bom. E se o lerdo e cortês pregador da fraternidade racional numa era racional acabou nos massacres de Setembro, que grande a fortiori temos aqui, não? Qual seria, provavelmente, o resultado da queda brusca de uma verdade terrivelmente perfeita num século terrivelmente mal? O que aconteceria se um mundo tão simples quanto o de Sade[4] fosse confrontado com um evangelho tão puro quanto o de Rousseau?

O mero arremesso do seixo polido da República Idealista no lago artificial da Europa do século XVIII produziu um borrifo que parecia respingar os céus, produziu também a tempestade que afogou dez mil homens. O que aconteceria se uma estrela realmente caísse do céu na sangrenta e pegajosa piscina de uma humanidade decaída e desesperada? Os homens varreriam uma cidade com a guilhotina e um continente com o sabre, porque a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade foram preciosas demais pra ser perdidas. Como aconteceria com o Cristianismo, então, quando este era ainda mais enlouquecedor pelo simples fato de ser ainda mais precioso?

Mas por que deveríamos relembrar o momento em que Aquele que conheceu a natureza humana como ela realmente pode ser conhecida, desde pescadores e mulheres a pessoas naturais, viu, da sua pacata vila, o caminho desta verdade através da história, e, ao dizer que Ele veio trazer não a paz mas a espada, colocou eternamente Seu colossal realismo contra o eterno sentimentalismo do Secularista?

Assim, já no terceiro caso, quando o cultíssimo cético dissesse: “O Cristianismo produziu guerras e perseguições,” deveríamos responder: “Naturalmente.”

E, por fim, permita-me tomar um exemplo que me leva diretamente ao assunto geral que desejo discutir até o fim do percurso dos artigos pelos quais sou responsável. O Secularista constantemente assinala que as religiões Hebraica e Cristã surgiram como problemas locais; que seu deus era um deus tribal; que elas deram a ele forma material e o anexaram a lugares específicos.

Este é um exemplo excelente das coisas que eu deveria usar pra salientar a validade da experiência Bíblica, se estivesse conduzindo uma campanha detalhada. Pois se existem realmente seres mais elevados que nós e se eles, de algum modo estranho, nalguma crise emocional, realmente revelaram-se a rústicos poetas ou sonhadores de tempos singelos, então aquele povo rústico deveria realmente considerar provinciana a revelação e ligá-la a colina específica ou ao rio específico onde ocorreu, e me parece que isso é o que qualquer ser humano racional esperaria. Isso tem uma aparência muito mais verossímil do que se eles houvessem falado de filosofia cósmica desde o início. Se houvessem, eu deveria ter desconfiado do “sacerdócio,” das falsificações e do Gnosticismo do século III.

Se esse tal de Deus existe, se pode falar com uma criança, e se, de fato, falasse com uma criança no jardim, é claro que ela iria dizer que Deus morara no jardim. Não posso pensar que isso é pouco provável por esse motivo. Se a criança dissesse: “Deus está em todo canto: uma essência intocável que permeia e apoia todos os componentes do Cosmos de igual modo" – digo que se o infante me falasse isso com os termos acima, eu pensaria que era muito provável que tratava-se mais da governanta do que de Deus.

Se Moisés tinha Deus como uma Energia Infinita, eu estaria certo de que ele não via nada de extraordinário. Se dissesse que Deus era uma Sarça Ardente, penso que aí sim ele viu algo extraordinário. Pois qualquer que seja o Segredo Divino, e se tem ou não quebrado limites às vezes (como acreditam todas as pessoas) ou surgido no nosso trabalho, pelo menos isto está bem longe dos pedantes e suas definições, e mais próximo das almas admiráveis de pessoas sossegadas, de seu amor à região nativa e da beleza dos arbustos.

Então, em última instância (fora as cem que poderiam ser tomadas), chegamos ao mesmo lugar. Quando o cético instruído disser: “As visões do Antigo Testamento foram provincianas, rústicas e grotescas,” diremos: “Claro! Elas foram reais.”

Então, como eu dizia no início, me encontro, pra começar, face a face com uma dificuldade: mencionar as razões pelas quais acredito no Cristianismo é, em muitos casos, o mesmo que repetir aqueles argumentos que o Sr. Blatchford, estranhamente, parece considerar argumentos contra ele. Seu livro é realmente rico e eficaz. Ele sem dúvida levantou essas quatro armas formidáveis das quais falei. Não tenho nada a dizer contra o tamanho e munição dessas armas. Só acho que por algum acidente no arranjo ele apontou a culatra daquelas quatro peças de artilharia para mim, e as bocas para si mesmo. Se eu não fosse tão compassivo, eu devia dizer: “Senhores da Guarda Secularista, o primeiro disparo.”

E digo mais: o Sr. Blatchford, por uma razão ou outra (possivelmente falta de espaço), negou explicar todos os argumentos para o Cristianismo. E, estranhamente, os dois ou três argumentos que ele resolveu ocultar são os realmente essenciais e vitais. Sem eles, mesmo os quatro fatos excelentes, que ele e eu temos, respectivamente, explicado, podem parecer superficiais e ininteligíveis.

Por que muitos de vocês não aceitarão minhas explicações? Obviamente, na simples lógica, elas são tão lógicas quanto as do Sr. Blatchford. É razoável, em suma, que a verdade deveria ser distorcida tanto quanto a mentira; é razoável, suponho, que os homens devem ser mortos por fome e pecado, mas mais por um real benefício que por um benefício inexistente. Você não irá acreditar nisto porque você tá armado até os dentes, e abotoado até o queixo, com a grande Ortodoxia Agnóstica, talvez a mais plácida e perfeita das ortodoxias do meio termo. Você daria mais crédito a um Sócrates que foi um espião Governamental do que a um Sócrates que ouviu a voz de seu Deus. Você poderia pensar mais facilmente ter Cristo assassinado Sua mãe, que ter tido Ele uma energia psíquica da qual nada sabemos. Então eu me achegaria a você reverente e corajoso, como a um tribunal de bispos.
Notas:

[1] Jornal inglês.

[2] Livro de Robert Blatchford.

[3] Processos judiciários.

[4] Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade, foi um aristocrata francês e escritor libertino.

Fonte:

CHESTERTON, G. K. Cristianismo e racionalismo. [título original: Christianity and Rationalism, tradução de Wendy A. Carvalho]. Site Chesterton Brasil. Disponível em: http://chestertonbrasil.blogspot.com/2011/09/cristianismo-e-racionalismo.html Acesso em: 13 Setembro 2011.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

São Thomas Morus

Por G. K. Chesterton
St. Thomas More, capítulo retirado do livro The Well and the Shallows (1935).

A maioria das pessoas não entenderia a expressão de que a mente de Morus era como um diamante que um tirano atirou a um fosso porque não podia quebrá-lo. Não é senão uma metáfora; mas há vezes em que acontece de a metáfora ter muitas faces, como o diamante. O que moveu o tirano a ter tal horror àquela mente era a clareza dela. Era ela o extremo oposto de um cristal turvo, repleto somente de sonhos opalescentes ou de fantasmas do passado.

O rei e seu ilustre chanceler foram companheiros tanto quanto contemporâneos. Sob muitos aspectos, ambos eram homens renascentistas; mas sob alguns aspectos, aquele que era o homem mais católico era também o menos medieval, ou seja, havia talvez mais no Tudor daquele mero resto antiquado de medievalismo decadente que os verdadeiros reformadores da Renascença notaram ser a corrupção do tempo. Na mente de Morus não havia senão clareza; na de Henrique – embora ele não fosse nenhum tolo e certamente nenhum protestante – havia um quê de confuso conservadorismo. Como todo bom homem que calha de ser anglo-católico, este tem um toque de antiquado. Thomas Morus era mais racional, motivo pelo qual não havia nada em sua religião que fosse meramente local, ou, nesse sentido, meramente leal.

A mente de Morus era tal qual um diamante também por seu poder de cortar vidro, de penetrar coisas que, conquanto pareçam transparentes, são ao mesmo tempo menos sólidas e menos multifacetadas. Pois, na verdade, as heresias verdadeiramente consistentes geralmente parecem muito claras, como naquela época o calvinismo e agora o comunismo. Algumas vezes elas até parecem muito verdadeiras. Algumas vezes elas até são muito verdadeiras, no sentido limitado de uma verdade que é inferior à Verdade. Elas são, a um só tempo, mais tênues e mais quebradiças do que o diamante, pois é comum que uma heresia não seja uma simples mentira. Como o próprio Thomas Morus disse, “nunca houve um herege que só falasse falsidades”. Uma heresia é uma verdade que esconde todas as outras verdades. Uma mente como a de Morus estava cheia de luz, como uma casa feita de janelas; mas as janelas olham para fora, para todos os lados, em todas as direções. Nós poderíamos dizer que assim como a jóia tem muitas facetas, também o homem tem muitas faces. Nenhuma delas, contudo, é máscara.

Ora, essa grandiosa história tem tantos aspectos que a dificuldade de tratar dela num artigo tem que ver com a seleção, mas ainda mais com a proporção. Eu poderia tentar e falhar em fazer justiça a seu aspecto mais elevado, àquela santidade que agora está além até mesmo da Beatitude. Eu poderia igualmente preencher todo o espaço com a mais despretensiosa das brincadeiras com que o ilustre humorista se deleita na vida diária: talvez a maior brincadeira de todas seja o livro chamado “Utopia”. Os utopistas do séc. XIX imitaram o livro sem enxergar a brincadeira. Mas dentre uma perturbadora complexidade de aspectos ou ângulos tão diferentes, eu decidi tratar apenas de dois pontos. Embora a importância deles seja muito grande, não o faço porque sejam as mais importantes verdades sobre Thomas Morus, mas porque são duas das mais importantes verdades sobre o mundo no presente momento. Uma mostra-se mais claramente na morte dele, a outra em sua vida – ou talvez fosse preferível dizer que uma tem que ver com sua vida pública e a outra com sua vida privada. Uma está muito além de qualquer admiração conveniente, e a outra pode parecer, em comparação com aquela, um anticlímax quase cômico. Mas uma acerta em cheio nossa atual discussão sobre o Estado, e a outra a sobre a família.

Thomas Morus morreu a morte de um traidor por afrontar a monarquia absoluta, no sentido estrito de tratar a monarquia como um absoluto. Ele desejava e até ansiava por considerá-la algo relativo, mas não algo absoluto. A heresia que havia subido às cabeças no tempo dele era a heresia chamada Direito Divino dos Reis. Sob essa forma, ela é hoje considerada uma antiga superstição, mas já reapareceu como uma novíssima superstição sob a forma do Direito Divino dos Ditadores. Entretanto, a maioria das pessoas ainda pensa que ela é antiga. E quase todas elas pensam que ela é muito mais velha do que é. Uma das principais dificuldades de hoje é explicar às pessoas que essa ideia não era inerente à época medieval ou a tempos mais antigos.

As pessoas sabem que o controle constitucional sobre os reis foi crescendo por um século ou dois. Elas não percebem que qualquer outro tipo de controle jamais poderia ter funcionado. E, mudado o contexto, aqueles outros controles são difíceis de descrever ou de imaginar. Mas o homem medieval sem dúvida pensava no rei como governando sub deo et lege – traduzindo literalmente, “sob Deus e a lei”, mas envolvendo também algo atmosférico que, mais indefinidamente, poderíamos chamar de “sob a moralidade subentendida em todas as nossas instituições”. Os reis eram excomungados, eram depostos, eram assassinados, eram objeto de toda sorte de tratamentos, defensáveis e indefensáveis, mas ninguém pensava que a comunidade inteira sentia com o rei, ou que ele sozinho tinha autoridade suprema. O Estado não possuía os homens tão completamente, nem mesmo quando podia mandar empalá-los, como agora o possui nos lugares em que pode mandá-los para a escola primária. Havia uma ideia de refúgio que geralmente era uma ideia de santuário. Em suma, de mil estranhas e sutis maneiras, como deveríamos pensá-las, havia uma espécie de escape. Havia limites para César; e havia liberdade em Deus.

A mais alta voz da Igreja declarou que este herói era, no sentido verdadeiro e tradicional, santo e mártir. E é apropriado lembrar que, por uma razão muito especial, ele de fato está posto junto daqueles primeiros mártires cujo sangue foi a semente da Igreja nas primeiríssimas perseguições feitas pelos pagãos. Pois a maior parte deles morreu, como ele também, por se recusar a converter uma lealdade civil em idolatria religiosa. A maior parte deles não morreu por se recusar a adorar Mercúrio ou Vênus, ou figuras lendárias que se podia supor que não existissem, ou outras como Moloch ou Priapo, que era razoável esperar que não existissem. A maior parte deles morreu por se recusar a adorar alguém que realmente existiu e mesmo alguém a quem estavam de todo prontos a obedecer, mas não a adorar. O típico martírio geralmente ataca a prática de queimar incenso ante a estátua do Divino Augusto, a sacra imagem do imperador.

Ele não era necessariamente um demônio a ser destruído, mas simplesmente um déspota que não deve ser transformado em divindade. E é aí que o caso dos mártires chega assim tão perto do problema prático de Thomas Morus e assim tão perto do problema prático do atual culto ao Estado. E é típico de todo pensamento católico que os homens morram em tormentos, não porque seus inimigos “só falassem falsidades”, mas simplesmente porque eles não poderiam prestar uma reverência imoderada quando estavam perfeitamente prontos a prestar um respeito moderado. Para nós, o problema do progresso é sempre um problema de proporção: aperfeiçoamento é chegar a uma justa proporção e não meramente avançar numa direção. E nossas dúvidas a respeito da maioria dos incrementos modernos – a respeito dos socialistas na última geração, ou dos fascistas nesta geração – não procede de termos quaisquer dúvidas sobre a necessidade de justiça econômica ou de ordem nacional mais do que Thomas Morus deu-se ao trabalho de objetar uma monarquia hereditária. Ele objetou o Direito Divino dos Reis.

No sentido mais profundo, ele é então o paladino da liberdade em sua vida pública e em sua ainda mais pública morte. Em sua vida privada, ele é o tipo de verdade menos compreendida atualmente: a verdade de que a verdadeira morada da liberdade é a casa. Novelas modernas, jornais e teatros de tese (problem plays)[1] foram-se amontoando numa enorme pilha de lixo para esconder esse simples fato; um fato que pode ser provado de modo bastante simples. A vida pública deve ser quiçá mais regulada do que a vida privada, assim como um homem não pode perambular pelo trânsito de Picadilly exatamente da mesma forma que poderia perambular por seu próprio jardim. Onde há trânsito, deve haver um regulamento de trânsito. E isso também vale – ou vale ainda mais – quando há o que poderíamos chamar de trânsito ilícito, quando os governos mais modernos organizam esterilizações hoje e é possível que amanhã organizem infanticídios.

Aqueles que sustentam a superstição moderna de que o Estado não é capaz de fazer nada de errado serão obrigados a aceitar tal coisa como verdade. Se indivíduos têm qualquer esperança de proteger suas liberdades, eles precisam proteger sua vida familiar. No pior dos casos, haverá mais adaptação pessoal num lar do que num campo de concentração; no melhor dos casos, haverá menos rotina numa família do que numa fábrica. Em qualquer lar minimamente saudável, as regras são afetadas pelo menos parcialmente por coisas que não podem de modo algum afetar as leis estabelecidas, como ocorre, por exemplo, com aquilo que chamamos de senso de humor.

É por isso que Morus é vivamente importante como o humorista, como representante dessa fase especial do humanista. Por trás de sua vida pública, tão grandiosa quanto uma tragédia, havia uma vida privada que era uma perpétua comédia. Ele era, como o Sr. Christopher Hollis diz em seu excelente estudo, “um incorrigível pregador de peças”[2]. Todos sabem, é claro, que comédia e tragédia encontraram-se – como se encontram em Shakespeare – naquele alto palco de madeira em que o drama de Morus terminou. Naquele terrível momento, ele percebeu e apreciou a grande anedota do corpo humano, como de um tipo de amável madeira serrada; discutiu gravemente se sua barba havia cometido traição; e, subindo as escadas, disse: “Veja como estou seguro cá em cima! Descer, posso fazê-lo sozinho.”

Mas Thomas Morus nunca desceu aquela escada. Ele havia terminado com todas as descidas e movimentos descendentes; e desapareceu aos olhos dos homens quase à maneira de seu Mestre, que, ao ser erguido, puxou todos os homens consigo. E encerrou-se a escuridão ao seu redor, e as nuvens se interpuseram, até que, muito tempo depois, a sabedoria capaz de ler tais segredos viu-o fixado muito acima de nossas cabeças, como uma estrela em regresso; e firmou seu lugar nos céus.

[1] A expressão “problem plays” faz referência a uma espécie de teatro realista do século XIX, que tem como traço característico o debate de problemas sociais que envolvem os personagens em complicados dilemas. Os mais famosos escritores de peças desse tipo foram Alexandre Dumas e Henrik Ibsen.

[2] “Leg-puller”seria, mais literalmente, aquele que, por brincadeira, “passa a perna” em outros.

Fonte:

CHESTERTON, G. K. São Thomas Morus. Site Chesterton Brasil. [Tradução de Luíza Monteiro de Castro Silva Dutra]. Disponível em: http://chestertonbrasil.blogspot.com/search/label/São%20Thomas%20Morus Acesso em: 23 Junho 2011.

domingo, 22 de maio de 2011

Linguagem e Epistemologia em São Tomás de Aquino

Nas últimas semanas, o Apostolado São Clemente Romano recebeu uma cópia digital do livro Linguagem e Epistemologia em Tomás de Aquino, cuja organização foi realizada pelo filósofo Ivanaldo Santos, professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte.

O livro apresenta uma pequena coleção de artigos dos principais pesquisadores brasileiros em São Tomás de Aquino, como os professores Paulo Faitanin, da UFF, e Jean Lauand, da USP.

Como o próprio título do livro informa, o foco do trabalho é na linguagem e na epistemologia do Doutor Angélico, temas bastante correntes da atualidade, segundo a introdução da obra.

E é com grande satisfação e com as devidas permissões do organizador que estamos disponibilizando essa obra para nossos leitores aqui no site.

Esperamos que aproveitem a leitura e discutam conosco cada capítulo na comunidade do blog no orkut.

sábado, 14 de maio de 2011

Provas da existência de Deus em São Tomás de Aquino


Pequeno texto contendo síntese sobre as provas da existência de Deus segundo o grande escolástico e doutor da Igreja São Tomás de Aquino. É um bom texto, em anexo também um vídeo explicativo, sugiro aos leitores ambos. Como estou ocupado por esses dias e me deparei através de meu twitter oficial com o assunto que já conhecia, é proveitoso aos visitantes deste site tomarem também conhecimento dos sólidos argumentos de Tomás.




I – Prova do movimento


Todas as coisas existentes estão passiveis de mudança, porem elas não podem mudar por si próprias, um objetos pode ter seu estado “frio”, e permanecerá assim até que algo com o estado “quente” o aqueça, como o fogo.

Ou seja, para que algo adquira uma qualidade ou perfeição, é preciso a existência de outro para que o mude

Tudo o que muda é mudado por outro.

Tudo o que se move é movido por outro.

É preciso então a existem de algo/alguém que tenha em si todas as qualidades e perfeições, e que a partir dele se desenvolveu todas as mudanças, a esse 1º motor que deu origem a todos os movimentos e mudanças, nós chamamos de Deus

II – Prova da causalidade eficiente

Toda causa é anterior a seu efeito. Para uma coisa ser causa de si mesma teria de ser anterior a si mesma. Por isso neste mundo sensível, não há coisa alguma que seja causa de si mesma. Além disso, vemos que há no mundo uma ordem determinada de causas eficientes.

A primeira causa, as intermediárias e estas causam a última.

Por conseguinte, a série de causas eficientes tem que ser definida. Existe então uma causa primeira que tudo causou e que não foi causada.

Deus é a causa das causas não causada. Esta prova foi descoberta por Sócrates que morreu dizendo: “Causa das causas, tem pena de mim”. A negação da Causa primeira leva à ciência materialista a contradizer a si mesma, pois ela concede que tudo tem causa, mas nega que haja uma causa do universo.

III – Prova da contingência

Na natureza, há coisas que podem existir ou não existir. Os entes que têm possibilidade de existir ou de não existir são chamados de entes contingentes. Neles, a existência é distinta da sua essência, assim o ato é distinto da potência. Ora, entes que têm a possibilidade de não existir, de não ser, houve tempo em que não existiam, pois é impossível que tenham sempre existido.

Se todos os entes que vemos na natureza têm a possibilidade de não ser, houve tempo em que nenhum desses entes existia. Porém, se nada existisse, nada existiria hoje, porque aquilo que não existe não pode passar a existir por si mesmo.

Se sua necessidade dependesse de outro, formar-se-ia uma série indefinida de necessidades, o que, como já vimos é impossível. Logo, este ser tem a razão de sua necessidade em si mesmo. Ele é o causador da existência dos demais entes. Esse único ser absolutamente necessário – que tem a existência necessariamente – tem que ter existido sempre. Nele, a existência se identifica com a essência. Ele é o ser necessário em virtude do qual os seres contingentes tem existência. Este ser necessário é Deus.

IV – Prova Dos graus de perfeição dos entes

Constatamos que os entes possuem qualidades em graus diversos. Assim, dizemos que o Rio de Janeiro é mais belo que Carapicuíba. Nessa proposição, há três termos: Rio de Janeiro, Carapicuíba e Beleza da qual o Rio de Janeiro participa mais ou está mais próximo. Porque só se pode dizer que alguma coisa é mais que outra, com relação a certa perfeição, conforme sua maior proximidade, participação ou semelhança com o máximo dessa perfeição.

V – Prova pelo governo do mundo

Verificamos que os entes irracionais obram sempre com um fim. Comprova-se isto observando que sempre, ou quase sempre, agem da mesma maneira para conseguir o que mais lhes convém.

Daí se compreende que eles não buscam o seu fim agindo por acaso, mas sim intencionalmente. Aquilo que não possui conhecimento só tende a um fim se é dirigido por alguém que entende e conhece. Por exemplo, uma flecha não pode por si buscar o alvo. Ela tem que ser dirigida para o alvo pelo arqueiro. De si, a flecha é cega. Se vemos flechas se dirigirem para um alvo, compreendemos que há um ser inteligente dirigindo-as para lá. Assim se dá com o mundo. Logo, existe um ser inteligente que dirige todas as coisas naturais a seu fim próprio. A este ser chamamos Deus.

Fonte:

Provas da Existência de Deus - São Tomás de Aquino. Blog A Fé Explicada. Disponível: http://afeexplicada.wordpress.com/2011/05/08/provas-da-existencia-de-deus-sao-tomas-de-aquino/ Acesso em: 14 Maio 2011.

sábado, 7 de maio de 2011

Religião e Sexo

O homem honesto que diz que deseja que o cristianismo seja meramente prático e não teórico ou teológico, raramente consegue explicar o que ele exatamente quer dizer. Essa é a razão de haver tanta repetição simplesmente verbal no que ele diz. Geralmente, os pobres teóricos e teólogos têm de explicá-lo o que ele quer dizer. De qualquer forma, ele quer dizer algo mais ou menos assim. Um número muito grande de pessoas saudáveis e bondosas é, hoje, oportunista. Todos acreditamos que devemos cortar nosso casaco de acordo com o tecido que temos, no sentido de que ninguém pode fabricar um casaco sem tecido. Mas se o costureiro me diz que todo o tecido em estoque é amarelo-mustarda brilhante, decorado com caveiras escarlates, terei de adiar o quanto puder o uso desse tecido para meu novo casaco, podendo até constranger-me, e ao costureiro, sugerindo-lhe procurar outro tipo de tecido.

Contudo, há um tipo de homem que usará prontamente o casaco amarelo pela simples existência do casaco amarelo. Ele é um oportunista num sentido diferente do meu. Há uma diferença entre um cliente que consegue o que quer, tanto quanto lhe seja possível e aquele que consegue o que não quer porque isso lhe é possível.

Em outras palavras, há uma diferença entre conseguir o que se quer, sob certas condições e permitir que as condições lhe digam o que você pode conseguir, ou mesmo o que você quer. No entanto, é possível passar pela vida sendo controlado pelas circunstâncias dessa forma. Se minha quadra de tênis for inundada, posso, claro, transformá-la num lago ornamental. Ou posso me dar o trabalho de drenar o campo e protegê-lo contra inundações, permanecendo fiel ao ideal abstrato e dogmático de uma quadra de grama. Se uma árvore cai sobre minha casa e faz um buraco no teto, posso transformar o buraco numa clarabóia e a árvore numa saída de emergência. Mas se eu não quiser uma clarabóia e uma saída de emergência, estou sendo manipulado pela árvore. E isso é uma posição indigna para um homem.

É a posição indigna da maioria dos homens modernos. Eles são oportunistas, não só no sentido de conseguirem o que querem da forma mais prática, mas de tentarem querer a coisa mais prática; isto é, meramente a coisa mais fácil. Essa é a razão de eles não entenderem a base do idealismo cristão em muitas questões e especialmente na questão do sexo. Eles estão sempre sendo desviados pelas inundações e árvores caídas, especialmente aquela árvore do conhecimento que é o símbolo da queda e que certamente fez um buraco na casa, no sentido do lar. Mas a questão aqui é que essas pessoas constroem um novo plano ou propósito sexual depois de cada eventual novo acontecimento. Quando há mais mulheres do que homens, eles começam a falar sobre poligamia. Quando há mais crianças do que é conveniente para os indivíduos criarem com um salário decente, eles começam a falar de alguns truques que são um tipo de substituto para o infanticídio.

Ninguém pode entender a teoria do sexo cristã sem entender a idéia do homem ter um plano que ele deseja impor sobre as circunstâncias, ao invés de esperar pelas circunstâncias para então ver que plano ele vai ter. O cristão deseja criar as condições para que o casamento cristão seja possível e digno em si; não aceitar qualquer coisa possível nas mais indignas condições. Porque ele o quer e o que ele realmente é, consideraremos num momento; mas é necessário tornar claro de início que o casamento cristão não é algo que nos é sugerido pelas condições sociais do nosso entorno; é algo que nos é sugerido por Deus, pela nossa consciência comum e pelo sentido de honra da humanidade em geral. E isso é o que nosso pobre amigo quer dizer quando diz que nós não somos práticos; ele quer dizer que nós não estamos sempre consertando nossa casa e alterando nosso jardim para acolher em seu interior uma árvore caída ou uma tromba d’água.

Ele quer dizer que temos um plano para nossa casa e jardim e que estamos sempre tentando restaurá-los e reconstruí-los de acordo com o plano. Não propomos rasgar o plano original e seguir uma seqüência de acidentes; até que a casa seja enterrada sob árvores caídas e os campos sejam inundados e todo o trabalho do homem seja levado pela enxurrada. Isso é o que ele entende por nossa impraticabilidade, e ele está certo.

Descrito em termos humanos, o plano é substancialmente este. Que o amor que faz a juventude bela, e é a fonte natural de tanta canção e romance, tem por objetivo final um ato de criação, a fundação da família. Ao mesmo tempo em que é um ato criativo, como o de um artista, é também um ato coletivo, como o de uma pequena comunidade. É, talvez, o único trabalho artístico em que a colaboração é um sucesso e mesmo uma necessidade. É preciso de dois para começar uma briga, especialmente uma briga de amantes. Precisa-se também de dois para estabelecer um acordo de amantes segundo o qual seu amor deve ser colocado acima da briga. Mas, por definição, o acordo dos dois não é simplesmente concernente aos dois; mas, num sentido terrível, a outros. A fundação de uma família, como todo ato criativo, é uma responsabilidade tremenda. Em outras palavras, a fundação de uma família significa a alimentação de uma família, o treinamento, o ensinamento e a proteção de uma família. É o trabalho de uma vida inteira, e muitos casamentos têm uma vida muito curta. Sua continuidade é garantida, não por “leis matrimoniais” que nossas modernas plutocracias podem criar ao seu bel-prazer, mas por um voto voluntário ou invocação a Deus feita pelas duas partes, que eles vão se ajudar nesse trabalho até a morte. Para aqueles que acreditam em Deus e também acreditam no significado das palavras, isso é final e irrevogável.

Esse ato criativo é em si um ato livre. Esse ato criativo, como todos os atos criativos, não envolve uma perda de liberdade. O homem que constrói uma casa não recupera aquele castelo que ele construiu e reconstruiu no ar quando ele estava planejando a casa. Nesse sentido, podemos dizer, se quisermos, que o homem que constrói uma casa, constrói uma prisão. Há algo de final em todo grande trabalho, mas é possível sentir nesse trabalho um tipo peculiar de finalidade. A paixão de um homem em sua juventude encontrou seu caminho verdadeiro e alcançou seu objetivo e, apesar do amor não precisar acabar, a busca por ele terminou.

Pelo teste desse objetivo e consecução, todas as coisas condenadas pela ética cristã se encaixa em seus vários níveis de erro. Prolongar a busca de uma forma sentimental, muito depois de ela ter qualquer relação com o trabalho real do homem é um erro em vários níveis; quase sempre isso não é mais que ridículo e indigno; turpe senilis amor. Permitir que a busca perambule de forma a destruir outros lares saudavelmente estabelecidos é, por essa definição, obviamente errado. Cultivar uma perversão mental que realmente remova o desejo por um ato frutífero é horrivelmente errado. Comprar um prazer estéril de uma classe estéril é errado. Manobrar cientificamente de forma a furtar o prazer sem assumir a responsabilidade pelo ato, é lógica e inerentemente errado. É como andar por aí com uma medalha sem ter ido à guerra.

Nós acreditamos, sem uma sombra de dúvida e hesitação, que onde as condições se aproximam desse ideal, a humanidade é mais feliz. Assim, o nascimento da paixão é usado com um menor grau de destruição. Assim, a morte da Paixão é aceita com um menor grau de desilusão. Um trabalho construtivo da idade adulta segue naturalmente o trabalho criativo da juventude; à paixão é dada uma extraordinária oportunidade de se perpetuar como afeição, e a vida do homem é tornada plena. Há nela tragédias, como há igualmente tragédias fora dela. Não podemos livrar a vida de tragédias sem livrá-la da liberdade. Não podemos controlar a atitude emocional dos outros nem numa condição de anarquia sexual, nem nas condições de lealdade doméstica. O amor é realmente excessivamente livre para os propósitos dos amantes livres. Mas onde os homens são treinados pela tradição a considerar esse processo normal, e a não esperar por nada diferente, há muito menos probabilidade de trágicos relacionamentos do que no amor chamado livre. Se observamos a literatura real do amor irresponsável, encontraremos um contínuo e dolorido lamento sobre falsas amantes e torturantes casos amorosos.

Em resumo, nós não acreditamos, de forma alguma, na grande felicidade prometida à humanidade pela dissolução de lealdades de uma vida toda; não sentimos o menor respeito pela retórica sentimental e grosseira com que isso nos é recomendado. Mas o resultado prático de nossa convicção e de nossa confiança é este: que quando as pessoas nos dizem – “Seu sistema não é muito inadequado para o mundo moderno,” respondemos – “Se isso é verdade, as coisas parecem bem podres no pobre e antigo mundo moderno.” Quando eles dizem – “Seu ideal de casamento pode ser um ideal, mas não pode ser uma realidade, ” dizemos – “é um ideal numa sociedade doente, é uma realidade numa sociedade saudável. Pois, onde ele é real, ele faz a sociedade saudável.” Não dizemos perfeitamente saudável, pois acreditamos em outras coisas além do casamento; como, por exemplo, na Queda do Homem. Mas a questão é que queremos o que é prático, no sentido de que queremos fazer algo, criar famílias cristãs. Mas eles só querem o que é prático, no sentido do que é mais fácil no momento.

Assim, de acordo com a teoria geral do casamento, a paixão é purificada por sua própria frutificação, quando esta frutificação é o seu dignificante e decente objetivo final. Em poucas palavras, podemos dizer que substituiríamos a meia-verdade do “amor pelo amor”, por uma verdade superior do “amor pela vida”. O amor é sujeito à leis porque é sujeito à vida. É verdade, não só metafisicamente, nem mesmo simplesmente num sentido místico, mas num sentido material, que podemos ter vida e que a podemos ter mais abundantemente. Isso não quer dizer, claro, que o amor não tenha seu próprio valor espiritual, quando honoráveis acidentes o impedem de ser frutífero. Mas isso não significa que, em geral, possamos julgar os amores dos homens por outra metáfora mística que é também um fato material e por seus frutos os conheceremos.

Tal princípio é, ou era até recentemente, compartilhado por todos os que se dizem cristãos. Há um apêndice a este princípio que é professado por todos os que se dizem católicos. É uma idéia mais mística; e talvez somente os católicos se esforçaram em defini-lo racional e filosoficamente. Não é verdade, contudo, que somente católicos já o sentiram. Os antigos pagãos já o sentiram sutilmente em suas visões de Atenas, Ártemis e das Virgens Vestais. Os agnósticos modernos o sentem debilmente em sua adoração pela inocência infantil – em Peter Pan ou no Child’s Garden of Verses. Essa idéia é a de que há, para alguns, uma felicidade ainda mais divina que a do divino sacramento do matrimônio. Este é um assunto muito especial e muito grande para ser tratado aqui; mas dois fatos deveras singulares devem, sobre ele, ser notados. Primeiramente, que os estados industriais modernos estão invocando o pesadelo da super-população, depois de terem, eles próprios destruído as irmandades monásticas que foram uma limitação voluntária e viril a esse pesadelo. Em outras palavras, eles estão, muito relutantemente, recorrendo ao controle de natalidade, depois de realmente suprimirem a prova de que os homens são capazes de auto-controle. Em segundo lugar, se tal abstenção fosse realmente exigida, essa tradição religiosa poderia dar a ela um entusiasmo positivo e poético, onde todas as outras fariam dela apenas uma mutilação negativa. Os católicos acreditam na razão e gostam de ver as coisas práticas provadas; e, atualmente, a necessidade não está provada; somente mencionada como se tivesse, como se comentassem a respeito de Darwin e Einstein. Mas, mesmo se ela estivesse provada, os católicos teriam uma resposta muito melhor do que a dos outros: as trombetas de São Francisco e São Domingos. E os bons protestantes irão finalmente concordar que a resposta é melhor do que a alternativa de um tipo de anarquia secreta e silenciosa, na qual os motivos são estreitos e os resultados nulos. E por este caminho, voltamos ao tema original do casamento ideal; e à verdade principal sobre ele. Uma coisa tão humana não irá, finalmente, desaparecer por entre acidentes de uma sociedade anormal. Essa sociedade nunca será capaz de julgar o casamento. O casamento julgará essa sociedade; e pode possivelmente condená-la.

Fonte

CHESTERTON. G. K. Religião e Sexo. Extraído originalmente da publicação The Chesterton Review. Tradução de Antonio Emilio Angueth de Araujo. Disponível em: www.chestertonbrasil.org Acesso em: 1 Maio 2011.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Pio IX e a Imaculada Conceição

Por: Plínio Corrêa de Oliveira.

Hoje é 8 de dezembro de 1965. Eu leio um documento do tempo do Papa Pio IX [agora bem-aventurado], de 8 de dezembro de 1854. É a Bula Ineffabilis Deus.

"A nossa boca está cheia de alegria e nossos lábios de exultação; e damos e daremos sempre as mais humildes e mais vivas ações de graça a Nosso Senhor Jesus Cristo por nos haver conseguido a graça singular de podermos – embora imerecedor – oferecer e decretar esta honra, esta glória e este louvor à Sua Santíssima Mãe. E depois reafirmamos a nossa mais confiante esperança na Beatíssima Virgem que, toda bela e Imaculada, esmagou a cabeça venenosa da crudelíssima serpente e trouxe a salvação ao mundo. Naquela que é a Glória dos profetas e dos apóstolos, Honra dos mártires, Alegria e Coroa de todos os santos, seguríssimo Refúgio, fidelíssimo Auxílio de todos os que estão em perigo; poderosíssima Mediadora e Reconciliadora de todo o mundo junto a Seu Filho Unigênito, fulgidíssima beleza e ornamento da Igreja e sua solidíssima defesa. Reafirmamos a nossa esperança naquela que sempre destruiu todas as heresias, salvou os povos fiéis de gravíssimos males de todos os gêneros e a nós mesmo tem livrado de tantos perigos que nos ameaçam.

Confiamos que Ela queira, com a Sua eficacíssima proteção, fazer com que nossa Santa Madre Igreja Católica, superando todas as dificuldades e desbaratando todos os erros, prospere e floresça cada dia mais, no meio de todos os povos e em todos os lugares(...)"

A importância do emprego de frases longas e do uso de superlativos

Este trecho, que creio causar um pouco de estranheza às gerações de hoje, é condenado pelo estilo literário comum por duas razões especiais: em primeiro lugar, frase muito longa e, em segundo lugar, superlativa.

Tenho a impressão que esse trecho se reduz a umas três frases. E o estilo de hoje gosta de frases curtas e com poucos superlativos. Entretanto, o mérito da frase longa consiste em relacionar uma série de pensamentos numa só sentença. E o mérito dos superlativos - quando são bem aplicados - é de quebrar os padrões comuns dentro dos quais nós nos movemos e de fazer entender que as realidades profundas são as realidades superlativas, aquelas para as quais a linguagem humana só encontra uma referência superlativa. Tudo aquilo que é invisível, tudo aquilo que é sobrenatural, tudo aquilo que, portanto, é imensamente maior do que a ordem visível na qual nós nos movemos, tudo isso é tão maior do que nós que a linguagem só se refere a isto em termos superlativos.

E se isto é verdade em relação a tudo quanto é invisível, é particularmente verdade em relação a Nossa Senhora que é a Rainha de todas as coisas visíveis e invisíveis, e que está acima de todo o visível e invisível. E que por causa disto, tendo acima de si apenas Deus, todos os superlativos estalam e não temos em nossa linguagem nenhuma referência, nenhum modo de exprimir adequadamente os predicados dEla. De maneira que, acumulando superlativos uns em cima dos outros, afirmamos a insuficiência de todos eles para dizer aquilo que deve ser dito. E aí, à maneira de ensaio, à maneira de artifício, de estratagema, nós conseguimos de algum modo dar a entender o que a nossa mente concebe a respeito da grandeza de Nossa Senhora.

Glória e privilégios de Nossa Senhora

[O Beato] Pio IX reúne uma série de idéias dentro dessas frases grandes. Porque são círculos cada uma dessas frases, uma espécie de diadema em que há toda uma série de jóias para ornar a coroa de Nossa Senhora. Ele dá algumas idéias sucessivas a propósito da Imaculada Conceição, fazendo-nos ver que enquanto concebida sem pecado original - e concebida sem o pecado original na previsão de ser Mãe de Deus -, Ela tem um cúmulo de glória de todas as ordens. E é isto que ele faz ver neste trecho. Os senhores acompanham o método do pensamento dele, lendo mais vagarosamente o texto.

Primeiro há uma ação de graças pelo fato de ele ter sido o escolhido, como Papa, para definir o dogma da Imaculada Conceição. Então diz: "nossa boca está alegre". Ele diz "está cheia, está repleta de alegria". Porque todo o texto é superlativo. E, realmente, não há boca humana que possa conter suficiente alegria pelo fato de ter sido a Imaculada Conceição definida, tanto mais na boca daquele homem que foi chamado a ser o Príncipe dos Pastores e sucessor de São Pedro!

Bem, e os lábios de Pio IX estão cheios do quê? De alegria! De uma super alegria: exultação. A boca está cheia de alegria e os lábios estão cheios de exultação. Quer dizer, uma alegria que sai da boca para fora, que inunda os lábios e que na flor dos lábios se transforma em exultação. Alegria por quê? Porque a Imaculada Conceição de Nossa Senhora foi definida, e porque ele foi o instrumento da definição.

Ele continua: "e damos e daremos sempre as mais humildes e as mais vivas ações de graças - a linguagem é sempre fácil: "damos e daremos as mais vivas ações de graças, as mais humildes", é tudo superlativo – a Nosso Senhor Jesus Cristo, por nos haver concedido a graça singular - não é uma graça qualquer, é uma graça singular, que não tem seu igual – de podermos, embora imerecedor, oferecer e decretar esta honra, esta glória e este louvor à Sua Santíssima Mãe".

O poder do Papado que pode definir um dogma

Os senhores vejam o que é a grandeza de um Papa, o que é a grandeza do pontificado romano, o que é o poder das Chaves. Nossa Senhora está acima de todos os Anjos, de todos os Santos. Ela está como que sentada em um trono ao lado de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois bem, um Papa, um simples homem vivo nesta terra pôde dizer isto: que ele ofereceu e decretou esta honra, esta glória e este louvor à Santíssima Mãe de Deus. Quer dizer, o poder das chaves lhe deu o meio de colocar um diadema na fronte daquela que está tão acima dele! Isto é o imenso poder do papado, as imensas atribuições do papado e a imensa grandeza do papado!

Esse é o primeiro pensamento. Agora vem outro pensamento.

Nossa Senhora por ser Imaculada e, enquanto Imaculada bela, esmagou a cabeça do demônio

"E depois reafirmamos a nossa mais confiante esperança na nossa Beatíssima Virgem, que toda bela e imaculada esmagou a cabeça venenosa da crudelíssima serpente, e trouxe a salvação do mundo". É a primeira parte da frase. A frase continua depois, mas o pensamento está muito claro!

Nossa Senhora - por ser Imaculada e enquanto Imaculada -, bela, esmagou a cabeça do demônio. Os senhores vêem que as idéias são inseparáveis. O Papa pensa na beleza de Nossa Senhora, no poder dela. Ele pensa imediatamente, por contraste, na hediondez do demônio, pensa no demônio enquanto esmagado por Ela. Quer dizer, Sua beleza não seria inteira, uma vez que há o demônio, a não ser que essa beleza fosse uma beleza triunfal, esmagadora sobre o demônio. O demônio é o escabelo necessário dos pés dela; uma vez que Ela é tão pura, uma vez que Ela é tão linda, não bastaria que todas as criaturas deste mundo e do Céu e do Purgatório A homenageassem. Mas era preciso que o inimigo estivesse quebrado aos pés dela. Então, a idéia completa da glória dela envolve logo a idéia do demônio babando, estraçalhado, humilhado, com o rosto no chão, porque Ela quis e porque foi Ela o instrumento de Deus para liquidá-lo. Isto faz parte da beleza dela.

Isto é muito, porque é mais uma manifestação da idéia de que o homem só apreende todo o fulgor da verdade, todo o fulgor da beleza e todo o fulgor do bem, quando é colocado em contraste com o erro, com o mal e com a feiúra. Isso numa imagem da Imaculada Conceição fica muito claro!

Sua intercessão pelo pecador arrependido

Bem, depois diz: "nisto nós confiamos nela". Então porque Ela é bela, imaculada, mas porque também esmaga o demônio. Se nós nos lembrássemos disso nas horas de tentação! Estamos tentados, o demônio está procurando nos levar para o mal, temos medo de fracassar, de pecar e, infelizmente - que Deus nos livre - digamos que algum tenha pecado. Nossa Senhora esmagou a cabeça do demônio e pode, portanto, arrancar qualquer pecador das garras do demônio, pode afastar qualquer alma tentada da influência, do império do demônio. Como isto é uma razão de confiança e como isto deve dar alento à nossa vida espiritual!

Primeiro: Nossa Senhora enquanto Imaculada, enquanto bela e imaculada, esmagou a cabeça do demônio.

Segundo: Ela enquanto Imaculada é a glória dos profetas e dos apóstolos, honra dos mártires, alegria e glória de todos santos. Quer dizer, Ela não só esmagou o demônio, mas é a alegria e a beleza do Céu.

Terceiro: Ela é o seguríssimo refúgio e fidelíssimo auxílio de todos os que estão em perigo. Os senhores estão vendo o que Ela é: não é o refúgio seguro, não é o auxílio fiel. É um refúgio seguríssimo, um auxílio fidelíssimo dos que estão em perigo. Que relação tem isso com a Imaculada Conceição? Nossa Senhora, que não teve esse perigo e que foi confirmada em graça desde o primeiro instante de seu ser, quanta pena terá dos filhos que Ela vê por esse mundo, sujeitos a todos esses riscos! Não há uma mãe católica verdadeira pelo mundo, que não tenha hoje em dia o coração nas mãos continuamente pelo medo do que pode suceder a seu filho. Ora, Nossa Senhora quanto melhor mede isso! Quanto melhor vê isso! Quanto mais - entre aspas - podemos dizer que Ela se "aflige" com a nossa situação, tanto mais certeza podemos ter de ser socorridos. Isto é o que está entendido aqui.

Ela é "poderosíssima mediadora e reconciliadora de todo o mundo junto a seu Filho Unigênito". Aqui vem um pensamento que não é mais dos indivíduos, mas da sociedade humana como tal, da humanidade inteira, dos Estados, das nações, da ordem pública que Ela reconcilia.

Sua proteção à Igreja e intercessão poderosa contra as heresias

"Fulgidíssima beleza e ornamento da Igreja e sua solidíssima defesa". Então, Ela é o terror dos demônios, a honra e a glória do Céu, a proteção dos homens e o ornamento da Igreja. Por que? Porque a Igreja é um paraíso, é uma prefigura do paraíso celeste e se Ela é a honra do paraíso celeste, tem que ser a honra da Igreja Católica também.

E continua: "reafirmamos a nossa esperança naquela que sempre destruiu todas as heresias. Todas, inclusive as que mais possam nos angustiar. Salvou os povos fiéis de gravíssimos males de todo gênero – inclusive dos males que mais possam nos alarmar, e a nós mesmos tem livrado de tantos perigos que nos ameaçam. Confiamos que Ela queira, com sua eficacíssima proteção, fazer com que nossa Santa Madre Igreja Católica, superando todas as dificuldades, inclusive as menos esperadas e mais tremendas". Depois: "esmagando todos os erros" - mesmo aqueles que incidentemente a gente pode conter num amplexo, como o que os jornais apresentavam hoje - , "prospere e floresça cada vez mais no meio de todos os povos e em todos os lugares".

Nossa Senhora, a conversão do mundo e o Reino de Maria

Esta afirmação do prosperar da Igreja no meio de todos os povos e em todos os lugares parece quase o antegozo do Reino de Maria.

O que nós devemos pedir a Nossa Senhora hoje? Tenho a impressão de que devemos dizer a Ela: venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no Céu. Nós devemos pedir a Ela que Seu Reino venha logo e que cesse este estado de coisas em que a vontade dEla não é feita na terra, em que os homens não cumprem mais Sua vontade, em que mesmo onde mais se poderia esperar que a vontade dEla fosse cumprida, esse cumprimento não existe. O reino dEla na terra é isso.

Fonte:

OLIVEIRA, Plínio Corrêa. [texto é uma adaptação de exposição verbal do falecido Prof. Plínio Corrêa de Oliveira]. Pio IX e a Imaculada Conceição. Disponível em: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_651208_Pio_IX_e_a_Imaculada_Conceicao.htm Acesso em: 17 Janeiro 2011.

sábado, 29 de janeiro de 2011

A Paz e o Papado

Por Gilbert Keith Chesterton.

Há um famoso ditado que a alguns parece falta de reverência, embora de fato seja um esteio de uma parte importante da religião: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-Lo.” Isso não é totalmente diferente de algumas das ousadas questões com que Santo Tomás de Aquino inicia sua grande defesa da fé. Alguns dos modernos críticos de sua fé, especialmente seus críticos protestantes, cometeram um erro divertido, por causa de sua ignorância do latim e do antigo uso da palavra DIVUS, e acusaram os católicos de descreverem o Papa como Deus. Os católicos, preciso dizer, estão tão próximos a chamar o Papa de Deus quanto de chamar um gafanhoto de Papa. Mas há um sentido em que eles realmente reconhecem uma correspondência eterna entre a posição do Rei dos Reis no universo e a do seu Vigário no mundo, como a correspondência entre uma coisa real e sua sombra; uma similaridade parecida com a similaridade imperfeita e defeituosa entre Deus e a imagem de Deus. E entre as coincidências dessa comparação pode ser colocado o caso deste epigrama. O mundo se encontrará mais e mais na posição em que mesmo os políticos e os homens práticos se pegarão dizendo: “Se o Papa não existisse, seria necessário inventá-lo.”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Palestra “Vencendo a indiferença” (Fulton Sheen).


Caro leitores indoco a vocês, os três videos abaixo. Trata-se de Palestra intitula “Vencendo a indiferença” que foi proferida pelo Facecido e grande Bispo americano John Fulton Sheen. Vale a pena vocês assistirem.





quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A era das Cruzadas

Por G.K. Chesterton

Um tanto por acaso, começou o último capítulo pelo nome de Santo Eduardo; calha muito bem a este começar pelo de São Jorge. Contam que sua primeira aparição como patrono do nosso povo deveu-se aos instantes rogos de Ricardo Coração de Leão, durante a campanha na Palestina; e isto, como veremos, veio muito a propósito para uma nova Inglaterra, que haveria de ter um novo santo. Os confessores sempre foram presença marcante na história inglesa, enquanto São Jorge – apesar de sua participação no martirológio romano – parece não fazer parte de história alguma. Se desejamos compreender a maior e mais nobre das revoluções humanas, só conseguiremos vislumbrá-la à condição de aceitar o paradoxo que representa o enorme progresso e esclarecimento de sua passagem da crônica para o romance.

Em qualquer recanto intelectual da modernidade, é possível deparar-se com uma passagem como esta, que acabei de ler num jornal de polêmicas: “Como muitas coisas boas, não é necessário que a salvação venha do exterior.” Apelidar um fato espiritual de externo, e não interno, é a principal e moderna forma de excomunhão. Mas se o objeto de estudo é medieval e não moderno, devemos incutir nessa rematada sensaboria a idéia diametralmente oposta. Havemos de conservar a atitude de homens que pensam que quase tudo o que há de bom vem do exterior – como as boas notícias. A imparcialidade neste caso não é o meu forte, confesso; e a citação que mostrei do jornal atingiu de cheio o que concebo quanto à essência da vida. Na minha cabeça, não acredito que os bebês atinjam a melhor forma física sugando o próprio dedo, nem que o homem atinja a melhor forma moral sugando a própria alma, negando a dependência em face de Deus e de outras coisas boas. Sustento que o agradecimento é a forma mais excelsa do pensamento, e a gratidão um portento de redobrada felicidade. Mas a fé na receptividade, e no respeito do que vem de fora, aqui só precisa ajudar-me a explicar aquilo que uma interpretação sobre o tempo presente deveria, em todo caso, explicar. Não há nada mais moderno em um alemão, ou mais alucinado, do que o sonho de encontrar um nome alemão para tudo; ele quer literalmente comer o idioma, ou melhor, morder a língua. E não havia nada mais razoável nem saudável do que os homens medievais condescendendo com nomes e símbolos oriundos do exterior de suas amadas fronteiras. Os monastérios não apenas acoitariam um estranho, mas quase chegariam a canonizá-lo. Um reles aventureiro como Bruce seria entronizado, como se fora realmente um cavaleiro andante, sobretudo por uma arrebatada e patriótica comunidade, caso ainda não tivessem um estrangeiro por santo patrono. Isto explica porque a multidão dos santos vinha da Irlanda, e porque São Patrício não era irlandês¹. Também explica porque, na medida em que os ingleses transformaram-se em nação, deixaram incontáveis santos saxões como que para trás, ignorando por assim dizer não só a santidade de Eduardo, mas o renome de Alfredo, e invocaram um herói quase mítico, que peleja no deserto oriental contra o monstro improvável.

Essas transição e símbolo significam as Cruzadas. Seu romantismo e crueza foram para a Inglaterra a primeira lição, cuja origem não é só exterior, mas remota. Como tudo que leva o nome cristão, a Inglaterra vicejou em terreno alheio, sem disso se pejar. Desde os caminhos de César até as igrejas de Lanfranco, sempre partiram em busca de Deus. Todavia as águias estão prestes a alçar vôo, cortejando o odor da carnificina – estão na busca do que é estranho, não se conformam mais com o só recebê-lo. Os ingleses deram o primeiro passo em direção à aventura, iniciando seu épico naval. A grandiosidade do movimento que varreu toda a Inglaterra e consigo o Ocidente alongaria demasiado o volume deste livro, mas ainda assim já seria melhor que embotá-la por aquele olhar distante e gélido, useiro e vezeiro em certos compêndios. O tratamento que dão a Ricardo Coração de Leão é prova irrefragável da inaptidão do método insular para as histórias populares. Contam a legenda de modo a imaginarmos que sua partida para as Cruzadas se assemelhasse à escapulida dum gazeteiro que se lançasse em direção ao mar. Na minha opinião, isto seria uma adorável ou perdoável travessura, não obstante estivesse mais para um venerável inglês dirigindo-se para a linha de frente. Era a cristandande como um só povo, e a linha de frente a sua Terra Sagrada. É verdade que Ricardo possuía um caráter aventureiro e até romântico, mas para quem nasceu soldado não era despropositado nem romântico fazer o de que era mais capaz. Mas o que aqui deslustra o argumento contra a história insular é a ausência da comparação com o continente. Neste caso seria suficiente atravessar o estreito de Dover para encontrar a falácia. Contemporâneo do francês Ricardo, Felipe Augusto era célebre por ser um estadista pouco afeito à pátria e receoso; não obstante, até ele foi às Cruzadas. E isso porque – é claro – as Cruzadas eram, para qualquer europeu consciencioso, o que havia de mais sublime em governança e acendrado em dedicação ao bem público.

Cerca de seiscentos anos depois que o cristianismo floresceu no oriente e seguiu rumo a oeste, ergueu-se praticamente naqueles mesmos territórios outra grande fé, assediando a mais antiga como uma gigantesca sombra. Igualmente à sombra, ela era a sua cópia e antípoda. Chamamo-la de islã, ou crença dos muçulmanos; talvez sua descrição mais exata seja a de ímpeto resultante do acúmulo de orientalismos, ou talvez do acúmulo de hebraísmos, que aos poucos a Igreja rejeitou, na medida em que se tornava mais européia, ou em que o cristianismo virava cristandade. Sua razão primordial foi o ódio aos ídolos, e neste aspecto a Encarnação era em si uma idolatria: a idéia do Deus feito carne e, mais tarde, a de Sua representação em madeira e pedra eram os alvos da perseguição. Um estudo das contendas que em segredo ardiam nas veredas das tórridas pradarias dos cristãos convertidos leva a crer que o fanatismo contra a arte ou a mitologia fora outrora resultado e reação daquelas mesmas conversões. Pertenciam eles a uma espécie de minoria hebraizante. Nestes termos o islã era algo como uma heresia cristã. As heresias primitivas estavam cheias de inversões e evasões da Encarnação, libertando Jesus da realidade do corpo, ainda que às expensas da sinceridade da alma. Precipitaram-se os gregos iconoclastas por sobre a Itália, destruindo estátuas famosas e acusando o Papa de idolatria, até que foram destroçados, em estilo não tão simbólico, pela espada do pai de Carlos Magno. O conjunto dessas negações frustradas incendiou o gênio de Maomé, e lançou a partir daquele território requeimado uma ofensiva de cavaleiros que quase conquistou o mundo. E se alguém sugerir que a observação sobre tais procedências orientais não passa por ser a história da Inglaterra, minha resposta é que esse livro, ai de mim!, talvez contenha muitas digressões, mas que isso não é uma digressão. Há de se ter sempre em mente que este Deus semita assombrou a cristandade como um fantasma; os europeus de toda parte devem lembrar-se disso, especialmente os da nossa parte. Se alguém duvida disso, leve-o para um passeio pelas igrejas paroquianas da Inglaterra num raio de treze milhas, e pergunte porque esta virgem de pedra está decapitada ou aquele vitral desaparecido. Logo saberá que não há muito, naquelas veredas e herdades, contivera-se o ímpeto que veio do deserto, e que o norte regelado da ilha estava tomado da fúria dos iconoclastas.

Existia nesta sublime porém sinistra simplicidade do islã um elemento que não conhecia fronteiras. Seu abrigo natural era o relento. Nascera na desolação arenosa entre os nômades, e em todo lugar se estabelecia, porque não vinha de lugar algum. Contudo nos sarracenos da Idade Média o caráter nômade do islã mascarava-se sob uma alta civilização, mais científica, não obstante menos criativa, que a coeva cristandade. O monoteísmo muçulmano era, ou parecia ser, uma religião mais racional, se comparada à cristã. Seu refinamento, sem compromisso com antecedentes, esmerava-se em especial nos conceitos abstratos, cuja memória o simples nome da álgebra celebra. Em comparação, a civilização cristã dava muito mais ensanchas à instintividade, mas seus instintos eram poderosíssimos e bem peculiares. Ela estava repleta de afeições locais, cuja expressão se deu no sistema de cercamentos, que se constituiu espécie de modelo para tudo quanto fosse medieval – desde a heráldica até o arrendamento de terras. Havia graça e colorido nestes costumes e estatutos pintados em todos aqueles tabardos e brazões, algo ao mesmo tempo austero e jovial. Não estamos nos distanciando do interesse das coisas exteriores, já que isto é parte dele. As cortesias que se poderiam amiúde dedicar ao estranho oriundo de além-muro era o reconhecimento do próprio muro. Os povos que levavam a vida em auto-suficiência não enxergavam os muros como um limite, mas como o fim do mundo. Chamavam os chineses ao homem branco de “rompedor dos céus”. O espírito medieval amava a sua parte na existência enquanto parte, e não enquanto todo, e este privilégio tem uma razão de ser. Existe uma piada sobre um monge beneditino que saudava com o usual Benedictus benedicat, ao qual rebateu triunfalmente um franciscano iletrado com um Franciscus Franciscat. Esta é uma como parábola da história medieval: se existisse um verbo Franciscare, haveria de ser a descrição próxima do que São Francisco faria mais tarde. Contudo esse misticismo mais individual era somente o prenúncio daquele que viria, ao passo que o Benedictus benedicat era o motto do medievalismo primevo. Quero dizer que toda a benção vem do além, e o que abençoa é por seu turno abençoado por algo que lhe vem do além – só o que é abençoado abençoa. Mas para se entender as Cruzadas, entenda-se que o além não era o infinito, como numa religião moderna. Todo além estava em algum lugar. O mistério da localização, e todo o seu significado para o coração humano, estava mais presente nas etéreas e profundas aspirações da cristandade do que ausente das atitudes mais práticas do islã. Teve a Inglaterra de tomar emprestado da França, e a França da Itália, e a Itália da Grécia, e a Grécia da Palestina, e a Palestina do Paraíso. Isto não significa apenas que o sitiante de Kent há de ter a casa abençoada por um padre da paróquia local, que por sua vez foi confirmado pelo bispo de Cantuária, que o foi por Roma. Roma não se venera a si, como nas eras pagãs. Roma olha em direção à leste para o misterioso berço da fé, para a terra que toda a terra chama de sagrada. Mas quando ela se voltava em direção à leste, deparava-se com o vulto de Mafoma, e via fincado no lugar que fora seu paraíso terrestre o gigante devorador egresso dos desertos, para quem todos os lugares eram idênticos.

Convém interromper o discurso sobre as motivações internas das Cruzadas, uma vez que o leitor inglês moderno praticamente desconhece os sentimentos que empolgavam seus pais; além disso o real motivo da disputa – que foi o batismo de fogo das jovens nações – entre cristandade e islã não se poderia de qualquer modo medir por um único critério. Não era algo simples como a disputa entre dois homens que queriam Jerusalém, mas antes a disputa letal entre um homem que a queria para si e outro que não sabia porque o primeiro a queria. Evidentemente o muçulmano tem seus próprios lugares sagrados, mas não os mesmos sentimentos que têm os ocidentais para com seus campos e moradias. Ele concebe a sacralidade enquanto sagrada, mas não os lugares enquanto lugar. A austeridade que lhes proíbe imagens, a guerra peregrina que lhes proíbe descanso desliga-os de tudo que rebenta e aflora num patriotismo local como o nosso; foi precisamente o que deu aos turcos um império, sem contudo dar-lhes uma nação.

Deste modo, a aventura contra o inimigo poderoso e misterioso foi causa de grandes transformações na Inglaterra, assim como nas demais nações que se desenvolviam a par com ela. Em primeiro lugar, aprendemos muito com tudo que o sarraceno fez. Em segundo lugar, aprendemos muito mais ainda com tudo que o sarraceno não fez. Felizmente fomos capazes de imitá-los quando havia algo de bom que ignorávamos, mas quando havia algo de bom que eles ignoravam, fomos duma dureza adamantina ao desafiá-los. Talvez digam que os cristãos não soubessem quão acertado era seu caminho até que fossem à guerra contra os muçulmanos. De imediato a reação mais óbvia e representativa foi a produção do que há de melhor na chamada arte cristã, com destaque para os grotescos da arquitetura gótica, que não só parecem vivos mas ameaçadores. Na certa a atmosfera e o magnetismo impessoal do oriente estimularam a imaginação ocidental, mas estimularam no sentido de recusar os preceitos muçulmanos, e não de acatá-los. Era como se impelissem os cristãos a desenharem, como caricaturistas, rostos nos ornamentos sem rosto, cabeças nas serpentes sem cabeça, pássaros nas árvores sem vida. A proibição do inimigo estimulou e deu vida à estatuária como se fora uma benção. A imagem, só porque se chamava ídolo, tornou-se não apenas insígnia mas arma. Erigiram uma grande milícia de pedra em todos os nichos e estradas da Europa. Os iconoclastas mais fizeram que destruíram estátuas.

O lugar de Coração de Leão na fábula e maledicência populares tem mais afinidades com seu lugar na verdadeira história que aquele que lhe impinge nossos livros escolares utilitaristas, de mero irresponsável e apátrida. Certamente o rumor popular está quase sempre mais próximo da verdade histórica que a hodierna opinião “educada”; por tradição, é mais verdadeiro que a moda. Como típico Cruzado, o rei Ricardo ao granjear a gloria no oriente foi mais decisivo para a Inglaterra do que se tivesse se dedicado conscientemente à política doméstica, a exemplo do rei João. O fracasso do seu gênio e prestígio militares deu a Inglaterra algo com que se ocupar por uma centena de anos, e sem o quê tornaria incompreensível neste período a reputação de ser ela a vanguarda da cavalaria. Os grandes romances da Távola Redonda, a associação entre a cavalaria e o nome do rei bretão, pertencem a este período. Não foi Ricardo apenas cavaleiro, mas trovador. Cultura e cortesia ligaram-se à idéia da bravura inglesa. O inglês medieval sempre se orgulhou de ser educado, que ao menos é melhor do que se orgulhar de dinheiro ou de falta de modos – nestes últimos séculos, infelizmente, um senso comum entre os ingleses.

Dever-se-ia apelidar a cavalaria de o batismo do feudalismo. Ela foi uma tentativa de levar a justiça e mesmo a lógica da crença católica para o sistema militar então existente, transformando-lhe a disciplina em iniciação e as desigualdades em hierarquia. Pertence à relativa graça do novo período aquele notável culto à dignidade da mulher, com que amiúde a palavra “cavalaria” se confunde, ou talvez exalte. Isto também foi uma revolta contra um dos piores deslizes da polidíssima civilização sarracena. Quase sempre os muçulmanos negavam alma às mulheres; talvez o sentimento se originasse no mesmo instinto que derivou da divina conceição a inevitável glorificação da mãe; talvez ainda porque, como tivessem mais tendas que casas, possuíssem mais escravas que esposas. Falso é dizer que a visão cavalheiresca da mulher não passava de emulação, exceto no sentido de que há sempre emulação onde há um ideal. Não passa de superficialidade da pior casta não enxergar o potencial dum sentimento dominante só porque os fatos sempre o contrariam: a própria Cruzada por exemplo era mais presente e poderosa nos sonhos que na realidade. Desde o primeiro plantageneta até o derradeiro lancastriano, este sonho obsedou a imaginação dos reis ingleses, erguendo como pano de fundo de suas batalhas a miragem da Palestina. Deste modo aquela devoção de Eduardo I à sua rainha era um motivo bem plausível nas vidas duma multidão de seus contemporâneos. Quando a turba dos iluminados turistas, preparados para espirrar de alergia às superstições do continente, adquire os bilhetes e etiqueta as bagagens na ampla estação de trem da parte mais elegante de Strand, ou eles despedem-se das esposas com cortesia e fluência maiores que as de seus pais na época de Eduardo, ou param para meditar na legenda dum esposo sofredor, encontradiça até no topônimo de Charing Cross² - uma coisa ou outra, não sei qual.

Mas é um tremendo erro histórico considerar que as Cruzadas interessam apenas à nata da sociedade, para quem a heraldica era arte e a cavalaria etiqueta. A Primeira Cruzada foi sobretudo um unânime levante popular, muito mais do que aquilo que alguns chamam de revoltas e revoluções. As guildas, o grande regime democrático da época, sempre se valeu de seu crescente poder para engrossar as fileiras da causa da Cruz, mas isto é assunto para mais tarde. Muitas vezes não era apenas uma leva de homens, mas um comboio de famílias inteiras, como novos ciganos movendo-se em direção ao oriente. Tornou-se proverbial as crianças que de própria iniciativa planejavam cruzadas como hoje em dia planejam charadas. Talvez se encararmos as Cruzadas como se fossem feitas por crianças contemplemos melhor o fato. Encontravam-se as Cruzadas repletas de tudo o que o mundo moderno confere só às crianças, uma vez que o aniquilou totalmente nos homens. Como os mais rudes vestígios de sua arte mais tosca, suas vidas estavam cheias daquele algo mais que enxergávamos através da janela da creche. Pode-se ver melhor este algo mais, por exemplo, nos interiores de Memling coalhados de rótulas e grades, mas ele é onipresente na arte mais antiga e inconsciente da época, que domesticava terras distantes e traçava horizontes em casa. Os recantos das casinholas faziam as vezes dos precipícios do mundo e das franjas do céu. Consideram-na uma perspectiva rude e alucinada, mas é uma perspectiva; não era como a insipidez decorativa do orientalismo. Numa palavra, seu mundo, como o da criança, está cheio de rascunhos, na tentativa de descobrir o atalho para o país das fadas. Seus mapas eram mais instigantes que suas pinturas. Seus animais meio fantásticos são monstros, e ainda assim bichinhos de estimação. É impossível traduzir em palavras esta atmosfera pujante, pois constituía-se tanto em atmosfera quanto em aventura. Justamente tais visões alienígenas foram as que se tornaram habituais a todos; em comparação os reais concílios e querelas feudais já não eram tão próximos. A Terra Sagrada estava muito mais perto da casa do homem comum que de Westminster, e incomensuravelmente mais perto que de Runymede. Fornecer a lista dos parlamentos e reis ingleses, sem abrir um parêntese a este prodigioso momento de transfiguração religiosa na vida quotidiana, é a inversão da religião e dos séculos, qual uma interpretação moderníssima que convencesse, com dificuldades, um fanático pelo assunto. É como se um escritor clericalista ou realista desse a lista dos arcebispos de Paris de 1750 a 1850, comentando que um morreu de sarampo, outro de velhice, aqueloutro num curioso acidente por decapitação, e ao longo de todo o relatório nunca mencionasse a natureza, ou mesmo o nome, da Revolução Francesa.

1.Santo padroeiro da Irlanda [N. da P.].

2.Região londrina a sudeste da Praça de Trafalgar. O nome tem origem nas últimas doze cruzes construídas por Eduardo I, em 1290, para assinalar o trajeto funerário de sua mulher, Eleonora de Castela, de Nottinghamshire até a Abadia de Westminster. [N. da P.]

Fonte:

CHESTERTON. G.K. A era das cruzadas. Chesterton Brasil. [ extraído do capítulo 6 do livro A Short History of England, título original The Age of the Crusades, publicado em Londres, 1917]. Disponível em: http://chestertonbrasil.blogspot.com/search/label/A%20era%20das%20Cruzadas Acesso em: 13 Janeiro 2010.