terça-feira, 31 de maio de 2011

O canto litúrgico medieval no contexto cultural

Os hinos litúrgicos caracterizam-se pela estranha magia da língua: vogais longas, com preferencia pelos ditongos; determinadas combinações de sons; recitativos monótonos; a melodia do verso encontra-se “abaixo do limiar dos conceitos intelectuais”, como se as palavras fossem feitas para acomodar-se a um ritmo já preexistente, à inaudível harmonia das esferas. Essa magia linguística é que exprime as angústias apocalípticas e júbilos angélicos do “homo cluniacensis”. Pela magia linguística, o hino representa, em forma adequada, certos sentimentos religiosos – a “majestas tremenda”, o “amor mystic” – que são, por si mesmos, inefáveis: os sentimentos “numinosos”. Esse traço característico é comum aos hinos de todas as religiões em certa fase da sua evolução: ressoam hinos assim nos templos budistas e nas sinagogas. O hino litúrgico em língua latina distingue-se pelo fato de conservar a capacidade de exprimir conteúdos dogmáticos de maneira muito precisa. Naqueles hinos marianos, porem, o ritmo prejudica o conteúdo, transformando o dogma mariano em substrato de uma poesia quase erótica; as censuras não são determinadas pela lógica da frase, e sim pela música do verso; um elemento musical, a rima, rompe o equilíbrio métrico; os símbolos, que pretendem representar o dogma, tornam-se independentes.

O grande poeta dessa fase é Adam de St. Victor. Grande poeta exatamente porque o valor da sua poesia reside mais nas qualidades literárias do que nas qualidades litúrgicas. O poeta do “Salve, mater salvatoris” e do “Ave, virgo singularis” um criador de símbolos: inventou ou popularizou um conjunto impressionante de metáforas mariológicas. Desde Adam de St. Victor, toda a gente entende imediatamente o

“Rosa mystica,
Turris Davidica,
Turris ebúrnea,
Domus aurea,
Foederis arca,
Juana coeli,
Stella matutina.”

Adam de St. Victor moveu esses símbolos por meio de uma arte extraordinária do verso, de troqueus de sete ou oito silabas, fortemente ritmadas e suavemente rimadas. Arte quase parnasiana, que devia acabar, nos seus imitadores, em rotina.

O hino salvou-se pela influência do grande movimento religioso que de deu ímpeto inédito aos sentimentos numinosos do franciscanismo. Mas a última palavra coube à solidificação do sentimento: a volta ao conteúdo dogmático sem o qual o hino da Igreja perderia a sua significação especial. Por isso, o maior teólogo dogmático da Igreja romana também é o seu maior poeta litúrgico: Tomás de Aquino. Os seus poucos hinos – “Pange, lingua, gloriosi“ e “Lauda, Sion, Salvatorem” – reúnem duas qualidades que raramente se encontram na poesia lírica: a maior precisão e maior musicalidade. Seria possível comentar esses hinos como se fossem tratados teológicos sobre a eucaristia; ao mesmo tempo, versos como

“Tantum ergo sacramentum
Veneremur cernui:
Et antiquum documentuum
Novo cedat ritui:
Praestet fides supplementum
Sensuum defectui...”

ficam indelevelmente na memória, o que é um dos critérios mais seguros da grande poesia.



Esta última fase da hinografia latina tem, outra vez, importância mais do que literária. A Igreja romana não adotou o “credo ut intelligam”, algo fideísta, de santo Anselmo, mas tomou como base do seu dogma a filosofia aristotélica. Também não foi aos discípulos entusiasmados de são Francisco, e sim aos filhos eruditos de são Domingos, que coube a tarefa de construir a catedral da escolástica. Quando ficou pronto o edifício, que o “homo liturgicus” de Cluny começara, era um sistema filosófico e uma instituição jurídica.


Otto Maria Carpeaux
História da Literatura Ocidental, p. II, cap. I

sábado, 28 de maio de 2011

Padre Paulo Ricardo fala sobre as imagens e o culto aos santos e sua intercessão

Caríssim(a)s leitor(e)s posto por aqui dois bons vídeos do grande Pe. Paulo Ricardo, os vídeos abordam sobre temáticas sempre atuais. Dentre as argumentações podemos aniquilar nossas dúvidas [estas são muito comuns entre os fieis católicos de pouca formação] e são os temas mais manipulados pelos protestantes.



terça-feira, 24 de maio de 2011

Ritus Romanus et Ritus Modernus: Existiu alguma reforma litúrgica antes de Paulo VI?

No artigo “Quatrocentos anos de Missa Tridentina”, publicado em diversas revistas religiosas, o professor Rennings se aplicou a apresentar o novo missal, ou seja, o Ritus Modernus, como derivação natural e legítima da liturgia romana. Segundo o dito professor, não teria existido uma Missa de São Pio V se não unicamente por cento e trinta e quatro anos, ou seja, de 1570 a 1704, ano no qual apareceu sob as modificações desejadas pelo Romano Pontífice de então. Continuando com tal modo de proceder, Paulo VI, segundo Rennings, teria por sua vez reformado o Missale romanum para permitir aos fiéis entrever algo mais da inconcebível grandeza do dom que o Senhor fez à sua Igreja na Eucaristia.

Em seu artigo, Rennings habilmente se aferrou a um ponto fraco dos tradicionalistas: a expressão Missa Tridentina ou Missa de São Pio V. Propriamente falando uma Missa Tridentina ou de São Pio V nunca existiu, já que, seguindo as instâncias do Concílio de Trento, não foi formado um Novus Ordo Missae, dado que o Missale sancti Pii V não é mais que o Missal da Cúria Romana, que foi se formando em Roma muitos séculos antes, e difundido especialmente pelos franciscanos em numerosas regiões do Ocidente. As modificações efetuadas em sua época por São Pio V são tão pequenas, que são perceptíveis tão somente pelos olhos dos especialistas.

Agora, um dos expedientes a que recorre Rennings, consiste em confundir o Ordo Missae com o Proprium das missas dos diferentes dias e das diferentes festas. Os Papas, até Paulo VI, não modificaram o Ordo Missae, mesmo introduzindo novos próprios para novas festas, o que não destrói a chamada Missa Tridentina mais do que os acréscimos ao Código Civil destroem o mesmo. Portanto, deixando de lado a expressão imprópria de Missa Tridentina, falamos melhor de um Ritus Romanus.

O rito romano remonta em suas partes mais importantes pelo menos ao século V, e mais precisamente ao Papa São Dâmaso (366-384). O Canon Missae, com exceção de alguns retoques efetuados por São Gregório I (590-604), alcançou com São Gelásio I (492-496) a forma que conservou até há pouco. A única coisa sobre a qual os Romanos Pontífices não cessaram de insistir do século V em diante, foi a importância para todos de adotar o Canon Missae Romanae, dado que dito cânon remonta nada menos que ao próprio Apóstolo Pedro.

Respeitaram o uso das Igrejas locais mais para o que diz respeito às outras partes do Ordo, como para o Proprium das várias Missas. Até São Gregório Magno (590-604) não existiu um missal oficial com o Proprium das várias Missas do ano. O Liber Sacramentorum foi redigido por encargo de São Gregório no princípio de seu pontificado, para serviço e uso das Stationes que tinham lugar em Roma, ou seja, para a liturgia pontifical. São Gregório não teve nenhuma intenção de impor o Proprium do dito missal a todas as Igrejas do Ocidente. Se posteriormente o dito missal se converteu no próprio esboço do Missale Romanum de São Pio V, deve-se a uma série de fatores dos quais não podemos tratar agora.

É interessante notar que, quando se interrogou a São Bonifácio (672-754), que se encontrava em Roma, a respeito de algum detalhe litúrgico, como o uso dos sinais da cruz a serem feitos durante o cânon, este não se referiu ao sacramentário de São Gregório, mas àquele que estava em uso entre os Anglo-saxões, cujo cânon estava totalmente de acordo com aquele da Igreja de Roma…

Na Idade Média, as dioceses e as igrejas que não tinham adotado espontaneamente o Missal em uso em Roma, usavam um próprio e por isto nenhum Papa manifestou surpresa ou desgosto… Mas quando a defesa contra o protestantismo tornou necessário um Concílio, o Concílio de Trento encarregou o Papa de publicar um missal corrigido e uniforme para todos. Agora, pois, com a melhor vontade do mundo, eu não chego a encontrar em tal deliberação do Concílio o ecumenismo que Rennings vê. O que fez São Pio V? Como já dissemos, tomou o missal em uso em Roma e em tantos outros lugares, deu-lhe retoques, especialmente reduzindo o número das festas dos Santos que continha. Ele o tornou obrigatório para toda a Igreja? De modo algum! Respeitou até as tradições locais que pudessem se gloriar de ter, pelo menos, duzentos anos de idade. Assim, propriamente: era suficiente que o missal estivesse em uso, pelo menos, há duzentos anos, para que pudesse permanecer em uso ao lado e no lugar daquele publicado por São Pio V. O fato de que o Missale Romanum tenha se difundido tão rapidamente e

tenha sido espontaneamente adotado também em dioceses que tinham o próprio mais que bicentenário, deve-se a outras causas; não, por certo, a pressão exercida sobre elas por Roma. Roma não exerceu sobre elas nenhuma pressão, e isto numa época em que, bem diferente do que acontece hoje, não se falava de pluralismo, nem de tolerância.

O primeiro Papa que ousou inovar o Missal tradicional foi Pio XII, quando modificou a liturgia da Semana Santa. Seja-nos permitido observar, a respeito, que nada impedia de restabelecer a Missa do Sábado Santo no curso da noite de Páscoa, ainda que sem modificar o rito. João XXIII o seguiu por este caminho, retocando as rubricas. Mas nem um nem o outro, ousaram inovar sobre o Ordo Missae, que continuou invariável. Porém a porta tinha sido aberta, e por ela cruzaram aqueles que queriam uma substituição radical da liturgia tradicional e que a obtiveram. Nós, que tínhamos assistido com espanto a esta resolução, contemplamos agora aos nossos pés as ruínas, não da Missa Tridentina, mas da antiga e tradicional Missa Romana, que foi se aperfeiçoando através do curso dos séculos até alcançar sua maturidade. Não era perfeita a ponto de não ser ulteriormente mais aperfeiçoada, mas para adaptá-la ao homem de hoje não havia necessidade de substituí-la: bastavam alguns pequeníssimos retoques, deixando a salvo e imutável todo o resto.

Mas ao contrário, quiseram suprimi-la e substituí-la com uma liturgia nova, preparada com precipitação e, diremos, artificialmente: com o Ritus Modernus. Ó, como se vê aparecer de modo sempre mais claro e alarmante o oculto fundo teológico desta reforma! Sim, era fácil obter uma mais ativa participação dos fiéis nos santos mistérios, segundo as disposições conciliares, sem necessidade de transformar o rito tradicional.

Porém a meta dos reformadores não era obter a mencionada maior participação ativa dos fiéis, mas fabricar um rito que interpretasse sua nova teologia, aquela mesma que está na base dos novos catecismos escolares. Já se vêem agora as conseqüências desastrosas que não se revelarão plenamente até que passem uns cinqüenta anos.

Para chegar aos seus objetivos, os progressistas souberam explorar mui habilmente a obediência às prescrições romanas dos sacerdotes e dos féis mais dóceis… A fidelidade e o respeito devido ao Pai da Cristandade não chegam ao ponto de exigir uma aceitação despojada do devido sentido crítico de todas as novidades introduzidas em nome do Papa.

A fidelidade à Fé, antes de tudo! Agora, a Fé, parece-me que se encontra em perigo com a nova liturgia, ainda que não me atreva a declarar inválida a Missa celebrada segundo o Ritus Modernus.

É possível que vejamos a Cúria Romana e certos bispos – aqueles mesmos que nos querem obrigar, com suas ameaças, a adotar o Ritus Modernus –, descuidar de seu próprio dever específico de defensores da Fé, permitindo certos professores de teologia a enterrar os dogmas mais fundamentais de nossa Fé e aos discípulos dos mesmos propagar ditas opiniões heréticas em periódicos, livros e catecismos?

O Ritus Romanus permanece como o último rochedo no meio da tempestade. Os inovadores sabem muito bem disso. Daqui parte seu ódio furioso contra o Ritus Romanus, que combatem sob o pretexto de combater uma nunca existida Missa Tridentina. Conservar o Ritus Romanus não é uma questão de estética: é, para nossa Santa Fé, questão de vida ou morte. Logo tornaremos ao assunto.

Monsenhor Klaus Gamber – A reforma da liturgia Romana (tradução de Luis Augusto Rodrigues Domingues)

Disponível para Download em:

domingo, 22 de maio de 2011

Linguagem e Epistemologia em São Tomás de Aquino

Nas últimas semanas, o Apostolado São Clemente Romano recebeu uma cópia digital do livro Linguagem e Epistemologia em Tomás de Aquino, cuja organização foi realizada pelo filósofo Ivanaldo Santos, professor da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte.

O livro apresenta uma pequena coleção de artigos dos principais pesquisadores brasileiros em São Tomás de Aquino, como os professores Paulo Faitanin, da UFF, e Jean Lauand, da USP.

Como o próprio título do livro informa, o foco do trabalho é na linguagem e na epistemologia do Doutor Angélico, temas bastante correntes da atualidade, segundo a introdução da obra.

E é com grande satisfação e com as devidas permissões do organizador que estamos disponibilizando essa obra para nossos leitores aqui no site.

Esperamos que aproveitem a leitura e discutam conosco cada capítulo na comunidade do blog no orkut.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Padre Paulo Ricardo fala sobre a Ira boa.

Por. Eduardo Moreira.

A Igreja Católica defendeu ao longo dos anos que há a Ira como pecado e a Ira como dom de Deus. Sim, a Ira é um dom de Deus e o pecado está em usá-la para coisas ruins. Assim, o Pe. Paulo Ricardo explica o que é a Ira boa e o que é a Ira enquanto pecado capital. Essa palestra é uma resposta postada pelo Apostolado SCR em resposta às hostilidades que alguns pseudo-cristãos relativistas têm nos enviado em uma tentativa de falar que não podemos ficar irados contra os hereges que atacam a verdadeira e única fé. Para esses, que pensam estar apoiados na doutrina da Igreja, deixo algumas frases dos santos padres (padres primitivos) que provam de forma cabal que não devemos ter tolerância e nem devemos ser coniventes com as heresias, o que é bem diferente de odiar o pecador. Devemos odiar as heresias, mas não os hereges. Devemos sim orar por eles e admoestar para que vivam plenamente em Cristo e vida plena em Cristo só existe na Igreja Católica.

"Não combater o erro é corroborar com ele. Não defender a verdade é suprimí-la" - Papa São Félix.

"Eis por que se devem escutar os presbíteros que estão na igreja, que são os sucessores dos apóstolos, como o demonstramos, e que com a sucessão no episcopado receberam o carisma seguro da verdade segundo o beneplácito do Pai. Quanto a todos os que se separam da sucessão principal e em qualquer lugar que se reúnam devem ser vistos com desconfiança, como hereges e de má fé, como cismáticos cheios de orgulho e de suficiência, ou ainda, como hipócritas que fazem isso à procura de lucro ou vanglória. Todos eles se afastaram da verdade e os hereges que oferecem sobre o altar de Deus um fogo estranho, isto é, doutrinas estranhas, serão queimados pelo fogo celeste como Nadab e Abiú. Os que se insurgem contra a verdade e excitam os outros contra a Igreja de Deus, tragados pelos abismos da terra, terão sua morada nos infernos de Coré, Datã, Abiram e todos os que estavam com eles. Os que rompem e dividem a unidade da Igreja receberão de Deus o mesmo castigo de Jeroboão." (S. Ireneu de Lião, Adversus Haereses, IV Livro, 26,2).

"Muitos hereges, que em nome de Cristo seduzem as almas, padecem tais coisas [perseguiçoes], mas são excluídos da recompensa; porque não disse simplesmente: Bem aventurados os que sofrem perseguição,mas se acrescentou: por amor da justiça; e onde não há fé integral não pode haver justiça,porque o justo viverá na sua fé (Habac II,4; Rom., 1,17). Tampouco esperem receber esta recompensa os cismáticos; porque onde não há caridade não pode haver justiça, uma vez que o amor do próximo não faz o mal (Rom., XIII,10), e porque, se tivessem eles este amor, não lacerariam o Corpo de Cristo, que é a Igreja(Col. I, 24). (S. Agostinho, Sobre o Sermão do Senhor na montanha, I,V, 13).

"Não é seguidor de Cristo aquele que não é chamado cristão segundo a fé verdadeira e o ensinamento católico" (S. Agostinho, Sobre o Sermão do Senhor na montanha, I,V, 13)

“Basta responder que nunca poupei os heréticos e que empreguei todo meu zelo para fazer dos inimigos da Igreja meus inimigos pessoais.” (S. Jerônimo, Dial. c. Pelag., Prolg., 2; PG 23, 519B).

 
video

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Novos cruzados e a suscitação de Deus entre os leigos pelo bem da Igreja: Resistam bravos, resistam!

O novo pentecostes é agora! Essa afirmação choca? Certamente, mas é a verdade. Os hereges tentaram destruir a Igreja bombardeando por fora através das três Revoluções e por dentro, através do modernismo e da Teologia da Libertação. Só se esqueceram de uma coisa. Não é contra os Papas, contra os Santos, contra os leigos que estão lutando, mas sim contra Deus. É Deus que quer a Igreja na terra, não são os homens. Se dependesse desses, a Igreja teria sido exterminada ainda nos tempos apostólicos. Quantas vezes não fomos atribulados? Quantas vezes não pensamos: Estamos liquidados? Todavia, a mão caridosa de Deus e seu olhar bondoso nos castigou pelos nossos erros, que foram muitos, mas nunca se separou de nós, sua Nação Santa, o povo da Nova Aliança comprado com o Sangue do Cordeiro.

Certa vez comentava indignado com um amigo: Como pode haver tanto erro entre o clero? Gente que deveria ensinar a doutrina e troca essa por marxismos e por outros erros abertamente condenados pela fé que eles dizem professar? Meu amigo então me disse que na época da Revolução Francesa, Napoleão falou a um cardeal que enfim destruiria a Igreja. O Cardeal então riu-se e disse que nem eles, estando a tanto tempo tentando fazer isso por dentro haviam conseguido, quem dirá então um imperador que agiria por fora. É óbvio que muitos cardeais, espero que a maioria, são a favor da Verdadeira Fé, mas é sabido que sempre houve aqueles que só fizeram mal. De fato, os piores inimigos da Igreja são os lobos disfarçados de cordeiros, são membros do clero que deveriam ensinar a doutrina, mas acabam fazendo alianças com o protestantismo, com o marxismo, com o modernismo e com tudo o que não condiz com nossa fé.

Por um momento quando aderi ao catolicismo sem reservas, pensei que os inimigos só estavam de fora, mas hoje vejo que não. Aliás, os inimigos externos são o menor dos problemas. Poucos são os católicos que ainda querem a ortodoxia e a doutrina da Igreja, mas esses poucos têm se multiplicado e parece que os grãos de mostarda têm aumentado de tal forma que futuramente talvez tomem todo o ambiente católico. Fiquei muito feliz ao ver uma jovem que chegou à cidade de São Carlos com o hábito de usar o véu. Várias jovens passaram a usar o véu na Missa por causa do testemunho dessa irmã. Muito me alegra também ver um irmão de fé que antes atacava a Igreja e que graças à apologética caridosa tem se tornado um fiel cada vez mais ortodoxo e convicto. Esse é o Espírito Santo que acende em nós o fogo dos primeiros séculos do cristianismo, ressuscitando em nós a fé cristã de forma ortodoxa e de acordo com os ensinamentos pios, outrora quase mortos.

Pensei que tudo isso era fruto do trabalho árduo de certa associação ultraconservadora que milita na internet, mas hoje vejo que não. É o próprio Espírito Santo que, vendo o estado de calamidade em que estamos vivendo, tomou providências e suscitou nos leigos de todo o mundo o brado de quem quer a doutrina ortodoxa da Igreja de sempre. Enfim os frutos do Concílio Vaticano II estão aparecendo.

Esse Concílio quis abrir as portas da Igreja para os leigos. Os modernistas e os demais hereges viram nele então um prato cheio. Passaram a ensinar suas heterodoxias e incumbiram os leigos de as propagarem. Com o tempo, devido à grande evasão de fiéis, nós que queríamos permanecer firmes tomamos a postura de estudar para combater as heresias, evitando assim que o rebanho se perdesse. Em resumo, o clero ortodoxo e os leigos estão com a tarefa árdua de resgatar nossa fé, de novamente suscitar na Igreja o Espírito radical de bravura da cavalaria, dos fiéis que dão a vida pela Igreja e por amor a Deus. O amor é assim, radical, sem limites e é imitando a Cristo, que amou-nos a ponto de dar a vida por nós, que agimos assim.

Todavia, o trabalho é árduo, a missão é longa e o resgate da fé custará muito caro. Agora que os modernistas pensam que venceram, eles farão de tudo para destruir os poucos ortodoxos que restaram. Não me espantarei se vir excomunhões injustamente postas, provas plantadas e várias perseguições. Isso é natural, pois assim como o mundo odiou a Cristo, ele nos odeia e o espírito do mundo tem governado a Igreja em várias comunidades. Precisamos de você. Precisamos de mais fiéis que queiram ouvir a doutrina e que queiram ser radicais na santidade e a santidade plena só existe na ortodoxia. Não há amor sem exigência, não há exigência sem compromisso e não há compromisso se não houver a fé autêntica, ensinada pela Sagrada Escritura, pela Sagrada Tradição e guiada pelo Sagrado Magistério. Que ao fim de nossas vidas possamos nos reunir sem uma só perda nos céus e que em nosso julgamento possamos dizer a Deus, combatemos o bom combate, alvejamos nossas vestes no sangue do Cordeiro. Juntem-se a nós todos os que amam nossa Igreja e sua causa. Resistam, bravos, resistam!

Ad majorem Dei gloriam!
Equipe do Apostolado São Clemente Romano

sábado, 14 de maio de 2011

Provas da existência de Deus em São Tomás de Aquino


Pequeno texto contendo síntese sobre as provas da existência de Deus segundo o grande escolástico e doutor da Igreja São Tomás de Aquino. É um bom texto, em anexo também um vídeo explicativo, sugiro aos leitores ambos. Como estou ocupado por esses dias e me deparei através de meu twitter oficial com o assunto que já conhecia, é proveitoso aos visitantes deste site tomarem também conhecimento dos sólidos argumentos de Tomás.




I – Prova do movimento


Todas as coisas existentes estão passiveis de mudança, porem elas não podem mudar por si próprias, um objetos pode ter seu estado “frio”, e permanecerá assim até que algo com o estado “quente” o aqueça, como o fogo.

Ou seja, para que algo adquira uma qualidade ou perfeição, é preciso a existência de outro para que o mude

Tudo o que muda é mudado por outro.

Tudo o que se move é movido por outro.

É preciso então a existem de algo/alguém que tenha em si todas as qualidades e perfeições, e que a partir dele se desenvolveu todas as mudanças, a esse 1º motor que deu origem a todos os movimentos e mudanças, nós chamamos de Deus

II – Prova da causalidade eficiente

Toda causa é anterior a seu efeito. Para uma coisa ser causa de si mesma teria de ser anterior a si mesma. Por isso neste mundo sensível, não há coisa alguma que seja causa de si mesma. Além disso, vemos que há no mundo uma ordem determinada de causas eficientes.

A primeira causa, as intermediárias e estas causam a última.

Por conseguinte, a série de causas eficientes tem que ser definida. Existe então uma causa primeira que tudo causou e que não foi causada.

Deus é a causa das causas não causada. Esta prova foi descoberta por Sócrates que morreu dizendo: “Causa das causas, tem pena de mim”. A negação da Causa primeira leva à ciência materialista a contradizer a si mesma, pois ela concede que tudo tem causa, mas nega que haja uma causa do universo.

III – Prova da contingência

Na natureza, há coisas que podem existir ou não existir. Os entes que têm possibilidade de existir ou de não existir são chamados de entes contingentes. Neles, a existência é distinta da sua essência, assim o ato é distinto da potência. Ora, entes que têm a possibilidade de não existir, de não ser, houve tempo em que não existiam, pois é impossível que tenham sempre existido.

Se todos os entes que vemos na natureza têm a possibilidade de não ser, houve tempo em que nenhum desses entes existia. Porém, se nada existisse, nada existiria hoje, porque aquilo que não existe não pode passar a existir por si mesmo.

Se sua necessidade dependesse de outro, formar-se-ia uma série indefinida de necessidades, o que, como já vimos é impossível. Logo, este ser tem a razão de sua necessidade em si mesmo. Ele é o causador da existência dos demais entes. Esse único ser absolutamente necessário – que tem a existência necessariamente – tem que ter existido sempre. Nele, a existência se identifica com a essência. Ele é o ser necessário em virtude do qual os seres contingentes tem existência. Este ser necessário é Deus.

IV – Prova Dos graus de perfeição dos entes

Constatamos que os entes possuem qualidades em graus diversos. Assim, dizemos que o Rio de Janeiro é mais belo que Carapicuíba. Nessa proposição, há três termos: Rio de Janeiro, Carapicuíba e Beleza da qual o Rio de Janeiro participa mais ou está mais próximo. Porque só se pode dizer que alguma coisa é mais que outra, com relação a certa perfeição, conforme sua maior proximidade, participação ou semelhança com o máximo dessa perfeição.

V – Prova pelo governo do mundo

Verificamos que os entes irracionais obram sempre com um fim. Comprova-se isto observando que sempre, ou quase sempre, agem da mesma maneira para conseguir o que mais lhes convém.

Daí se compreende que eles não buscam o seu fim agindo por acaso, mas sim intencionalmente. Aquilo que não possui conhecimento só tende a um fim se é dirigido por alguém que entende e conhece. Por exemplo, uma flecha não pode por si buscar o alvo. Ela tem que ser dirigida para o alvo pelo arqueiro. De si, a flecha é cega. Se vemos flechas se dirigirem para um alvo, compreendemos que há um ser inteligente dirigindo-as para lá. Assim se dá com o mundo. Logo, existe um ser inteligente que dirige todas as coisas naturais a seu fim próprio. A este ser chamamos Deus.

Fonte:

Provas da Existência de Deus - São Tomás de Aquino. Blog A Fé Explicada. Disponível: http://afeexplicada.wordpress.com/2011/05/08/provas-da-existencia-de-deus-sao-tomas-de-aquino/ Acesso em: 14 Maio 2011.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Leitora pergunta sobre a presença de composições protestantes na liturgia católica.

Transcrevemos aqui a pergunta a nós endereçada por uma simpática e zelosa leitora.

“espero a ajuda de vocês!!!!!

Sou Maria dos anjos, toco violão e canto na Igreja desde os meus 16 anos. Olha o problema em que eu me envolvi.

O padre de minha paróquia passou um verdadeiro rodo em algumas das músicas que mais gostavamos de cantar. Só que embora ele tenha mandado suprimir esses canticos, ele ainda nao deu uma formação sobre música, mas já está marcada. Vai acontecer em todos os sábados do mes de junho. Mas como ele reuniu os coordenadores dos ministerios de músicas, e passou a noticia e alegou que só vai explicar quando tiver todos os grupos reunidos em junho, quando eu fui falar com o meu grupo, ninguem concordou com o padre, mas ninguem vai questionar nao, só qeu eu queria que vcs me dissessem quais sao os erros nessas músicas:

Por que ele vive!

"Deus enviou seu Filho amado para morrer no meu lugar..."

Faz um milagre em mim

"Entra na minha casa, entra na minha vida..."

outras:

"tem anjos voando nesse lugar, em cima do povo, em cima do altar..."

"Hoje é dia de celebração (derrama o teu amor aqui, faz chover sobre nós agua viva!)

Essas são as mais populares tem essa daqui também

"Renova-me, Senhor Jesus, já não quero ser igual..." cantavamos como ato penitencial,

O que vcs tem a dizer sobre essas canções qeu nosso povo cantava até hoje?”

Resposta:

Salve Maria! Caríssima Maria dos Anjos, muito felicita-nos sua seu comentário iremos respondê-la em forma de publicação.

É provável que o Revmo. Padre de sua paróquia tomou esta decisão prudente decisão visando à fé católica e por excessivo cuidado a ela, que é expressa solenemente na liturgia e nesta não pode esta oscilando em relação ao que é exigido pela Igreja em seus documentos ou lado a lado com composições que não são católicas que não correspondem ou estão alinhadas com a Igreja e sim com as diversas expressões de “fé” dos milhares de seitas do país, estas composições musicais são incompatíveis com a fé e credo que os fieis devem expressar, geralmente elas contém erros e equívocos teológicos dos mais diversos. Em contra posto as composições católicas que devem denotar comunhão plena e estarem em ressonância com a Igreja.

Seque-se abaixo as três razões pelas quais segundo o grande sacerdote, apologista e monge beneditino Dom Estevão Bettencourt que infelizmente nos deixou em 14 de abril de 2008. Apontou para a recusa por parte da Igreja em utilizar cânticos não católicos em sua liturgia.

1)Lex orandi lex credendi (Nós oramos de acordo com aquilo que cremos). Isto quer dizer: existe grande afinidade entre as fórmulas de fé e as fórmulas de oração; a fé se exprime na oração, já diziam os escritores cristãos dos primeiros séculos.

No século IV, por ocasião da controvérsia ariana (que debatia a Divindade do Filho), os hereges queriam incutir o arianismo através de hinos religioso, ao que Sto. Ambrósio opôs os hinos ambrosianos.

Mais ainda: nos séculos XVII-XIX o Galicanismo propugnava a existência de Igrejas nacionais subordinadas não ao Papa, mas ao monarca. Em conseqüência foi criado o calendário galicano, no qual estava inserida a festa de São Napoleão, que podia ser entendido como um mártir da Igreja antiga ou como sendo o Imperador Napoleão.

Pois bem, os protestantes têm seus cantos religiosos através de cuja letra se exprime a fé protestante. O católico que utiliza esses cânticos, não pode deixar de assimilar aos poucos a mentalidade protestante; esta é, em certos casos, mais subjetiva e sentimental do que a católica.

2) Os cantos protestantes ignoram verdades centrais do Cristianismo: A Eucaristia, a Comunhão dos Santos, a Igreja Mãe e Mestre... Esses temas não podem faltar numa autêntica espiritualidade cristã.

3) Deve-se estimular a produção de cânticos com base na doutrina da fé.

Observe das canções que você mencionou quantas são solidamente católicas. Temos que preservar nossa fé amiga pense nesta perspectiva e tente também refletir sobre isto com seu grupo. Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre! (cf. Hb 13,8) A Igreja que é sua imagem e esposa também e pro conseguinte não pode mudar pro caprichos humanos!

In Christi!

John Lennon J. da Silva

sábado, 7 de maio de 2011

Supremo Tribunal Federal e sua decisão sobre a "união homoafetiva"

Ainda têm repercutido a recente decisão do STF sobre a união estável de homossexuais e a concessão dos mesmos direitos dos casais heteros, aos casais "homoafetivos". Neste video que passo aos leitores o Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Junior, comenta o assunto.

Fato que levantou duras críticas dos cristãos brasileiros, a CNBB reprovou leia. Dom Henrique Soares Bispo auxiliar da Arquidiocese de Aracajú, também escreveu artigo em que trata da inconstitucionalidade de tal deliberação feita pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.



Dê ao STF cartão vermelho! “Entre aqui e escreva para o STF com respeito e firmeza. Faça uso de seu direito de exprimir-se diante das autoridades públicas para lhes manifestar sua inconformidade com aquelas disposições que afetam sua vida e a de seus filhos”.


Contamos com vocês cristãos, homens e mulheres deste país.

Religião e Sexo

O homem honesto que diz que deseja que o cristianismo seja meramente prático e não teórico ou teológico, raramente consegue explicar o que ele exatamente quer dizer. Essa é a razão de haver tanta repetição simplesmente verbal no que ele diz. Geralmente, os pobres teóricos e teólogos têm de explicá-lo o que ele quer dizer. De qualquer forma, ele quer dizer algo mais ou menos assim. Um número muito grande de pessoas saudáveis e bondosas é, hoje, oportunista. Todos acreditamos que devemos cortar nosso casaco de acordo com o tecido que temos, no sentido de que ninguém pode fabricar um casaco sem tecido. Mas se o costureiro me diz que todo o tecido em estoque é amarelo-mustarda brilhante, decorado com caveiras escarlates, terei de adiar o quanto puder o uso desse tecido para meu novo casaco, podendo até constranger-me, e ao costureiro, sugerindo-lhe procurar outro tipo de tecido.

Contudo, há um tipo de homem que usará prontamente o casaco amarelo pela simples existência do casaco amarelo. Ele é um oportunista num sentido diferente do meu. Há uma diferença entre um cliente que consegue o que quer, tanto quanto lhe seja possível e aquele que consegue o que não quer porque isso lhe é possível.

Em outras palavras, há uma diferença entre conseguir o que se quer, sob certas condições e permitir que as condições lhe digam o que você pode conseguir, ou mesmo o que você quer. No entanto, é possível passar pela vida sendo controlado pelas circunstâncias dessa forma. Se minha quadra de tênis for inundada, posso, claro, transformá-la num lago ornamental. Ou posso me dar o trabalho de drenar o campo e protegê-lo contra inundações, permanecendo fiel ao ideal abstrato e dogmático de uma quadra de grama. Se uma árvore cai sobre minha casa e faz um buraco no teto, posso transformar o buraco numa clarabóia e a árvore numa saída de emergência. Mas se eu não quiser uma clarabóia e uma saída de emergência, estou sendo manipulado pela árvore. E isso é uma posição indigna para um homem.

É a posição indigna da maioria dos homens modernos. Eles são oportunistas, não só no sentido de conseguirem o que querem da forma mais prática, mas de tentarem querer a coisa mais prática; isto é, meramente a coisa mais fácil. Essa é a razão de eles não entenderem a base do idealismo cristão em muitas questões e especialmente na questão do sexo. Eles estão sempre sendo desviados pelas inundações e árvores caídas, especialmente aquela árvore do conhecimento que é o símbolo da queda e que certamente fez um buraco na casa, no sentido do lar. Mas a questão aqui é que essas pessoas constroem um novo plano ou propósito sexual depois de cada eventual novo acontecimento. Quando há mais mulheres do que homens, eles começam a falar sobre poligamia. Quando há mais crianças do que é conveniente para os indivíduos criarem com um salário decente, eles começam a falar de alguns truques que são um tipo de substituto para o infanticídio.

Ninguém pode entender a teoria do sexo cristã sem entender a idéia do homem ter um plano que ele deseja impor sobre as circunstâncias, ao invés de esperar pelas circunstâncias para então ver que plano ele vai ter. O cristão deseja criar as condições para que o casamento cristão seja possível e digno em si; não aceitar qualquer coisa possível nas mais indignas condições. Porque ele o quer e o que ele realmente é, consideraremos num momento; mas é necessário tornar claro de início que o casamento cristão não é algo que nos é sugerido pelas condições sociais do nosso entorno; é algo que nos é sugerido por Deus, pela nossa consciência comum e pelo sentido de honra da humanidade em geral. E isso é o que nosso pobre amigo quer dizer quando diz que nós não somos práticos; ele quer dizer que nós não estamos sempre consertando nossa casa e alterando nosso jardim para acolher em seu interior uma árvore caída ou uma tromba d’água.

Ele quer dizer que temos um plano para nossa casa e jardim e que estamos sempre tentando restaurá-los e reconstruí-los de acordo com o plano. Não propomos rasgar o plano original e seguir uma seqüência de acidentes; até que a casa seja enterrada sob árvores caídas e os campos sejam inundados e todo o trabalho do homem seja levado pela enxurrada. Isso é o que ele entende por nossa impraticabilidade, e ele está certo.

Descrito em termos humanos, o plano é substancialmente este. Que o amor que faz a juventude bela, e é a fonte natural de tanta canção e romance, tem por objetivo final um ato de criação, a fundação da família. Ao mesmo tempo em que é um ato criativo, como o de um artista, é também um ato coletivo, como o de uma pequena comunidade. É, talvez, o único trabalho artístico em que a colaboração é um sucesso e mesmo uma necessidade. É preciso de dois para começar uma briga, especialmente uma briga de amantes. Precisa-se também de dois para estabelecer um acordo de amantes segundo o qual seu amor deve ser colocado acima da briga. Mas, por definição, o acordo dos dois não é simplesmente concernente aos dois; mas, num sentido terrível, a outros. A fundação de uma família, como todo ato criativo, é uma responsabilidade tremenda. Em outras palavras, a fundação de uma família significa a alimentação de uma família, o treinamento, o ensinamento e a proteção de uma família. É o trabalho de uma vida inteira, e muitos casamentos têm uma vida muito curta. Sua continuidade é garantida, não por “leis matrimoniais” que nossas modernas plutocracias podem criar ao seu bel-prazer, mas por um voto voluntário ou invocação a Deus feita pelas duas partes, que eles vão se ajudar nesse trabalho até a morte. Para aqueles que acreditam em Deus e também acreditam no significado das palavras, isso é final e irrevogável.

Esse ato criativo é em si um ato livre. Esse ato criativo, como todos os atos criativos, não envolve uma perda de liberdade. O homem que constrói uma casa não recupera aquele castelo que ele construiu e reconstruiu no ar quando ele estava planejando a casa. Nesse sentido, podemos dizer, se quisermos, que o homem que constrói uma casa, constrói uma prisão. Há algo de final em todo grande trabalho, mas é possível sentir nesse trabalho um tipo peculiar de finalidade. A paixão de um homem em sua juventude encontrou seu caminho verdadeiro e alcançou seu objetivo e, apesar do amor não precisar acabar, a busca por ele terminou.

Pelo teste desse objetivo e consecução, todas as coisas condenadas pela ética cristã se encaixa em seus vários níveis de erro. Prolongar a busca de uma forma sentimental, muito depois de ela ter qualquer relação com o trabalho real do homem é um erro em vários níveis; quase sempre isso não é mais que ridículo e indigno; turpe senilis amor. Permitir que a busca perambule de forma a destruir outros lares saudavelmente estabelecidos é, por essa definição, obviamente errado. Cultivar uma perversão mental que realmente remova o desejo por um ato frutífero é horrivelmente errado. Comprar um prazer estéril de uma classe estéril é errado. Manobrar cientificamente de forma a furtar o prazer sem assumir a responsabilidade pelo ato, é lógica e inerentemente errado. É como andar por aí com uma medalha sem ter ido à guerra.

Nós acreditamos, sem uma sombra de dúvida e hesitação, que onde as condições se aproximam desse ideal, a humanidade é mais feliz. Assim, o nascimento da paixão é usado com um menor grau de destruição. Assim, a morte da Paixão é aceita com um menor grau de desilusão. Um trabalho construtivo da idade adulta segue naturalmente o trabalho criativo da juventude; à paixão é dada uma extraordinária oportunidade de se perpetuar como afeição, e a vida do homem é tornada plena. Há nela tragédias, como há igualmente tragédias fora dela. Não podemos livrar a vida de tragédias sem livrá-la da liberdade. Não podemos controlar a atitude emocional dos outros nem numa condição de anarquia sexual, nem nas condições de lealdade doméstica. O amor é realmente excessivamente livre para os propósitos dos amantes livres. Mas onde os homens são treinados pela tradição a considerar esse processo normal, e a não esperar por nada diferente, há muito menos probabilidade de trágicos relacionamentos do que no amor chamado livre. Se observamos a literatura real do amor irresponsável, encontraremos um contínuo e dolorido lamento sobre falsas amantes e torturantes casos amorosos.

Em resumo, nós não acreditamos, de forma alguma, na grande felicidade prometida à humanidade pela dissolução de lealdades de uma vida toda; não sentimos o menor respeito pela retórica sentimental e grosseira com que isso nos é recomendado. Mas o resultado prático de nossa convicção e de nossa confiança é este: que quando as pessoas nos dizem – “Seu sistema não é muito inadequado para o mundo moderno,” respondemos – “Se isso é verdade, as coisas parecem bem podres no pobre e antigo mundo moderno.” Quando eles dizem – “Seu ideal de casamento pode ser um ideal, mas não pode ser uma realidade, ” dizemos – “é um ideal numa sociedade doente, é uma realidade numa sociedade saudável. Pois, onde ele é real, ele faz a sociedade saudável.” Não dizemos perfeitamente saudável, pois acreditamos em outras coisas além do casamento; como, por exemplo, na Queda do Homem. Mas a questão é que queremos o que é prático, no sentido de que queremos fazer algo, criar famílias cristãs. Mas eles só querem o que é prático, no sentido do que é mais fácil no momento.

Assim, de acordo com a teoria geral do casamento, a paixão é purificada por sua própria frutificação, quando esta frutificação é o seu dignificante e decente objetivo final. Em poucas palavras, podemos dizer que substituiríamos a meia-verdade do “amor pelo amor”, por uma verdade superior do “amor pela vida”. O amor é sujeito à leis porque é sujeito à vida. É verdade, não só metafisicamente, nem mesmo simplesmente num sentido místico, mas num sentido material, que podemos ter vida e que a podemos ter mais abundantemente. Isso não quer dizer, claro, que o amor não tenha seu próprio valor espiritual, quando honoráveis acidentes o impedem de ser frutífero. Mas isso não significa que, em geral, possamos julgar os amores dos homens por outra metáfora mística que é também um fato material e por seus frutos os conheceremos.

Tal princípio é, ou era até recentemente, compartilhado por todos os que se dizem cristãos. Há um apêndice a este princípio que é professado por todos os que se dizem católicos. É uma idéia mais mística; e talvez somente os católicos se esforçaram em defini-lo racional e filosoficamente. Não é verdade, contudo, que somente católicos já o sentiram. Os antigos pagãos já o sentiram sutilmente em suas visões de Atenas, Ártemis e das Virgens Vestais. Os agnósticos modernos o sentem debilmente em sua adoração pela inocência infantil – em Peter Pan ou no Child’s Garden of Verses. Essa idéia é a de que há, para alguns, uma felicidade ainda mais divina que a do divino sacramento do matrimônio. Este é um assunto muito especial e muito grande para ser tratado aqui; mas dois fatos deveras singulares devem, sobre ele, ser notados. Primeiramente, que os estados industriais modernos estão invocando o pesadelo da super-população, depois de terem, eles próprios destruído as irmandades monásticas que foram uma limitação voluntária e viril a esse pesadelo. Em outras palavras, eles estão, muito relutantemente, recorrendo ao controle de natalidade, depois de realmente suprimirem a prova de que os homens são capazes de auto-controle. Em segundo lugar, se tal abstenção fosse realmente exigida, essa tradição religiosa poderia dar a ela um entusiasmo positivo e poético, onde todas as outras fariam dela apenas uma mutilação negativa. Os católicos acreditam na razão e gostam de ver as coisas práticas provadas; e, atualmente, a necessidade não está provada; somente mencionada como se tivesse, como se comentassem a respeito de Darwin e Einstein. Mas, mesmo se ela estivesse provada, os católicos teriam uma resposta muito melhor do que a dos outros: as trombetas de São Francisco e São Domingos. E os bons protestantes irão finalmente concordar que a resposta é melhor do que a alternativa de um tipo de anarquia secreta e silenciosa, na qual os motivos são estreitos e os resultados nulos. E por este caminho, voltamos ao tema original do casamento ideal; e à verdade principal sobre ele. Uma coisa tão humana não irá, finalmente, desaparecer por entre acidentes de uma sociedade anormal. Essa sociedade nunca será capaz de julgar o casamento. O casamento julgará essa sociedade; e pode possivelmente condená-la.

Fonte

CHESTERTON. G. K. Religião e Sexo. Extraído originalmente da publicação The Chesterton Review. Tradução de Antonio Emilio Angueth de Araujo. Disponível em: www.chestertonbrasil.org Acesso em: 1 Maio 2011.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Resposta a um irmão que pede esclarecimentos sobre os castigos divinos


Anônimo disse...
Vcs me desculpem, mas eu acho que os dois estão perdendo tempo em uma discussão desnecessária.
Eu sei que existe o Inferno, que existem sofrimentos por conta do pecado, todavia, eu acredito que o Inferno, os sofrimentos por conta do pecado, o fim do Sodoma e Gomorra, não estão dentro dos desejos de Deus, pelo menos, não de forma direta. São ocasionados pela incapacidade dos homens de viverem como filho de Deus. Então, não seriam castigos, mas sim, consequencias de escolhas equivocadas. Creio que talvez nossos amigos deste apostolado possam esclarecer esse ponto... Não creio que sejam castigos, mas aconteceram e acontecem como preço a se pagar por uma vida que se deseja sem Deus, sem ordem, como se o homem fosse capaz de gerar seu próprio destino de forma independente. Peço que esclareçam para mim. Obrigado e espero uma resposta.

Prezado irmão, Salve Maria!

Achei seu comentário muito educado e muito pertinente, apesar de haver uma série de equívocos que merecem reparos. Todavia, entendo que você tem dúvidas e essas dúvidas serão respondidas educadamente, afinal, não vi qualquer hostilidade ou orgulho em suas palavras que me levassem a comportar-me como um “domador”.

Primeiramente digo que nunca uma discussão e uma repreensão são desnecessárias. Já dizia o Papa São Félix:

“Não combater o erro é corroborar com ele. Não defender a verdade é suprimi-la”

Portanto, todos os que hostilizam contra a doutrina da Igreja serão sim duramente repreendidos pela nossa equipe de apostolado, sendo que a dureza da repreensão será diretamente proporcional ao grau de orgulho e estupidez dos que nos escrevem. Como disse Albert Einstein, o grande gênio da física moderna, “Duas coisas são infinitas: O universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta. Minha única queixa quanto à seu comentário é o anonimato. Quem fala no anonimato pode falar o que quer, tira de si as responsabilidades de sua fala e, portanto, perde a razão. Não há motivos para que uma pessoa tão educada como você se mantenha oculto.

A Palavra de Deus deixa bem claro, e é preciso muita má vontade para negar, que há sim castigos e vinganças provenientes de Deus. Veja por exemplo as palavras claras da Sagrada Escritura Eclo 39, 34; Is 63, 3; Is 63, 6; Jr 4, 26; Ex 20, 5; Lv 26, 25; Nm 14, 34; Ap 6, 10; Hb 10, 30. Esses castigos e essas vinganças não retratam a ira no sentido de pecado capital, mas sim no sentido das infinitas sabedoria e bondade de Deus. Vemos, por exemplo, que Deus castigou os infiéis filisteus que abriram guerra contra o povo sagrado (I Sm 17, 45-57). Deus castigou Davi (II Sm 12, 1-23) quando este mandou Urias para a morte (II Sm 11, 1-27). Entretanto, vemos também que com nosso arrependimento, Deus perdoa nossos pecados e nos faz nascer a nova graça (II Sm 12, 24-31). Isso deixa claro que Deus é misericórdia, pois mesmo após um castigo, Ele está sempre pronto para nos perdoar e nos acolher. O livro de Jonas deixa claro que mesmo após os erros de Nínive e de Jonas, Deus perdoou e amou a todos, pois eles se arrependeram de suas faltas. Aí está a chave, Deus só perdoa quem pede perdão e só se pede perdão legítimo quando se tem arrependimento. Veja que Jesus sempre disse aos pecadores, vá e não peques mais, ou seja, eu te perdôo, mas não torne a pecar.

Meu caro, se Deus ama, mas não castiga, que tipo de amor é esse? São Tomás de Aquino diz que quem ama quer o bem, e quem quer o bem não corrobora como a maldade, repreendendo-a muitas vezes (Lv 19, 17; Sm 118, 21, Pr 19, 25). Assim, esse mesmo Santo fala sobre o bem absoluto e o bem relativo. O bem relativo é qualquer bem, exceto Deus. O dinheiro é um bem relativo, pois pode ser bom ou mau. Deus, porém, nunca pode ser mau, pois Deus é o bem no grau máximo, o bem que é bom em todos os sentidos. Ora, como sendo o bem máximo, Deus não quer que o pecador morra, mas viva, e a vida em abundância só existe perto de Deus. O pai que ama o filho não poupa a vara (Pr 13, 24). Quem castiga os filhos são os pais, que os amam, e não os vizinhos, que não se importam com os filhos dos outros. Assim, para que o filho ande na retidão, Deus por bem também o castiga.

É bom, entretanto, dizer que nem sempre os sofrimentos e as dificuldades vêm como castigo. Por exemplo, se um homem se embriaga e depois dirigindo bêbado morre em um acidente, Deus está isento desse fato, que partiu do livre arbítrio. Caso bem diferente pode ocorrer se um filho desobediente à Deus tem o “azar” de trombar com esse bêbado e sofrer uma grave lesão. Essa lesão pode levá-lo a recorrer a Deus, o bem absoluto. Todavia, nem sempre um acidente tem esse sentido e devemos ser cautelosos ao afirmar que algo é ou não castigo divino. Santo Agostinho diz que além da vontade de Deus, há sempre o livre arbítrio, a vontade do homem.

Não pense, pois, que são só os infiéis que passam por dificuldades, pois essas vêm para todos (Mt 5, 45). Os fiéis podem passar por dificuldades por castigo, escolha, purificação, provação ou por um acaso qualquer. O livro de Jó narra que Jó era um servo fiel e Deus permitiu que ele fosse provado. As almas do purgatório, por exemplo, para se purificarem tem um sofrimento comparável ao do inferno. A escolha interfere também no sofrimento. Deus, em sua infinita sabedoria criou o mundo de tal forma que todos os pecados dos homens tivessem conseqüências. Por isso São Paulo diz que o salário do pecado é a morte (Rm 6, 23; veja também Gl 6,8). É por causa, não da ira enquanto pecado capital, mas da ira enquanto sabedoria de Deus que temos o salário do pecado, para que pensemos nas conseqüências de nossos atos e vivamos segundo a vontade divina. Há ainda que se ver os sofrimentos que simplesmente acontecem, como por exemplo, as doenças genéticas. Jesus disse que elas vêm para que a glória de Deus se manifeste (Jo 9, 1-3).

Faço também um reparo no seu pensamento, fruto talvez de um relativismo desregrado que tem entrado na Igreja. Dizer que Deus não age como um educador é tirar Deus desse mundo. O modernismo e o relativismo querem trazer o homem para o centro, retirando Deus de toda ação e conseqüência ocorrida. Isso é uma falácia. Assim, o livro The Secret dá a Deus o caráter de uma energia, força superior, o que é falso. Deus é um ser inteligente, com vontade própria e com capacidade de interferir no mundo sim e não foram raras as vezes em que Ele fez isso. Leia, por exemplo, o Milagre do Sol que se deu por ocasião da Aparição de Nossa Senhora em Fátima.

Cuidado com o modernismo, porque ele tem trazido consigo uma secularização dos fiéis. A cada dia mais vemos as pessoas perdendo a dimensão espiritual da fé, que é o mais importante. As pessoas têm vivido como se Deus não existisse, mesmo na Igreja Católica. Por isso, tome cuidado com o que você ouve dos padres, Lutero também era padre. O ensinamento do clero só é válido se estiver em concordância com o que ensina a doutrina da Igreja.

No que se refere ao sofrimento do Inferno, é bom ter em mente alguns pontos. Primeiramente ninguém vai pro Inferno porque Deus quer. Uma vez no Inferno, a alma não pode mais sair, pois as almas do inferno estão lá por consentimento pleno de querer ir pra lá. A doutrina da Igreja prega que uma vez descarnada, a alma não está mais submetida ao espaço e ao tempo. Ora, isso dá a alma uma noção plena (ciência plena) de seus atos e das conseqüências deles. Assim, a irmã Clara narra (veja aqui) o julgamento de sua amiga Anita, que estando no Inferno enviou uma carta para contar como tudo ocorre.

As almas descarnadas quando frente a frente com Deus recebem o julgamento particular. Através disso, as almas vêem toda sua vida passar diante de seus olhos e vêem também as conseqüências dos atos delas. Vendo tudo isso, as almas podem arrepender-se ou não e isso é o que decide se uma alma vai ou não para o Inferno. Esse arrependimento se dá por amor a Deus. Nesse lagar, o fogo e as penas impostas pelos demônios são os menores problemas. Há vários outros sofrimentos, como pensar nos erros cometidos nessa terra e pensar na perda da salvação. A pior de todas as penas de uma alma infernal é se ver abandonada por Deus por toda a eternidade. Anita, no Manuscrito do Inferno diz que até para essas almas Deus é misericordioso. Há almas que chegam à um estado tal de pecado que não mais são capazes de se arrepender. Quando Deus percebe isso, ele tira delas a vida, para que não continuem pecando e para que esses pecados não as torturem ainda mais no Inferno, pois uma das torturas é a lembrança dos pecados cometidos nessa vida.

As almas do Inferno são tão duras que só sabem blasfemar e odiar o Altíssimo. Não há volta para elas porque as almas têm consciência plena, logo, não é pela dureza do coração de Deus, mas sim pelo orgulho das almas infernais que elas permanecem lá eternamente. No Purgatório, muito embora haja um sofrimento comparável ao do Inferno, as almas um dia sairão de lá para o paraíso, que é a comunhão plena com Deus. Você pode ler mais sobre isso no livro “O Purgatório: O que a Igreja ensina?” – Professor Felipe Aquino.

Portanto, vemos através dessa carta que Deus castiga sim, mas que nem todo sofrimento é castigo de Deus. Isso não significa que Deus não ama, muito pelo contrário. Como diz a sabedoria popular, Quem não procura Deus pelo amor, procura pela dor.

Vejo o sofrimento como sendo algo necessário para repensarmos nossas atitudes e nossas vidas. Através dele nos purificamos e nos tornamos mais perfeitos. Talvez se vivêssemos na bonança, nunca nos lembraríamos de Deus e nos tornaríamos seres orgulhosos, incapazes de amar.

O fato de haver sofrimento no mundo não significa que Deus é injusto. Eu pensaria isso se houvesse apenas essa vida, mas eu sei que por maior que seja a alegria desse mundo, o que nos aguarda do outro lado é muito maior que o que temos aqui. Por isso eu sei que Deus nos ama e que a justiça de Deus, embora se manifeste também nessa terra, eleva o homem à plenitude da vida somente após a morte. Portanto, mesmo com todas as adversidades nessa terra, a vida vindoura me leva a crer que Deus é amor.

In Caritas Christi
Eduardo Moreira.