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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Breves considerações sobre o ateísmo

A existência de Deus não é um dado apenas da fé, pois Ele é cognoscível naturalmente, ou seja, sua existência pode ser verificada por meio de provas racionais. Dessa forma, como explicar que haja ateus? Será verdade que existem? E, se existem, quais são as causas e conseqüências do ateísmo?

Ateu é o que não crê na existência de Deus.

Desta definição se vê que não devemos incluir no número dos ateus:

a) Os indiferentes, que põem de parte o problema da origem do mundo e da alma, e vivem sem preocupações acerca de seu destino. Ainda que esta disposição de espírito conduza ao ateísmo, os indiferentes não são ateus propriamente ditos.

b) Os agnósticos, para os quais Deus pertence ao domínio do incognoscível. Esta atitude equivale a um cepticismo religioso.

c) Muito menos devem ser tidos por ateus aqueles que ignoram quase por completo a religião e professam exteriormente o ateísmo, porque julgam essa atitude própria dos espíritos fortes, ou porque têm interesse de seguir a corrente do favoritismo oficial.

Portanto, devemos somente considerar como ateus os homens de ciência e os filósofos que, depois de ponderar maduramente as razões, pró e contra, da existência de Deus, optam pela negativa. Embora pouco numerosos proporcionalmente, os ateus têm um número crescente e geralmente atuam em conjunto com agnósticos.

As causas do ateísmo podem ser intelectuais, morais e sociais.

Causas intelectuais

a) A incredulidade dos homens de ciência, deve atribuir-se ordinariamente a preconceitos e ao emprego de um método falso. É evidente que nunca poderão ultrapassar os fenômenos e atingir as substâncias, se nesta matéria empregam o método experimental, que só admite o que pode ser objeto da experiência e ser observado pelos sentidos. Notemos ainda que algumas fórmulas, por eles usadas, não são verdadeiras, pelo menos no sentido em que tomam. Por exemplo, quando alegam que a matéria é necessária e não contingente, invocam para o demonstrar a necessidade da energia e das leis. Ora, é bem claro que a palavra necessária neste caso é equívoca. A necessidade pode ser absoluta ou relativa. É absoluta, quando a não-existência encerra contradição; relativa quando a coisa em questão, na hipótese de existir, deve possuir tal ou tal essência, esta ou aquela qualidade, por exemplo: uma ave deve ter asas, sem elas já não seria ave.Como a energia e as leis são necessárias somente no sentido relativo, os materialistas erram em concluir que a matéria é o “Ser necessário no sentido absoluto”.

b) O ateísmo dos filósofos contemporâneos tem a sua origem no criticismo de Kant e no positivismo de Conte. Segundo os criticistas e os positivistas, a razão não pode chegar à certeza objetiva, nem conhecer as substâncias que se ocultam sob os fenômenos. Diminuindo assim o valor da razão, rejeitam todos os argumentos tradicionais da existência de Deus. Pode pois dizer-se que a crise de fé, na maioria dos filósofos contemporâneos, é de fato uma crise da razão. Mas há de acontecer a esta o que acontece aos que estão injustamente detidos: será um dia reabilitada e retomará os seus direitos.

Causas morais

a) A falta de boa vontade. Se as provas da existência de Deus se estudassem com mais sinceridade e menos espírito de crítica, não haveria tanta resistência à força dos argumentos. Também não se deve exigir dos argumentos mais do que eles podem dar: é evidente que a sua força demonstrativa, ainda que real e absoluta, não nos pode dar evidência matemática.

b) As paixões. A fé é um obstáculo para as paixões. Ora, quando alguma coisa nos incomoda, encontramos sempre motivos para nos afastar. “Há sempre no coração apaixonado, motivos secretos para julgar falso o que é verdadeiro...facilmente se crê o que muito se deseja; e quando o coração se entrega à sedução do prazer, o espírito abraça voluntariamente o erro que lhe dá razão” (Frayssinous, Defense du christianisme. L´ incrédulité dês jeunes gens). P. Bourget (Essai de psychologie contemporaine), refletindo sobre a realidade francesa, numa análise penetrante que faz da incredulidade, escreve as seguintes linhas: “O homem quando abandona a fé, desprende-se, sobretudo, duma cadeia insuportável aos seus prazeres...Nenhum daqueles, que estudaram nos nossos liceus e universidades, ousará negar que a impiedade precoce dos livres pensadores de capa e batina começou por alguma fraqueza da carne, seguida do horror de a confessar. Acode imediatamente a razão a aduzir argumentos (!!!) em defesa duma tese de negação, que já antes admitira por causa das necessidades da vida prática”.

c) Os veículos de comunicação. Não aludimos aos que são claramente imorais, mas aos que atacam disfarçadamente e continuamente os fundamentos da moralidade e, em nome de um pretendido progresso e de uma suposta ciência, querem fazer-nos crer que Deus, a alma e a liberdade são apenas palavras a encobrir quimeras.

Causas sociais

a) A educação. Não é exagero dizer que as escolas neutras são um terreno excepcionalmente próprio para a cultura do ateísmo. A sociedade hodierna em geral caminha para o ateísmo, porque assim o quer.

b) O respeito humano. Muitos têm medo de parecer crentes porque a religião já não é estimada em certos círculos influentes e temem cair no ridículo.

Conseqüências do ateísmo

O ateísmo, pelo fato de negar a existência de Deus, destrói radicalmente o fundamento da moral e dá origem às mais funestas conseqüências para o indivíduo e para a sociedade.

Para o indivíduo:

a) O ateu deixa-se arrastar pelas paixões. Se não há Deus, se não existe um Senhor Supremo, que possa impor a prática do bem e castigar o mal, porque razão não se hão de satisfazer todos os apetites e correr atrás da felicidade terrena, por todos os meios que estiverem ao alcance de cada um?

b) Além disso, o ateísmo priva o homem de toda a consolação, tão necessária nos reveses da vida.

Para a sociedade:

As conseqüências do ateísmo são ainda mais prejudiciais à sociedade. Suprimindo as idéias de justiça e de responsabilidade, o ateísmo leva os Estados ao despotismo e à anarquia, e o direito é substituído pela força. Se os governantes não vêem acima de si um Senhor que lhes pedirá contas da sua administração, governarão a sociedade segundo os seus caprichos. Mais ainda, os homens, na realidade, não são todos iguais nas honras, nas riquezas, nas situações e nas dignidades. Ora, se não existe um Deus para recompensar um dia os mais deserdados da fortuna, que cumprem animosamente o seu dever e aceitam com resignação as provas da vida, porque não haveriam de se revoltar contra um mundo e uma sociedade injusta e reclamar para si, a todo custo, o seu quinhão de felicidade e prazer?

Nota:

*Texto de Thiago Santo de Moraes

Bibliografia:

BOULANGER. Manual de Apologética.

Fonte:

sábado, 27 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem? (III parte)


Por: Eduardo Moreira¹ e Mariana Prado Borges².

Considerações sobre o evolucionismo

Quase na redação do quarto artigo da série “Por que Deus se fez homem?” cabe, talvez de forma tardia, dizer algumas palavras as quais certamente responderão perguntas já feitas pelos leitores em suas mentes. Quem vos escreve é um cientista, não um filósofo ou teólogo, que dista em muito das áreas biológicas, mas que sabe um mínimo acerca do evolucionismo darwiniano. Todavia, esse mesmo cientista possui contatos que lhe são capazes de assegurar que seu pronunciamento sobre essa teoria é verdadeiro. Tomando, pois, o mínimo conhecimento e a opinião de uma bióloga, Mariana Prado Borges, fica livre o autor para tecer alguns comentários acerca dessa teoria.

Distam-se quase nove séculos desde a redação da obra de Santo Anselmo a partir da qual foram feitos os raciocínios da série de artigos na qual esse se encontra. Todavia, embora antiga, a obra de Santo Anselmo parece atual e não é a ignorância do Santo Sábio Doutor da Igreja (que existe por razões óbvias) acerca do evolucionismo que tira dela os méritos e a profundidade do raciocínio que se lhe tem. Essa obra é pautada no raciocínio filosófico, dentro das limitações científicas da era chamada “medieval”.

Entretanto, é bom alertar ao leitor sobre certos equívocos e injustiças que se têm cometido em nome da assim chamada Teoria da Evolução. Muitos já são os cientistas céticos dessa teoria, que traz consigo verdades e dúvidas. O Gênesis não é, pois, um livro científico. A Igreja subsidiou pesquisas acerca do Big Bang, as quais foram desenvolvidas primordialmente por um padre jesuíta, Georges Lemaître, e a Igreja sabe perfeitamente que o universo não foi criado em sete dias como afirma Livro Sagrado. Esse, por sua vez, não trata de questões científicas e no que tange a criação, o próprio Santo Anselmo já afirma que os dias da Criação não são os nossos dias. Logo, os sete dias da criação não passam de uma poesia, uma narrativa belíssima da criação do mundo que atesta a maior verdade de todos os séculos: O universo foi criado e desejado por Deus.

No que diz respeito à teoria da evolução, o Papa Pio XII em 1938 escreveu uma encíclica chamada “Humani Generis”, a qual pode ser encontrada no sítio oficial do Vaticano e onde ele dá total liberdade dos fiéis em estudarem o evolucionismo monogenista. Não há, assim (e o mesmo Papa já disse isso na citada encíclica), qualquer liberdade para crer no poligenismo, que não é nem sustentado pela Ciência que revela através de análises do DNA mitocondrial que somos sim descendentes de uma só mulher (Teoria da Eva Mitocondrial).

Até então, entretanto, o ponto de vista oficial da Igreja é o criacionismo, muito embora seja dado aos fiéis o livre arbítrio para estudar e até crer no evolucionismo, não esquecendo, é claro, de que o homem é a obra prima de Deus, criada racional para conhecer o certo e o errado e assim amar ao Criador. Logo, não importando o caminho, o homem foi querido e criado por Deus. Assim como no passado a Igreja Católica (e as comunidades protestantes) sustentaram o geocentrismo até se ter uma prova concreta do heliocentrismo, hoje o catolicismo defende o criacionismo.

É bom dizer que a ciência não é “maldita”, posto que o Papa Beato João Paulo II disse que a ciência pode purificar a religião dos equívocos e das superstições e ele mesmo elogiou em certo pronunciamento público a teoria de Darwin, dizendo que é possível conciliá-la com a Teologia. Logo, aqueles que quiserem ler os artigos da série “Por que Deus se fez homem?” à luz do evolucionismo e/ou do criacionismo têm toda a liberdade para tal.

Para finalizar esse “parêntese” da série, deixo que a teoria da evolução também não tem todo crédito que certos cientistas pretendem que ela tenha. É uma questão de justiça dizer que essa teoria não pôde ainda ser reproduzida em laboratórios e que enfrenta diversas perguntas ainda sem respostas. Não se sabe, por exemplo, por que uma célula evolui quando na verdade todos seus mecanismos celulares são para preservar a estrutura do DNA impedindo que haja mudanças nele, mudanças essas necessárias para a evolução.

A evolução orgânica da matéria, todavia, é praticamente inquestionável. O que não é ainda inquestionável é se essa evolução é capaz de causar mudanças brutais nas espécies. Na opinião de quem vos escreve, o evolucionismo é uma hipótese (e não uma teoria), ainda não comprovada, mas que merece e deve ser estudada a fim de subsidiar o conhecimento do homem para bem servi-lo. Em nada essa teoria retira a Onipotência Divina, pelo contrário, só a revela ainda mais, assim como revela a capacidade do homem de compreender a natureza, criada por Deus tendo o homem como obra prima.

Notas:

Eduardo Moreira¹: Bacharel e licenciado em Química pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em físico-química (eletroquímica ambiental) e doutorando em Química Quântica Avançada pela Universidade de São Paulo (USP).

Mariana Prado Borges²: Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), mestre em Ecologia Vegetal e Conservação de Recursos Naturais pela mesma universidade.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem? (II parte)


Por: Eduardo Moreira.


O que é o pecado e como ele deve ser perdoado:

Num primeiro artigo foi exposto o porquê de Deus ter redimido o homem através do sacrifício do Homem-Deus. Nesse artigo abordar-se-á o tema do pecado quanto à sua natureza e como ele deve ser perdoado à luz da misericórdia Divina. Esse artigo parte para um campo apologético, haja vista que há no mundo atual uma mentalidade antropoteísta deveras pueril que diz que se Deus é misericórdia ele deve perdoar os pecados por pura bondade. Partimos, pois, do pressuposto que Deus existe, como demonstrado de forma bastante clara e diria incontestável através das cinco vias de Santo Tomás de Aquino.

Santo Anselmo define que o pecado é nada mais nada menos que não render à Deus o culto que Lhe é devido. Esse culto é uma dívida perpétua do homem, uma expressão de gratidão por sua criação. Em outro artigo tratar-se-á da criação do homem, isto é, do porquê de sua criação e se ele foi sempre desejado nos planos divinos.

Devemos sumariamente saber que Deus é amor e é bondade. O homem deve, pois, render a Deus a gratidão pela criação, ou seja, pelo dom da existência. Logo, homens e anjos não pecariam se rendessem a Deus o que Lhe devem e de forma análoga, o pecado é o ato do homem não render a Deus o que se Lhe deve.

Dessa maneira, homens e anjos têm uma dívida de gratidão para com Deus por ocasião de sua existência contingente. Como a existência humana e angelical uma vez criada existe perpetuamente, homens e anjos devem perpetuamente gratidão a quem lhes deu a existência, que no caso é Deus. Portanto, o culto é a retidão da vontade, à qual devemos à Deus e é só o que Ele requer de nós. Aquele que não rende à Deus essa honra que Lhe é devida O desonra, pois rouba Sua posse e isto é precisa e exatamente o pecado. Além disso, quem não repara esse débito permanece na culpa.

Quem permanece na culpa por ter desonrado à Deus não só deve pagar o valor do roubo da honra, mas também algo mais, uma pena devido ao desprezo oferecido e à má inclinação do homem ao cometer o absurdo de ofender e desonrar a infinita bondade de Deus que é infinito. É conveniente pensar nisso como se fosse alguém que retira a saúde de um trabalhador impedindo-o de trabalhar. Ora, não é justo que esse alguém pague apenas pelo reparo salutar, mas que pague, outrossim, pelo tempo de trabalho ao qual ficou o trabalhador impossibilitado de trabalhar. Dessa forma quem peca deve devolver à Deus a honra que Lhe roubou.

Há, após essa explicação, quem certamente objetará que Deus deve perdoar o pecador por simples misericórdia. Esses são os mesmos que fazem a terrível e danosa confusão entre amor e fraqueza. Dizem eles que quem ama não castiga ou pior, dizem que Deus é injusto se castigar e que Ele sendo capaz de tudo pode perdoar não só por misericórdia infinita como também pela onipotência Divina. Acontece que Santo Anselmo através da Filosofia Escolástica prova que pelo castigo Divino não há injustiça e tampouco clivagem da onipotência de Deus.

Da maneira como exposto no texto até o presente, perdoar consiste em punir. Ora, se não é justo cancelar o pecado sem punição, perdoar o pecado por pura misericórdia é agir contra a justiça e retidão. Logo, se o pecado não é punido há desordem, como quando uma criança que rouba um doce, percebendo a facilidade e a impunidade do ato torna a roubar. Como o Reino de Deus é perfeito, não convém que nenhuma desordem adentre n’Ele e assim é justo e salutar que Deus puna quem O desonra.

Foi mostrado, pois, que o pecado deve ser remido pela punição, mas não ainda não está claro o seguinte item: Por que o pecado deve ser punido para que haja justiça? Ora, se Deus usa Sua onipotência para perdoar um pecado por pura misericórdia e não pela punição, o pecado e a desordem estão mais à vontade que a justiça e a ordem. A conclusão fatal é que o pecador e o não pecador teriam méritos iguais perante o Pai, o que seria o mesmo que dizer que o pecado é igual à justiça. Como pode ser notado, seria absurdo dizer isso de Deus, senão deveras injusto dizer que Deus não difere a justiça da injustiça.

Para melhor entendimento, deve-se considerar que a justiça dos homens está submetida à lei de forma tal que a justiça Divina está submetida também à uma lei. Em maior ou menor magnitude a justiça dos homens se assemelha à justiça de Deus. Logo, se o pecado não é punido, tampouco está submetido à lei de Deus, o que leva a crer que o pecado está mais a vontade que a justiça e isso é ilógico. Dizer que o pecado pode ser perdoado apenas pela misericórdia é dizer automaticamente que o pecado é similar a Deus, que não está submetido à nenhuma lei, pois sendo Deus plenamente perfeito, Ele não é submisso a nada, afinal, só deve haver submissão de algo menos perfeito à algo mais perfeito. Se dizemos assim que o pecado não está submetido à lei de Deus, dizemos que o pecado é tão perfeito quanto Deus, o que é absolutamente intolerável.

Há ainda quem possa lançar alguma objeção dizendo que se Deus nos obriga a perdoar os pecados contra nós cometidos Ele é injusto para conosco, pois nos sobrecarrega com um fardo tão pesado que Ele mesmo não carrega. Acontece, pois, que não cabe ao homem vingar-se dos pecados cometidos contra ele, pois isso caracteriza vingança e ódio, o que é desordem. Cabe, assim, às autoridades, legítimas vingadoras da lei que fazem da lei objeto para manter no mundo a ordem natural, o dever de vingar os crimes. Devemos entender que quando as autoridades cumprem a justiça é o próprio Deus que o quer e que cumpre a lei através do poder que é certamente dado do alto quando cumpre o bem.

Constitui, pois, um abuso intolerável não dar a Deus a honra que se Lhe deve como, outrossim, constitui uma injustiça intolerável que Deus suporte esse abuso intolerável. Se assim não há nada maior ou melhor que Deus, não há nada mais justo que a suprema justiça que mantém a honra de Deus na disposição das causas, o que não é outra coisa senão o próprio Deus. Logo, não há nada mais justo do que Deus conservar sua honra e sua dignidade pelo bem da própria disposição universal.

Não devemos, entretanto, pensar que Deus perde sua honra, pois ou o pecador devolve espontaneamente ou pela força o que retirou de Deus. Se o homem devolve espontaneamente a honra de Deus ele devolve a si próprio a ordem natural do universo na qual constitui a felicidade para a qual o homem foi criado. Se doutra forma o homem não devolve a honra que ao Pai pertence, a infelicidade é o salário do pecado, pois sendo o homem criado para a felicidade não seria jamais infeliz se não tivesse pecado. A própria infelicidade já tira por si só do homem o que pertence a ele para que haja a restituição da honra Divina.

A honra de Deus em si não pode, todavia, ser retirada, pois assim como uma operação matemática não pode alterar em nada o módulo do algarismo infinito, uma ação humana é desprezível ainda que com esforço para retirar algo da honra de Deus que é infinita, imutável e, portanto, incorruptível. O homem não pode com o culto de forma idêntica prover nada na honra Divina, que já é perfeita. Isso não escusa, ao contrário, só agrava a atitude do homem em tentar desonrar a Deus, afinal, não Lhe dando a honra que Lhe é devida, desonra a beleza e a disposição do universo na qual foi criado o homem, mas de modo algum ofusca ou prejudica a honra e a dignidade de Deus. O homem prejudica só a beleza da criatura-universo através da ruptura da disposição natural, o que tange indiretamente em desonrar a Deus que tudo criou.

Não adianta assim o homem tentar fugir da submissão natural, pois está confinado na criação e de sua conduta depende a beleza daquela. Tentar ir contra a disposição natural de Deus é agir dentro do que criou Deus de forma não natural, o que implica dizer que se o homem não honra a Deus pela manutenção da ordem criada, o desonra automaticamente, ainda que em nada ofusque a perfeição Divina que está fora do mundo e que é independente dela. Portanto, o pecado do homem verte-se não contra Deus diretamente, mas contra o próprio homem, cabendo a Deus fazer justiça contra os que prejudicam o todo pelo pecado. É dessa forma que existe o pecado e é assim que o pecado agride a honra divina, não sendo, pois, Sua própria honra que é infinita, mas a honra da criação naturalmente boa e criada por Deus.

sábado, 13 de agosto de 2011

Por que Deus se fez homem?


Por Eduardo Moreira.

Que não é justo o homem se livrar do pecado pelo sacrifício de qualquer ente que não o próprio homem. Os opositores da fé católica dizem que Deus foi injusto ao matar seu próprio Filho para salvar a humanidade. Santo Anselmo de Cantuária em sua obra “Por que Deus se fez homem?” já desmascarou esse argumento. Nosso objetivo com o texto abaixo é pensar com um olhar atual para as reflexões da Filosofia Escolástica de Santo Anselmo a fim de esclarecer melhor o motivo que levou Deus a se tornar homem por amor ao homem.

Crê e ensina o Cristianismo que Deus criou o homem. A narração de Gênesis diz que o homem estava só e isso pode ser entendido como que o homem é um ser a parte, diferente dos demais. Nenhum animal é igual ao homem e nem é tão perfeito. A política de tratar o homem como mais um animal é uma falácia, pois se o homem é igual aos demais animais, não poderíamos ter edificado universidades, hospitais e outras benfeitorias sociais, haja vista que nenhum animal senão o homem fez tamanha proeza.

Ao contrário do que as pessoas insistem em ensinar, o homem é um animal diferente, dotado de raciocínio. Isso não é o único adjetivo que difere o homem dos demais animais, pois o homem possui de forma racional o livre arbítrio, podendo escolher racionalmente entre o bem e o mal. Além disso, o homem possui uma característica que nenhum outro animal possui, a capacidade de conhecer e amar a Deus.

Partindo do raciocínio acima, sabemos que o homem é dotado de vontade e dotado do livre arbítrio racional. Com a origem do homem, é lógico que ele tinha a capacidade de optar pelo bem ou pelo mal. O homem é criado à imagem e semelhança de Deus para substituir os anjos caídos que traíram a Deus, completando a obra bendita.

Entretanto, o homem glorioso, criado para viver junto de Deus, dotado de alma e dotado de vida imortal cai em sua desgraça pelo pecado. Iludido pelo demônio, o homem cai numa tragédia, porque tendo a opção de escolher entre o bem e o mal, comete o mesmo pecado dos anjos ao querer ser igual a Deus.

Deus então, cheio de amor e compaixão qual Pai que jamais esquece do filho, faz uma aliança com seu povo e promete um dia a restauração de sua natureza gloriosa através de uma nova e eterna aliança, o sacrifício do próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, que sacrificando-se inseriria os homens em seu corpo. Mortos para o pecado, os homens como Cristo, os homens presentes no Corpo de Jesus se tornariam algo superior aos anjos, filhos de Deus. Muitas pessoas objetam essa aliança dizendo que é impróprio de Deus, pura bondade, exigir o sacrifício de seu amado e único filho, Deus de Deus para restaurar a humanidade.

Acontece que o homem em sua origem foi quem pecou. Sendo que o homem pecou, ele escolheu o mal e se tornou escravo do pecado. O pecado passa de geração em geração como se fosse um mal hereditário. Isso tanto é verdade que se é possível perceber a corrupção em todo ser humano, por mais santo que seja. Dessa maneira, só o sacrifício de um homem sem mancha pode livrar a mancha do homem.

Assim sendo, alguém pode dizer que Deus não precisaria se encarnar para salvar a humanidade, pois isso poderia ser feito gerando um homem sem mancha, capaz de suportar a culpa do pecado. Todavia, se Deus fizesse isso ele não poderia livrar o homem do pecado, pois criaria de um pecador um não-pecador e isso é impossível, pois conforme já vimos o pecado é transmitido. Doutra forma, criar um homem não pecador de um pecador usando a onipotência divina seria injusto, pois se o homem tornou-se escravo do pecado não é justo que Deus liberte apenas um homem do pecado para salvar a humanidade, haja vista que se o homem caiu por livre e espontânea vontade e por livre e espontânea vontade deveria se livrar de sua queda.

O homem libertador deve ser, portanto, livre do pecado desde o início até o fim, mas também não pode ser um anjo. Se um anjo se encarnasse seu sacrifício não livraria o homem do pecado, pois o homem foi a criatura que pecou e não os anjos. O homem libertador deve ser obrigatoriamente livre do pecado e, principalmente, deve ter valor infinito, pois o pecado é uma ofensa infinita a Deus, conforme mostrar-se-á em outro artigo.

Só Deus é infinito e assim sendo, o homem libertador deve ser ao mesmo tempo Deus e homem, que por livre e espontânea vontade queira libertar a humanidade como homem, sem deixar de ser Deus, infinito. Logo, não se trata de meio homem e meio Deus, um híbrido. Se trata de pleno homem e pleno Deus. Só esse homem-Deus, sacrificado na cruz, é capaz de libertar a humanidade.

Se as naturezas de Cristo são separadas, então o sacrifício crucial foi limitado, finito, e por isso não serve para livrar o homem do pecado, pois a divindade infinita não morre nunca e se as naturezas humana e divina são separadas, quem morreu na cruz foi um homem. Isso mostra que o Deus-homem deve ser homem e Deus em tudo. Assim, a divindade se fez homem em tudo, até na morte e morrendo sacrificou-se de forma infinita livrando o homem da pena infinita e da escravidão perpétua do pecado. Logo, para satisfazer a libertação do homem o ente libertador deve obrigatoriamente ser Deus.

Há ainda outro motivo que leva o sacrifício a ser o sacrifício de um Deus-homem. Mesmo o Deus-homem nascendo para ser puro, Ele poderia ser contaminado com a mancha do pecado enquanto homem. Nesse caso, o homem-Deus poderia não ser gerado, pois em Deus não pode haver pecado e se houvesse pecado no homem-Deus, esse sequer poderia existir. Logo, o Deus-homem deve ser puro desde a concepção, livre do pecado. O sacrifício deveria livrar a progenitora do Deus-homem do pecado para que esse não contaminasse o ente libertador. Só mesmo um sacrifício atemporal poderia livrar Maria do pecado original antes do sacrifício ocorrer no tempo.

Pelos argumentos acima apresentados, nota-se que a libertação do homem só pôde ser feita pelo homem e ao mesmo tempo por Deus. Assim sendo, o ente libertador deve ser plenamente Deus e plenamente homem. Dessa maneira, vemos que o sacrifício de Cristo não foi uma injustiça, mas sim a justiça e a misericórdia infinita de Deus.

OBS: Este é o primeiro artigo, logo vira a segunda parte em outro artigo.