terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pequeninos como crianças


Por: Eduardo Moreira

Deixai vir a mim estas criancinhas e não as impeçais porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham (Mt 19, 14 B).
As crianças possuem um ar de pureza e inocência. Embora sejam humanas, herdeiras do pecado pela natureza corrompida, as crianças são, muitas vezes, inocentes em suas atitudes.
Algo que chama a atenção é a simplicidade do mundo das crianças. Sem apegos à vida material e às preocupações mundanas, as crianças conseguem uma intimidade muito grande com Deus. Em sua inocência, as crianças conseguem se aproximar quase perfeitamente do Altíssimo.
Nesse sentido, Jesus nos diz que quem não se assemelhar às crianças não entrará no Reino dos Céus. Na vida espiritual, devemos ser simples e nessa simplicidade Deus nos preenche, nos faz transbordar e inflama nosso espírito.
Um dos maiores santos de todos os tempos, São Francisco de Assis, viveu a simplicidade de tal forma que se desprendeu completamente das coisas materiais. A matéria foi útil para fortalecê-lo através das privações e do sofrimento da carne. Quanto mais São Francisco sofria, quanto mais se esmagava e submetia seu corpo às privações, maior se tornava seu espírito.
São Francisco levou a cabo a passagem da Escritura, “buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça que todas essas coisas lhes serão dadas por acréscimo” (Mt 6, 33) . Até do que lhe foi dado por acréscimo esse santo se desfez e hoje, esse tão pequeno e maltrapilho ser humano, se tornou certamente o mais lembrado santo de todos os tempos. De fato, quando falamos em um santo, nos vêm logo a imagem de São Francisco de Assis, o adulto com coração de criança.
É evidente que todos têm diferentes chamados e não são todos, mesmo se tratando de consagrados, que têm o chamado do total abandono. Entretanto, a simplicidade de espírito que tinha o santo de Assis, todos nós devemos ter.
Interessante é que certa vez eu estava em um retiro espiritual e houve um momento para todos partilharem o que sabiam acerca de vida de oração, a importância do auto-sacrifício e tantas outras coisas. Surpreendentemente havia lá duas crianças que estavam sempre falando com admirável acerto sobre as coisas de Deus. Todos na sala ficaram boquiabertos.
É claro, não havia muita profundidade teológica nos pronunciamentos daquelas crianças, mas havia uma inspiração Divina enorme. Isso é bom para que lembremo-nos dos tempos de criança, das vezes em que nos aproximamos de Deus de coração aberto para acolher o que Ele tinha para nos dizer.
Em verdade, enquanto não apresentarmos a Deus um coração sem reservas e uma consciência sensível, não conseguiremos nos elevar até Ele.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Imitação de Maria - Parte II

Por: Eduardo Moreira

Um ventre em chamas


Maria tem o ventre mais limpo e puro que pode existir. Nesse ventre Maria aqueceu a natureza humana, tal qual se aquece um metal, fundindo-a à natureza divina com o fogo do Espírito Santo. Esse fogo jamais a abandonou. Esse a ensinou a reduzir-se, a pulverizar-se de forma a se tornar nada e assim Cristo se tornou tudo nela. Por isso Maria disse: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade!

Que belas palavras! Que bela conclusão. Não sou nada meu Deus, sede tudo em mim. Sede minha herança, meu pensar, meu falar, meu agir. Gera em mim teu Divino Filho a fim de libertar os pobres pecadores.

Maria, com teu ventre Santo, quer nos santificar, mesmo em meio às cruzes, trabalhos e decepções da vida. Através da provação de morte do homem-Deus, Maria deu-nos o Salvador que nos comprou com seu sofrimento. Não abandonou ela, pois, seu Divino Filho estando com Ele até a morte, e morte de Cruz. Hoje Maria nos convida a movermos nossas cruzes no Calvário da vida. O Calvário com Cristo nos tornou livres do pecado. Nosso Calvário da vida, nossos sofrimentos, se oferecidos nos libertam de nós mesmos, nos pulveriza, nos ensina a sermos nada para que Cristo seja tudo em nós.

Se ditoso é o ventre de Santa Ana, muito mais ditoso é o Ventre de Maria que, através das nossas orações e da Consagração Total quer nos levar pra dentro dele e nos moldar. Esse ventre quer nos consumir com o Fogo do Espírito Santo e com o Amor de Cristo, o Amor Incondicional, quer abrasar nosso coração, consumir nossa Alma, transbordar nosso espírito para que no último dia, como disse Santo Agostinho, nos encontremos totalmente consumidos pelo amor de Deus. Esse fogo quer nos fundir à Deus para que, conforme descreveu São Boaventura, nos dissolvamos e nos confundamos com Ele.

Se nos deixamos a sós, tudo é desgraça. Se nos desgarramos do Amparo de tão boa Mãe, tudo é ódio, tudo é fúria. Nada de bom há fora de Maria, fora de seu ventre ditoso. Se temos uma vida santa, é porque ela nos queimou até a exaustão, nos extinguiu, abrasou nossa alma enchendo, assim, nosso espírito com a presença do Espírito Santo.

Disse São Cipriano que não há Salvação fora da Igreja Católica. Com muito mais razão digo, não há Salvação fora do ventre de Maria, porque dele nasceu Cristo, a Misericórdia Encarnada, de onde jorra a compaixão pelos pecadores. Se até Cristo teve de passar pelo ventre ditoso da Santíssima Virgem, nós, pobres pecadores, com muito mais razão devemos nos submeter a Ela.

É preciso que entremos no Ventre de Maria para que nos consumamos pelo Fogo do Espírito Santo. É mister que nos pulverizemos, que passemos a sombras, que deixemos de ter vontade própria para que Maria faça tudo em nós, para que nos transforme em seus escravos. Por mais que pareça loucura, só assim seremos livres. Só quando deixarmos de existir, quando nos deixarmos abrasar a tal ponto para sermos fundidos, no Ventre de Maria, ao Cristo, só assim teremos a liberdade que em vão procuramos na sabedoria mundana, na filosofia ou nas ciências. Como são tolos os que seguem a sabedoria dos homens! Morrerão incultos, pois se julgamos muito o que sabemos, muito mais é o que desconhecemos, diz Tomás de Kempis. Pobres daqueles que buscam com afinco as vaidades da terra sem se lembrarem de sua alma imortal. Certamente perdão a vida eterna.

A Ciência é boa, foi criada por Deus. A Sabedoria é boa, foi criada pelo Eterno e o próprio Cristo é a Sabedoria Encarnada. Entretanto, a Ciência ensoberbece e a Sabedoria não anda com os soberbos. Pobres almas que se atiram com tanta sede ao conhecimento e deixam seu espírito vazio! Jamais encontrarão a paz que procuram, jamais se tornarão sábios. Serão papagaios a repetirem o conhecimento acumulado, sapos inchados em seu orgulho, pessoas vazias de alma e cheias de conhecimento, conhecimento esse que de nada servirá na outra vida.

Muito mais importante é nessa vida nos aplicarmos com afinco e santidade às coisas do alto, sem esquecer nossas obrigações temporais. Devemos sim rogar a Nossa Senhora, dispensadora de todas as graças de Deus, que nos gere tal qual gerou o Verbo Encarnado. Devemos pedir para sermos nada. Devemos esvaziar nossas almas para que nelas haja espaço para Deus que não divide seu lugar com as vaidades.

Uma vez que O deixarmos entrar pelas Imaculadas Mãos de Maria, seremos fundidos com o Fogo do Espírito Santo e abrasados pelo Amor de Cristo à divindade. Seremos, agora sim, parte do Corpo Místico de Cristo, pois gerados fomos por Maria. Seremos, pois, ainda de natureza humana, frágil e pecadora, mas mais firmemente unidos ao Cristo, gerados no mesmo ventre que Ele.

Como bem disse Santo Agostinho, onde andamos que buscamos outras coisas senão Cristo? Devemos correr, buscar a Graça de Deus e pedir a essa Boa Mãe que nos mostre o caminho, que nos dirija os passos para encontrar a paz, como disse São Luis Maria Grignion de Montfort. Corram doutores, porque há muito tempo estão procurando o que não irão encontrar. Buscai as coisas do alto. Corram sábios, porque vossa sabedoria é vã e de nada lhe adiantará na outra vida!

Livre-nos, Mãe, das ciladas que o inimigo faz às nossas almas. Ajude nossa fé, nossa esperança e nossa caridade, porque a caridade jamais passará. Reveste-nos com vossos méritos a fim de que possamos ser consumidos pelo amor de Deus em Vosso Santo Ventre. Mãe ensina-nos a santidade, pois a Senhora é a fôrma de todos os santos. Que no dia de nosso julgamento, por vossa Graça, possamos nos apresentar a Deus consumidos pelo amor divino, dissolvidos no Infinito, plenamente unidos ao Cristo para que gozemos para sempre na vida eterna.


Feri, Dulcíssimo Jesus


FERI, dulcíssimo Jesus, o mais íntimo e profundo do meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do vosso amor, com aquela santíssima e inalterável caridade que foi brasão e timbre dos vossos Apóstolos, para que a minha alma se deleite e enterneça com a febre sempre crescente de Vos querer mais.
Dai à minha alma que se queime em desejos de Vós, que desfaleça nos vossos átrios, e deseje dissolver-se e confundir-se convosco. Que tenha fome de Vós, ó Pão dos Anjos, Pão das almas santas, Pão nosso de cada dia, supersubstancial, fonte inexaurível de paz e suavidade. Ó Vós, a Quem unicamente os Anjos desejam contemplar!
Oh! que o meu coração tenha fome de Vós, que só de Vós se alimente, e que só do prazer que de Vós deriva se comovam as entranhas do meu ser; que só de Vós tenha sede, ó fonte da vida e da sabedoria, da ciência e da luz eterna; ó torrente de todos os prazeres, ó riqueza da casa de Deus, só por Vós anseie, só a Vós procure, só a Vós encontre, só para Vós caminhe, só a Vós alcance, só em Vós pense, só de Vós fale, e tudo o que fizer seja para honra e glória do vosso nome, com humildade e discrição, com prazer e amor, com alegria e afeto, com perseverança até o fim.
Sede, Senhor, a minha única esperança: só em Vós confie, só de Vós seja rico, só em Vós me regozije e alegre, ó meu descanso, ó minha paz, ó meu amor, aroma que me inebriais, doçura que me deleitais, pão que me revigorais, refúgio que me defendeis, auxílio que me escudais, sabedoria que me iluminais, herança e tesouro que espero. Em Quem só a minha alma e o meu coração vivam e se radiquem de maneira firme e inabalável. Amém.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Oremos também pelos nossos inimigos

Por: Eduardo Moreira

Uma das passagens mais belas da Sagrada Escritura refere-se a como devemos tratar nossos inimigos. Cristo é bem claro ao dizer que devemos ama-los, afinal, não há dificuldade em amar quem nos ama. Difícil mesmo é amar aqueles que nos odeiam e que nos perseguem. Também Jesus nos disse que não devemos julgar, antes devemos orar pela conversão dos que nos perseguem, afinal, essa vida de nada nos vale. Nosso maior tesouro está escondido com Deus, nos céus e devemos, pois, aspirar as coisas do alto, mesmo que isso nos custe a vida aqui na terra. Deus é amor e Cristo, como expressão última do amor de Deus, disse quando estava sendo pregado na cruz: Pai, perdoa-os, pois não sabem o que fazem.
Quando criança, ouvia sempre de meus pais que ninguém é mau para os outros. Todos os maus são maus, acima de tudo, para si mesmos. De fato, não devemos pagar o mal com o mal. Paguemos as ofensas, calúnias e perseguições com o amor, pois Deus é amor. Sufoquemos o ódio de Satanás com o amor de Deus, com nossos rosários e nossos oferecimentos nas Santas Missas. Como disse o Papa Bento XVI, Deus Caritas Est!
Abaixo envio um vídeo para que vejam e orem pelos que nos perseguem. Numa caminhada pacífica, jovens do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira faziam uma manifestação, sem agressão alguma, contra o movimento homossexual (vejam o vídeo e tirem suas conclusões acerca de tal movimento) e contra o aborto (um ato intrinsecamente brutal e covarde que dispensa demais comentários) e, por causa disso, foram agredidos verbal e fisicamente. Diante desses fatos, espero que fiquem claras as consciências dos cristãos para que não dêem poder ao mal. Pensem bem, amados, em quem estão votando. Isso serve também para nossos irmãos separados. Apoiemos a vida, não esses movimentos políticos organizados que pregam a violência e a morte. Enfim, não julguemos essas pessoas, afinal, devemos amá-las e orar por elas. Fiquemos/busquemos, pois, a Graça de Deus.


Observação: As colocações aqui feitas não constituem julgamentos, mas sim observações de fatos. Ajudem a divulgar esse vídeo, posto que a grande mídia não divulgará, jamais, materiais como esse.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Imitação de Maria - Parte I


Por: Eduardo Moreira

Na Igreja há um coração cheio de ternura, um coração amável e puro. Na Igreja há um coração que é só amor, um coração que espera a volta dos filhos. Esse coração é ao mesmo tempo o Coração de Maria e o Coração da Igreja, o próprio Corpo de Cristo. Nesse coração não há rancor, só espera. E quanta saudade tem sentido esse coração de seus filhos separados, sejam pela heresia, sejam pela tibieza e tepor do espírito.
Quantos espíritos vazios existem nesse mundo. Quantas pessoas ocas, presas em seu orgulho que não as deixa se renderem à doçura e ao amor infinito desse coração. Sagrado Coração de Cristo presente na Igreja, seu Corpo Místico, através da qual pelas mãos dos Sacerdotes Cristo vem a nós na forma de Pão e Vinho. O Imaculado Coração de Maria, doce, compreensivo e cheio de ternura. Um coração de Mãe, com ternura e amor de Mãe. Se Deus disse, quando partiu desse mundo para os Céus, que não nos deixaria órfãos, em parte o disse por causa do Espírito que enviou e em parte disse por causa de sua própria Mãe, a quem deu a São João e a toda a humanidade na cruz. A Igreja pequena e nascente precisava ser nutrida por uma Mãe humana. A Igreja era um bebê e Deus preparou Maria para continuar sendo sua Mãe, Mãe do Corpo Místico de Cristo. Por graça, Maria se tornou mãe de todos os cristãos que pelo batismo se tornaram filhos de Deus e filhos de Maria.
Quantas almas poderiam ter sido salvas se tivessem recorrido a esse amor. Quantos espíritos não estariam ocos se tivessem se dissolvido nesse mar de ternura. Quantas pessoas se matam, diariamente, por não suportarem o peso de viver sem a graça, sem a presença e ternura de Nossa Senhora, Mãe de Deus e da Igreja, caule de todas as Graças que jorram da raiz que é Deus. Quanta dor, quanto sofrimento poderia ter sido evitado se essas pessoas tivessem se deixado inflamar por esse amor até se extinguirem.
Inflamados pelo fogo de Cristo e sustentados pelo amor de Maria, essas almas teriam sido aniquiladas, teriam ficado rendidas a esse amor. Essas almas teriam se dissolvido no Infinito, teriam se tornado parte íntima do Corpo de Cristo e teriam ficado repletas de Deus. Quanta felicidade teriam tido se tivessem descoberto a santidade.
O Coração da Igreja e o Coração de Maria gritam de amores pelos homens, os vermezinhos e miseráveis pecadores. Poderiam, com justa razão, dizer “voltem seus vermes” ou ainda, “voltem, fragmentos de lixo”. Entretanto, Deus, ao olhar para nós mesmo sabendo de nossos pecados, só vê beleza. Deus odeia nossos pecados, mas nos ama com amor incondicional e deu a Maria a última e eterna missão de nos amar com semelhante amor. Se temos por certo que no Céu temos um pai, temos que ter por certo, de igual forma, que no Céu temos também uma Mãe. Essa Mãe, junto a Cristo na cruz, em seus últimos brados de um amor incondicional não nos rebaixa. Essa Mãe nos eleva à condição de filhos de Deus e ao invés de nos chamar do que merecemos, com muita saudade de nós diz: filhinhos, voltem para a Casa do Pai.
Filhinhos: um adjetivo bem apropriado para a forma como Maria, a mais perfeita criatura, nos enxerga. Um adjetivo que nos dá a qualidade de filhos, mas de filhos pequenos, ignorantes, muitas vezes soberbos e orgulhosos. Pelos nossos feitos e pelas nossas ofensas não merecemos nada mais que o castigo e a cólera de Deus.
Quão ousado é o homem ao pecar contra Deus. Quão estúpido é o homem, em toda sua pequenez e insignificância, ousar se opor a Deus, a desafiá-lo, a desobedece-lo e (sic!) a tentar ofendê-lo. Sim, digo a tentar porque por mais que queira o homem jamais poderá tirar a glória de Deus. Não se diminui, por mais que se queira, o infinito. É como uma formiga que inutilmente pinça uma barra de ferro pensando ser capaz de, com sua força, destruí-la.
Se soubéssemos quão graves são nossas ofensas, como expôs o grande doutor, Santo Anselmo de Cantuária, não cairíamos tão facilmente. Se soubéssemos o quão horrendo é o pecado, nos atiraríamos nesse foço de misericórdia que é Nossa Senhora e de lá não sairíamos. Teríamos horror ao pensar nos pecados e jamais teríamos coragem de cometê-los. Entretanto, o pecado gerou no homem a concupiscência e a iniquidade. Quando falo em concupiscência, não uso o sentido estrito da palavra. Quando falo em concupiscência quero dizer que o homem criou um apetite pelo pecado e com a iniquidade e o orgulho, criou uma perversidade tamanha que o impede de ver o número e a gravidade de seus erros.
O homem não consegue ter as dimensões de seus erros e por isso não recorre a esse amor. Só com uma vida de oração profunda e com profundo amor a Maria é que o homem pode ter, de forma bem torpe e pueril a dimensão de seus pecados. Muito é necessária a vida de oração. A oração é mais importante que a ciência. A ciência incha, embora seja boa porque é dom de Deus, mas a oração nos diminui, nos faz ter contato com Deus e faz com que conheçamos nossa imensa pequenez junto a esse Infinito Deus.
Maria não é, pois, superior ao Altíssimo. Ela é apenas um reflexo, uma luz pequena do Grandioso e Bondoso Deus. Entretanto, justamente por termos a concupiscência, a luz de Deus nos cega. É necessário, pois um filtro manso, puro e humilde, plenamente humano, para que possamos olhar a luz. Maria filtra a luz de Deus tal qual a lua filtra a luz do sol. Ninguém jamais pôde olhar para o sol com os olhos despidos, mas todos podemos olhar e admirar o esplendor da lua sabendo, pois, que esse esplendor não é dela, mas do sol. A lua, por mais que queira não tira o brilho do sol. Maria não quer tirar a glória de Deus, mas como boa mãe que é, nos permite olhar de forma mais perfeita para essa grandiosa e ofuscante luz.
Quem é, pois, o homem, ignóbil tal qual é, para recusar esse filtro? Que tipo de soberba, que tipo de orgulho tem o homem para pensar-se suficientemente grande para olhar diretamente para Deus? Só mesmo Aquela a quem Deus santificou e criou sem mácula pode fazê-lo. Não sem razão os pagãos erraram tanto, chegando a adorar a natureza e a sacrificar seus filhos aos ídolos. Não sem razão há tanto radicalismo e tantos excessos fora da Igreja. Quando o homem se atreve a olhar para a luz de Deus sem passar por Maria, essa luz lhe ofusca e lhe confunde. Discorre desse ato de orgulho toda a sorte de puritanismos, farisaísmos, idolatrias e divisões. Ninguém pode contemplar Deus diretamente, tanto que Deus fez-se homem para elevar o homem à sua dignidade. Mesmo o Deus feito homem, quando expunha um pouco de sua Sabedoria colocava os homens ao escabelo. Quantas passagens ininteligíveis existem nos Evangelhos. É necessário, pois, que recorramos a Maria, a mais perfeita criatura, mais pura que os anjos de Deus nos céus, Aquela a quem o próprio Arcanjo São Gabriel chamou “Graça em Plenitude”.
Maria, concebida sem pecado como era, entretanto, poderia ter pecado caso quisesse. O fato de ser Imaculada não lhe tirou o livre arbítrio. Eva também era imaculada, foi tecida sem o pecado original. Entretanto, mesmo sem ter o pecado original, Eva sucumbiu às tentações de sua carne e pecou contra Deus, desgraçando toda sua descendência. Maria é a nova Eva. É a nova Eva porque Deus quis dar ao homem uma nova chance. Deus criou uma nova mulher Imaculada pela graça, por antecipação do Sacrifício de Cristo. É como se Maria tivesse sido batizada antes mesmo de nascer, pois foi já concebida sem pecado. Entretanto, a inteligência não alcança tão grande mistério de forma que é simplista dizer com certeza que a Imaculada Conceição é fruto de um batismo antecipado. A Imaculada Conceição foi a antecipação da Graça pela obediência certa de Jesus Cristo. Isso é possível porque pra Deus o tempo não existe, afinal, Deus é eterno.
Ao criar Maria, a Nova Eva, Deus deu uma nova chance ao homem. Criou outra Virgem Imaculada esperando outra resposta do homem. Maria, se quisesse e com muito mais razão, teria pecado, afinal o mundo já se encontrava totalmente distinto do mundo que Eva encontrou. O mundo estava marcadamente corrompido. Entretanto, Maria em suas orações e em sua simplicidade permaneceu sem pecado até sua morte, não por destino, mas por seu desejo e pela Graça de Deus que a auxiliou nesse propósito.
De fato, Deus não moldaria seu Filho, Jesus Cristo, em um ventre impuro. Certamente Maria passou por dificuldades, mas não possuía a iniquidade ou a concupiscência. Maria conhecia a gravidade do pecado, muito embora não o conhecesse. Maria não deixou de pecar por medo do Inferno, mas por amor a Deus. Isso fez de Maria a maior das doutoras, colocando mesmo os grandes doutores Santo Agostinho de Hipona e Santo Tomás de Aquino sob a planta de seus pés. São Luís Maria Grignion de Montfort com muita razão diz que um gesto simples do dia a dia de Maria foi mais grandioso que o martírio de Santo Estêvão, que se deu em meio às brasas. Maria era tão pura que aplicava amor total em todas as suas ações de forma tal que criava a perfeição, com a graça de Deus, mesmo nas coisas simples da vida. Santo Estêvão, por mais santo que tenha sido, jamais pôde ser chamado perfeito. Maria, ao contrário, foi chamada graça em plenitude (gratia plena) não pelos homens, mas pelos anjos de Deus e sem exagero algum. De fato, de Gênesis à Apocalipse não há, em nenhum momento, uma saudação similar àquela que foi dada à Mãe de Deus.
Também Santa Isabel, a bendita idosa que concebeu o profeta que precedeu Cristo, chamou Maria de “Mãe do meu Senhor” e mesmo sendo santa e com um ente santo em seu ventre, Santa Isabel se viu indigna de receber tão importante visita, a visita da mãe de Deus.
Se um anjo declarou que Maria era cheia de Deus, como diz a canção, quem somos nós para não o dizer também? Quem somos nós para que Deus se preocupe em nos deixar uma Mãe? Não merecemos o amor de Deus, antes merecemos sua cólera.
Assim mesmo, tendo todos os nossos pecados, Deus, através de sua mãe Maria Santíssima está a dizer: Filhinhos, voltem para a casa. É um apelo incessante que se dá não por necessidade de Deus, porque Ele não precisa de nada, mas sim pelo amor que Ele tem por nós. E quantos corações Deus espera, todos os dias, nos sacrários da Igreja através do Corpo e do Sangue de Cristo, dos quais jorram bicas de misericórdia e de amor. Quantas vezes Deus nos chama, sem cessar, voltem para a casa. Se o pulsar do coração de Deus (e também do coração de Maria) pudesse ser ouvido, ele estaria dizendo: eu te amo.
Por onde andam, pois, nossos passos que se recusam a seguir esse amor? Por onde se desvia nossa alma que procura outra coisa senão Deus e sua justiça através do Coração de Maria? Quem é o homem, que tipo de orgulho tem esse ser infame, para pensar, por um momento, que pode viver sem esse amor? Malditos sejam aqueles que não amam a Deus e que não o buscam de todo o coração, disse Santo Agostinho. De igual forma, malditos são os que não buscam Maria de todo o coração.
Logo os homens, esses seres tão desapercebidos, querem se impor a Deus. Logo o homem, tão pecador e ausente da Graça, decaído e humilhado. Quem pensa que é o homem para escolher viver sem Deus? Quem pensamos que somos ao deixarmos a Graça jorrar as bicas, por tantas vias diferentes, sem nos preocuparmos com nossa salvação? Pés corram, porque há muito tempo vocês têm procurado coisas vãs. Andem depressa para buscar a Deus, porque a hora já é adiantada e sua alma ainda não se consumiu pelo amor de Deus que, como fogo queima o papel, nos queima até nos aniquilar. Busquem a Salvação que jorra da Misericórdia de Deus, presente nas Graças distribuídas por Maria, antes que seja tarde e antes que seja envergonhado pelos seus pecados frente ao terrível juiz, ao qual nada escapa e que tudo lhe mostrará de sua vida no último dia. Nesse dia, será que estaremos preparados? Será que teremos amado o suficiente? Será que teremos feito a vontade de Deus?
Se soubéssemos quanto amor e quanta felicidade nos aguarda diríamos a todo instante: “Mãe, ensina-nos a ser nada para que Cristo seja tudo em nós”. Maria foi um nada, se auto chamou escrava de Deus e assim deixou Deus fluir através de seu coração, permitiu que Cristo fosse tudo nela. Sede em nosso favor Virgem Santíssima, dá-nos a santidade. Ensinai-nos Virgem Santíssima a sermos nada, a nos aniquilarmos, a nos dissolvermos nesse Infinito amor de Deus. Ensinai-nos a ser nada para que Cristo seja tudo em nós. Vem em nosso auxílio, oh Mãe, e apressa nossos passos para perto de Deus e para longe do pecado. Apressa nossos passos, oh Mãe, e nos leve até vosso Divino Filho, chagado pela Misericórdia, para que sejamos seus servos, seus mais fiéis vassalos.
Se pudéssemos compreender a bondade de Deus, se pudéssemos tocar sua misericórdia preferiríamos morrer de fome para ter sua Graça do que trabalhar pensando em ter o que comer. Entretanto, é vontade de Deus que vivamos para que mostremos ao mundo, com orações e exemplos, sua misericórdia e seu amor. É para ter mais servos de Deus que Ele nos permite viver. E quantas almas existem precisando da Misericórdia! Quantas pessoas teriam vivido ao invés de escolher a morte se tivessem conhecido esse amor! Deus nos oferece dois caminhos, o de segui-lo, tendo assim a vida, e o de abandoná-lo, tendo assim a morte. Devemos, pois, escolher a vida.
A escolha da vida nos faz automaticamente seguir o belo exemplo de servidão e de entrega total a Maria. Sejamos seus imitadores, porque ela foi a mais perfeita imitadora de Cristo. Não há outra forma, não existe outra via tão segura. Sejamos, pois, retos, mansos e humildes de coração. Não sigamos o pecado, porque o salário do pecado é a morte. Se não temos a força que é necessária, é bom evitarmos as situações de pecado. Que sejamos, pois, verdadeiros filhos de Deus.
Que nos deixemos nos consumir pelo infinito amor de Deus e que sejamos a cada dia mais fiéis e mais orantes. Que tenhamos o firme propósito de não mais pecar e que Maria nos dê o arrependimento perfeito, aquela compunção de Davi penitente. Que possamos nos extinguir, nos aniquilar na vontade de Deus, afinal, sem Deus aonde iremos? Só Deus tem palavras de vida eterna, a felicidade sem fim ao lado de nosso bem amado.

Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos gemendo e chorando nesse vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei. E depois desse desterro, mostrai-nos Jesus, o Bendito Fruto de Vosso Ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre virgem Maria.
Rogai por nós, Santa Mãe de Deus.
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Amém

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A importância da humildade



Por: Eduardo Moreira 
Certa vez disse São Tomás de Aquino que a humildade é o primeiro degrau da sabedoria. Muito feliz esse santo ao descobrir tão grande mistério. De fato, feliz o homem que é humilde, porque seus dias são tranquilos, sua vida é longa e a amargura nunca tomará seu coração. Outra importante lição, que só os humildes são capazes de absorver, a chave para nunca se magoar, é nunca se sentir ofendido.
De forma igual, São Francisco (tal qual São Tomás) descobriu a beleza da humildade. São Francisco depois de ter sido humilhado aos mais baixos degraus, pôde, enfim ser verdadeiramente cristão e verdadeiramente feliz. Chamado de ladrão por ter partilhado os tecidos de seu pai com os pobres e de covarde por não ter vencido uma batalha, São Francisco descobriu que tinha algo a mais, uma dívida impagável, infinita para com Deus. Seria loucura alguém se felicitar com uma dívida, mas foi exatamente o que ocorreu com São Francisco que, humilhado, descobriu que era um pequenino dependente de Deus.
Corre uma história de que certa vez um irmão de ordem questionou: por que tantas pessoas lhe seguem Francisco? Você não tem formosura, não tem riquezas. Qual é o teu segredo? E São Francisco, em toda sua humildade, respondeu: porque não há nenhum servo de Deus tão pequeno e tão miserável quanto eu. E foi nessa vida, uma vida de amor à irmã pobreza e de quem realmente devorava o jejum que São Francisco, provado pela fome, pelo frio e pelas boas obras, se tornou um dos maiores santos de todos os tempos, admirado até pelos não católicos.
Tantas vezes somos tentados a nos vermos como perfeitos, sendo que isso não é verdade. Tantas vezes não nos arrependemos de nossos erros e nos precipitamos aos julgamentos temerários. Quanto a isso, Tomás de Kempis escreveu em sua Imitação de Cristo:
Procura sofrer com paciência os defeitos e quaisquer imperfeições dos outros, pois tens também muitas que os outros têm de aturar.
Já pensou nisso? Já imaginou que, antes de se fechar em seu orgulho, é necessário compreender que você também tem suas limitações e que, tais quais as limitações do próximo, as suas também precisam de correção? Seja humilde, porque conforme disse Nosso Senhor: bem aventurados os mansos e humildes de coração, porque possuirão a terra.